As mobilizações dos estudantes e a política da Confederação de Estudantes de Chile

A Confederação de Estudantes de Chile (CONFECH), que reúne 25 federações de estudantes universitários, recentemente chamou o governo chileno para dialogar. O presidente Sebastian Piñera respondeu chamando uma “mesa de diálogo”, pressionado pela efervescência social das mobilizações estudantis.

Nos dias 27 e 28 de agosto, a CONFECH decidiu participar dessa mesa, sem consultar ninguém. Mas essa decisão foi rejeitada por amplos setores de estudantes. E por qual razão? Simplesmente porque não houve nenhuma consulta às bases (que a CONFECH diz representar) para levar a cabo a dita mesa. Foi uma decisão tomada apenas pelos dirigentes do movimento estudantil de forma caprichosa, justificando que “seria mau visto se não fossem, uma vez que tinham chamado e agora recusavam a participação na mesa de Piñera” .

Respondemos à CONFECH que não importava se a confederação ficaria em má situação ou não com o governo Piñera: o primordial são as bases estudantis, a consulta a elas. Esse é o mecanismo mínimo de qualquer democracia, e não caminhar para a burocratização do movimento estudantil, a ante-sala à traição das lutas.

Claramente esta postura de “dialogar” (por cima com o executivo e por baixo desmobilizar) é um passo à traição das demandas do movimento estudantil, movimento a cinco meses está mobilizado. Por isso é que rejeitamos o diálogo sem mobilização.

Devemos ser claros em exigir à CONFECH um calendário de mobilizações, e que estas sejam preparadas e organizadas. Propomos que cada tema que se discuta e se aprove na “mesa de diálogo” deva, antes de qualquer coisa, ser realizado com prévia aprovação dos estudantes mediante assembleias e votações. Ou seja, deve ser um processo totalmente transparente e público, no qual haja uma ativa participação de todo os estudantes e atores envolvidos.

A proposta do movimento deve ser clara: que não se negociem ou se modifiquem os 12 pontos das demandas do CONFECH; e que, ademais, se agreguem as demandas dos estudantes secundaristas reunidos na Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundaristas (ACES) e a Coordenadora Nacional de Estudantes Secundários (CONES).

É por isto que o chamado fundamental da CONFECH deve continuar a mobilizar, e os dirigentes honestos devem denunciar as manobras burocráticas do Partido Comunista Chileno e da “Concertación” [aliança entre socialistas e a democracia cristã que governo o país até a vitória de Piñeira] dentro da mesma CONFECH, que não tem atuado segundo as exigências de suas bases. Pelo contrario, aposta na desmobilização, algo que se fez evidente em várias ocasiões, como, por exemplo: A suspensão da atividade dos “500 mil ao parque”; da marcha do dia 8 de setembro sob pretexto do “luto” pela tragédia aérea de Juan Fernández; ter chamado, com só em um dia de antecipação, uma marcha para o dia 14 de setembro, confundindo os estudantes mobilizados, que estavam esperando a marcha para o dia seguinte. Essa marcha também não foi nem discutida, nem preparada, nem votada pelos estudantes, o que gerou novamente descontentamento e confusão, e pior ainda, poucos saíram a marchar.

A imprensa burguesa tem utilizado tudo isto a seu favor. Tem alardeado que as mobilizações anteriores eram muito maiores, e que o processo está desgastado. Se Jackson (Giorgio Jackson, líder estudantil) e Vallejos-Ballesteros (Camila Vallejos, líder estudantil do Partido Comunista) queriam mostrar sinais de boa conduta ante o governo conseguiram. Mas a custa de uma nova traição, tal como o fizeram na Revolta dos Pingüins, em 2006. Neste contexto, é imprescindível a existência de cargos revogáveis em todas as instâncias dirigentes. Assim evitaremos a burocracia e a traição, gerando um movimento transparente e que acate as decisões das bases.

Mas contra todos os prognósticos burgueses, as bases estudantis se mostraram relutantes em aprovar essa condução burocrática. Por essa razão é que na assembleia da CONFECH, realizada no dia 15 de setembro, em meio a um acalorado debate, foi recusada as condições propostas pelo governo para a mesa de diálogo. O documento foi lido sem a presença de Jackson e Vallejos, que se retiraram “por outros compromissos”. O episódio mostra, claramente, que o PC não pode controlar a CONFECH, por isso se jogará para dividi-lá.

Assim foi anunciado, com apoio da maioria das federações, a retomada das marchas para os próximos dias 22 e 29 de setembro, e para o dia 7 de outubro.

Essa última é uma data emblemática, dentro da contenda ideológica, pois o governo a estimou como a data limite para terminar o primeiro semestre acadêmico. Claramente, o plano proposto pelo governo de “salvar o ano letivo”, com a retomada das classes para os secundaristas os e assim dividir o movimento, tem sido um fracasso total, como demonstram os 87 mil estudantes que ainda não se matricularam. Além disso, as reivindicações do movimento contam com a alta aprovação, segundo pesquisas de opinião pública.

O governo, que cria constantes cortinas de fumaça para cobrir os conflitos sociais, hoje tenta fazer isso com o desastre aéreo de Juan Fernández para desviar as mobilizações estudantis. Sentado com a CONFECH e insinuando acordos, o governo exibe um otimismo desmedido – claro que isso parece se mais desejo do que realidade. Isso porque o movimento ainda segue com força na luta.

Nós, da Esquerda Comunista, chamamos todos a seguir mobilizados. Não estamos desgastados, estamos motivados! Por isso devemos estar atentos a possíveis negociações ou decisões que poder ser tomadas às costas dos estudantes. Temos que seguir mais firmes do que nunca, porque a educação no Chile não se vende, mas se defende. Estamos conquistando a consciência do povo trabalhador para a luta pela RENACIONALIZAÇÃO DO COBRE e para a EDUCAÇÃO GRATUITA.