Artigo: As balas racistas da Câmara de São Paulo


 
 
A postos para o seu general, mil faces de um
homem leal. Essa noite em São Paulo um anjo vai
morrer por mim, por você, por ter coragem em dizer”.
(Racionais MC)
 
 
No dia 3 de setembro, a Câmara Municipal de São Paulo votou um projeto que autoriza a realização de uma homenagem – a concessão da “Salva de Prata” — às Rondas Ostensivas Tobias Aguiar, a famigerada Rota. O projeto foi proposto pela chamada “Bancada da Bala”, um dos blocos mais reacionários e grotescos da Câmara, formado por ex-policiais, como o coronel Álvaro Batista Camilo (PSD), ex-comandante da PM, o coronel Paulo Adriano Telhada (PSDB) e o capitão Conte Lopes (PTB), ambos ex-comandantes da Rota.
 
Essa foi a terceira vez que o projeto entrou em votação. Nas duas anteriores, foi rejeitado por falta de quórum. Desta vez, contudo, Telhada convocou uma verdadeira tropa de choque para pressionar os vereadores e, evidentemente, reprimir os muitos opositores à proposta.
 
O projeto apresentado pelo coronel tucano foi aprovado com 37 votos a favor e 15 contrários. Dentre os que apoiaram esta vergonhosa homenagem está a totalidade das bancadas do PSDB, DEM, PSD, PR, PTB, PHS e PSB. O único a se abster foi o vereador Ari Friedenbach (PPS).
 
PT, PCdoB e PSOL votaram contra a proposta. Contudo, no que diz respeito aos partidos governistas, não há como ter ilusão de que o voto significou um repúdio ao projeto. Muito pelo contrário. Antes que fosse proposto que a votação se desse de forma nominal e não secreta, pelo menos sete dos onze vereadores do partido da presidente Dilma Rousseff haviam declarado voto a favor à proposta.
 
Diga-se de passagem, a simpatia cada vez maior dos petistas pelas forças e aparatos de repressão também ficou evidente nas atitudes autoritárias e repressoras de um de seus dirigentes, o presidente da Câmara, Pedro Américo, que não vacilou em mandar deter e expulsar do plenário manifestantes que protestavam contra esta homenagem absurda e descabida.
 
Uma tropa racista a serviço da morte e o Coronel de Sangue
É um escândalo que qualquer instituição que se diga democrática preste uma homenagem à Rota, cuja história e métodos se desenvolveram nos cantos mais sombrios da ditadura, nos anos 1970, e incluem a conivência e o estímulo à formação dos esquadrões da morte, a tortura sistemática e a execução de militantes de esquerda, sindicalistas e ativistas de todos e quaisquer movimentos sociais.
 
Ainda na época da ditadura, o batalhão cumpriu um papel de asqueroso destaque. Esteve por trás da forte repressão às organizações políticas que lutavam contra o regime militar, como as dirigidas por Lamarca, na região do Vale do Rio Ribeira do Iguape, e Marighella, confirmando o nome pelo qual era popularmente conhecido desde que serviu como uma das bases de sustentação do golpe militar de 1964: o “Batalhão dos Caçadores”.
 
Segundo Telhada, estes serviços prestados à ditadura são um dos fatores que supostamente justificam a homenagem ao pelotão, já que, segundo o vereador, naquela época a ação da polícia era eficaz. A eficácia da Rota, contudo, pode ser melhor exemplificada por uma das pichações mais frequentes nos muros da cidade durante os anos de chumbo: “A Rota arrota projéteis na calçada”. Uma eficácia até hoje reivindicada por outro fascista de carteirinha: o ultracorrupto Paulo Maluf.
 
São práticas que, lamentavelmente, em nada mudaram com o processo de democratização. Muito pelo contrário. Só foram transferidas dos porões da ditadura para as ruas e becos das periferias.
 
Policial dedicado às barbáries cometidas por esta tropa de elite, não é um acaso que o hoje vereador Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada (PSDB) tenha sido comandante da Rota, muito menos que ele tenha sido o autor da proposta de homenagem. Telhada tem uma longa ficha corrida de serviços criminosos prestados à classe dominante que só não é menor do que seu menosprezo aos mais básicos direitos democráticos.
 
Apenas como exemplo, basta lembrar que, alguns dias depois das últimas eleições municipais, enquanto a chamada Operação Saturação havia mergulhado a cidade de São Paulo numa onda de ataques policiais contra negros e pobres nas periferias, o vereador Telhada veio a público defender que o maior obstáculo que havia no combate ao crime era a Constituição.
 
Na lógica fascista do policial-vereador, a criminalidade tem aumentado porque “existe muita gente que não quer assumir a responsabilidade de combater o crime da maneira adequada”. E sabemos bem que, para “gente” (um termo nada apropriado, no caso) como Telhada, a melhor maneira se resume a uma frase bastante conhecida: “bandido bom é bandido morto”. E num país onde o racismo determina que “negro parado é suspeito, correndo é ladrão”, não é preciso muito esforço para saber quem são os alvos preferenciais da Rota.
 
Um batalhão a serviço do genocídio da juventude negra
A política racista e letal da Rota pode ser exemplificada por alguns poucos, mas trágicos, números que comprovam que Telhada e seus comparsas só podem ser apontados como alguns dos principais representantes da constante política de genocídio que vem sendo praticada contra a população jovem e negra.
 
Em 2012, por exemplo, o batalhão teve uma troca de comando. O que saiu, o tenente-coronel Salvador Madia, carregava em seu currículo o envolvimento direto com o assassinato de 73 presos do 3º Pavimento do Pavilhão 9 do Carandiru. Se isso não bastasse, ele só deixou a função depois de o número de mortos pela Rota ter crescido 45%, nos primeiros cinco meses em 2012, cerca de 45% em comparação ao mesmo período de 2011.
 
Seu substituto, Nivaldo Cesar Restivo, não fica atrás no que se refere aos massacres e chacinas. Ele foi denunciado pela participação no espancamento de 87 presos na operação de rescaldo, logo após o Massacre do Carandiru. E, desde que assumiu as ações da Rota, só tem piorado.
 
A Rota também é campeã nos assassinatos mascarados sob a farsa da “resistência seguida de morte” (RSM) e está entre um dos principais setores da polícia responsáveis pelo fato de que, entre janeiro e outubro de 2012, cerca de 400 casos tenham sido registrados como RSM. Uma farsa que vez ou outra vem à tona, como no caso do dentista Flávio Sant’Anna, em 2004, ou do pedreiro Gefferson, assassinado no Campo Limpo, em 2012.
 
O fato de os dois serem negros, lamentavelmente, não é uma surpresa. Afinal, este é um país onde um jovem negro é assassinado a cada 25 minutos e tem absurdos 139% mais chances de ser morto do que um branco.
 
Salva de Sangue
Diante de tudo isto, homenagear sujeitos como Telhada, Conte Lopes e Álvaro Camilo é, literalmente, virar cúmplice de milhares de assassinatos. Significa assinar em abaixo e dar apoio não só para as barbáries praticadas por estes senhores. Uma barbárie da qual eles se orgulham, como fica evidente em declarações como a seguinte, dada por Telhada numa entrevista ao programa Operação Policial: “eu acho que não existe maior amante da vida do que o que mata alguém”.
 
Por isso mesmo, só podemos dizer que os vereadores que aprovaram a Salva de Prata não só estão dando uma carta “branca” (literalmente) e legitimando estes assassinatos, como também mergulharam suas mãos no sangue de milhares de mortos. Foi exatamente isto que a Câmara de SP fez. Legitimou o massacre cotidiano que jovens do Campo Limpo, Parelheiros, Brasilândia, Jardim Ângela, Cidade Tiradentes, Capão Redondo, São Mateus e tantos outros bairros periféricos que sofrem desde seu nascimento, sem nunca receber qualquer compensação ou reparação por parte dos mesmos vereadores que votaram a homenagem.
 
Os mesmo vereadores que, diga-se de passagem, mergulhados na corrupção, são responsáveis pelo o chamado “genocídio difuso” que provoca, diariamente, a morte de centenas, ao negar-lhes acesso à saúde, à educação, à moradia e tudo mais necessário a manter-se vivo.
 
Só a luta garante a vida
Enquanto estes senhores homenageiam seus cúmplices, só temos um caminho: homenagear nossos mortos através da luta para que, um dia, não existam mais Telhadas ou outros da mesma espécie, já que é uma ofensa aos seres humanos colocá-los na mesma categoria.
 
Precisamos, hoje, unificar todos os que lutam contra a opressão e a exploração , os movimentos sindical, negro, popular, feminista e LGBT, para dar continuidade ao que vimos nas ruas nas Jornadas de Junho e nos dias de lutas e paralisações de 11 de julho e 30 de agosto até que possamos por um ponto final neste genocídio e, ao invés de homenagear os assassinos, puni-los de forma exemplar.
 
E não só eles. Também todos vereadores que deram aval e legitimidade aos assassinos como também seu comandante, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. 
 
– Fora Alckmin!
– Fora Telhada e a Bancada da Bala!
– Pela desmilitarização da PM!
– Assassinos não devem ser homenageados, mas sim encarcerados!
– Abaixo a “Salva de Sangue” do Telhada