As lições da campanha salarial dos petroleiros

A Petrobrás está tendo neste ano o maior lucro de sua história. No entanto, os petroleiros encerraram a campanha salarial com um acordo muito abaixo do que reivindicavam e poderiam ter conquistado. Isso se deve à maioria da direção da Federação Única dos Petroleiros (FUP), hegemonizada pela Articulação, governista e pró-direção da empresa.

Os petroleiros tiveram 15,5% de reajuste (metalúrgicos das montadoras, por exemplo, conseguiram 18,01%). Não conseguiram mais 6% de produtividade e nem a equiparação de direitos para os novos.

A campanha salarial confirmou o enfrentamento do nono congresso da FUP, no qual compareceram o presidente da Petrobrás, José Eduardo Dutra, e vários ministros de Lula, demonstrando que a maioria da direção da FUP e dos sindicatos atuariam na campanha como corrente de transmissão da política do governo.

E assim aconteceu. A ação das direções governistas na FUP e nos sindicatos visava impedir que os petroleiros construíssem um acordo que rompesse com a política de arrocho salarial, fosse contrária às reformas trabalhista e previdenciária e ameaçasse o superávit primário que o governo Lula assumiu com o FMI.

Do outro lado, defendendo as reivindicações e a organização da luta, estavam os delegados dos trabalhadores novos e aposentados, prioritariamente do Rio de Janeiro (oposições da bacia de Campos e de Caxias) e os companheiros do MTS de Sergipe, Alagoas e Pará.

Rebelião de base foi a tônica da campanha

Enquanto a FUP atuava para impedir o fortalecimento da campanha, a base lutava para reconstruir os comandos de base e apontar indicativos que pudessem unificar as ações.

Como forma de destruir a campanha, a maioria da direção não indicou a rejeição da proposta de acordo da empresa. Mas foi atropelada pelos trabalhadores em cinco assembléias de base, representando 85% da produção de petróleo, 15% do refino, o prédio da administração central e o centro de pesquisa.
O que se viu foi a base se rebelando: vaiando as intervenções dos governistas, como no prédio central, no Rio de Janeiro, tomando o microfone, como em Taquipe (BA) e aprovando moções de repúdio à condução da campanha, como nas plataformas de Campos (RJ).

Esta rebelião de base não foi suficiente para tirar o controle da campanha das mãos das direções chapa branca, mas fortaleceu a oposição na base.

O boletim Outros 50, que aglutina a oposição à direção majoritária da FUP, se fortaleceu como pólo de unificação das oposições regionais, dos que lutam por sindicatos independentes, pela organização e poder de deliberação da base. A campanha deixou uma lição para os trabalhadores: ou temos sindicatos independentes do governo ou nossas campanhas estarão submetidas às políticas e acordos do governo com o FMI e a Alca. Agora é unificar a luta contra as reformas, o acordo com o FMI e a Alca e pela antecipação da Participação nos Lucros e Resultados (PLR).

UMA NOVA DIREÇÃO CONTRA A POLÍTICA ECONÔMICA

A Petrobrás é um dos principais pólos de sustentação da política econômica do governo Lula/FMI, que, para cumprir seu superávit primário, impede a recomposição dos salários. A “reforma” da Previdência, por sua vez, manteve diferenças entre novos e antigos e fortaleceu a tentativa de fazer com que o plano Petros de Previdência não garanta mais benefícios definidos de aposentadoria.
Por sua vez, a Alca leva a Petrobrás a negociar suas ações nos EUA, avançando a internacionalização.
Não é possível lutar em defesa dos trabalhadores, da empresa estatal e sob controle dos trabalhadores e da maioria do povo, sem lutar contra as políticas do governo Lula.
Os petroleiros para lutar precisam de uma nova direção.

Post author Wiliam Côrbo, de Duque de Caxias (RJ)
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