Arte e revolução: substantivos femininos

A luta das mulheres contra a opressão é travada nos mais diferentes palcos. Um deles, e dos mais difíceis, é o da arte, onde, desde sempre, as mulheres foram vistas como “objeto”: transformadas em imagens destinadas apenas a satisfazer o olhar masculino; cantadas em versos e prosa, para ressaltar sua fragilidade ou suas “qualidades” na servidão aos homens; ou, ainda, representadas como “heroínas melodramáticas” ou figuras frias e maquiavélicas, todas as vezes que questionam ou se rebelam contra o mundo machista que as cerca.

Felizmente, sempre houve exceções. Da poeta Safo – que por volta de 600 a.C. manteve uma escola na ilha de Lesbos (origem do termo “lésbicas”) – até os dias de hoje, sempre existiram mulheres que fizeram de sua arte um instrumento de denúncia e combate ao machismo e, muitas vezes, combinaram isso com o questionamento do mundo em que viviam. Nesta página citamos algumas destas mulheres, com o objetivo de homenagear tantas outras que, mesmo anonimamente, continuam a rimar arte com liberdade.

Telas e páginas a serem ocupadas
Seria nossa intenção finalizar esta página mencionando artistas africanas que produziram arte na luta contra a colonização de seus países, em todo o continente, o apartheid sul-africano ou tantas outras mazelas que marcaram e marcam a vida da África. Contudo, apesar de termos certeza de que foram muitas mulheres que se inscreveram nesta história, muitas vezes às custas de sua própria liberdade e vida, não é surpresa a dificuldade em localizá-las nos livros e jornais. Se o machismo já marginaliza a mulher também no fazer artístico, sua combinação com o racismo é ainda mais fulminante.

Pagu: deglutindo a opressão e a exploração
Patrícia Galvão (1910 -1962) começou a colaborar em jornais aos 15 anos. Aos 18, juntou-se ao grupo modernista, liderado por Oswald de Andrade (com quem manteve um “escandaloso” relacionamento) e Tarsila do Amaral, então casada com Oswald.

Neste mesmo ano, os modernistas haviam lançado o “Manifesto Antropófago”, em que defendiam que, diante do poderio e da imposição da cultura dominante sobre um país colonizado como o Brasil, seria necessário agir como “canibais”: deglutir “o inimigo”, para dele arrancar sua força vital, e criar algo novo, resultante da mescla com nossas raízes indígenas e negras.

Se na arte esta estratégia resultou em um dos períodos mais criativos de nossa história, nas mãos talentosas de Pagu também serviu como instrumento de luta contra a opressão machista e a exploração capitalista. A partir de 1931, ela começou a assinar a coluna “A mulher do povo” no jornal “O homem do povo”, fundado com Oswald, onde criticava as “feministas de elite” e defendia o apoio à “esquerda revolucionária”.

No mesmo período, Pagu era figura de destaque nos comícios e greves na região portuária de Santos. Uma atividade condenada pelo Partido Comunista (ao qual ela era filiada), que chegou a fazer uma campanha para desqualificar Pagu, acusando-a de “agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”.

Não bastasse a perseguição por parte do PC – que também tentou censurar seus livros, como o excelente Parque Industrial, que foi obrigada a lançar sob um pseudônimo – Patrícia foi presa e torturada inúmeras vezes, no Brasil e na Europa, onde viveu exilada no final dos anos 30.

Após uma temporada na Rússia, Pagu rompeu definitivamente com o PC, com duras críticas ao estalinismo: “…o homem nascido no Brasil, em Cuba, na China ou na Rússia, nestes tempos, não tem necessidade de nenhum ‘pai dos pobres’, de ‘paizinho’, quer se chame Getúlio Vargas ou José Stálin”.

Críticas que a levaram a se aproximar de Mário Pedrosa e outros trotskistas agrupados em torno do jornal Vanguarda Socialista, para o qual passou a escrever. Neste período, também se filiou à Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente, fundada em 1938 por Leon Trotsky e André Breton.

Nos anos finais de sua vida, Pagu dedicou-se intensamente ao jornalismo e ao teatro, sua grande paixão, deixando uma obra que, até hoje, é exemplar.

Artemísia e as sombras do machismo
Uma das primeiras mulheres a aliar arte e luta viveu há quase 500 anos, é considerada a primeira pintora da história e, também, a precursora em fazer da arte uma forma de denúncia do machismo. Seu nome era Artemisia Gentileschi e viveu onde hoje é a Itália, entre 1593 e 1651, em um período no qual a opressão à mulher traduziu-se em quase total enclausuramento, quando não em fogueiras da Inquisição.

Após ser estuprada por seu professor (e vê-lo inocentado), Artemísia utilizou-se de seus belíssimos quadros para representar mulheres fortes, contra um universo pesadamente opressivo. Em poderosos jogos de luz e sombra, suas mulheres resistem ao machismo com as armas que têm à mão: do isolamento, como no caso de Susana, ameaçada pela calúnia e pelo assédio, à retaliação violenta, como em Judite e Holofernes (acima), que representa a heroína judia eliminando aquele que queria escravizar seu povo.

Frida: para além da sufocante realidade
Se são poucas as mulheres do mundo que conseguiram incorporar em suas vidas e obras, de forma tão radical e intensa, a combinação de arte, luta pela libertação das mulheres e revolução, dentre as que devem figurar no topo da lista certamente está o nome da mexicana Frida Kahlo (1907 – 1954).

Filha de pai alemão e mãe mexicana, Frida começou a pintar ainda na adolescência, enquanto se recuperava de um grave acidente que deixou seqüelas por toda sua vida.

Audaciosa, independente e questionadora de tudo que se impunha como “norma”, Frida superou suas dores e sofrimentos físicos, sua condição de mulher em um mundo dominado por homens e todo e qualquer obstáculo que houvesse em seu caminho para compor uma trajetória única: na vida, na arte e na revolução.

Tendo sido casada a maior parte de sua vida (com muitas idas e vindas) com o muralista Diego Rivera (que, depois do primeiro encontro, a retratou como uma mulher entregando armas a revolucionários mexicanos, no mural “Balada da Revolução”), Frida ainda rompeu os limites da sexualidade e da afetividade, mantendo livremente relacionamentos com homens e mulheres, entre eles o revolucionário Leon Trotsky, que se abrigou em sua casa, no México, antes de seu assassinato, a mando de Stalin, em 1940.

Mundo afora, Frida é conhecida como a mais importante e talentosa pintora surrealista das Américas. A opção pelo estilo marcado pela representação do delírio, dos sonhos e da fantasia, evidentemente, não foi casual. Diante de um mundo marcado pela opressão, pela miséria e também pelo sofrimento pessoal, Frida encontrou no surrealismo a forma precisa para falar de seus sonhos e desejos.

Mais do que uma “fuga” para outra realidade, seus quadros são comentários profundos sobre um mundo que não lhe satisfazia. Um mundo marcado por incongruências e contradições (como a de sua própria origem, representada em “As duas Fridas”, onde a herança européia e as tradições astecas completam-se num único ser). Um mundo contra o qual Frida lutou até seu momento, literalmente. Uma semana antes de morrer, a pintora foi vista num protesto contra a intervenção da CIA na Guatemala.

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