Armando Boito e a Batalha de Itararé

Prezados corrrespondentes,

O final de semana anunciou uma segunda-feira de chuvas e trovoadas na política brasileira. Uma revista de extrema-direita falou de dinheiro cubano, o senador Jorge Bornhausen, conhecido fascista, falou em impeachment, e o tucano Arthur Virgílio, virtuoso e radical como um Maximilen de Robespierre, anunciava o fim do acordão que a oposição fez com o governo. Não falavam em aprofundar as apurações e descobrir as entranhas da corrupção que faz do dinheiro o rei da democracia brasileira. Nada disso, falavam em processo político de impeachment como mera retaliação por terem acertado um tucano mineiro em pleno vôo.

Do lado do Planalto, Lula, o mesmo “Lulinha paz e amor“, reuniu seu gabinete de crise e decidiu, segundo anunciou a imprensa, que partiria para a guerra.

Muita gente se animou com essa “luta de classes“ com data e hora marcada. Afinal, está fazendo falta uma demão de tinta vermelha para tingir o governo Lula. Mas, felizmente para os espíritos pacíficos, a segunda-feira amanheceu ensolarada.

Jorge Bornhausen e Arthur Virgílio desistiram do impeachment e até de convocar o Antonio Palocci para depor. Aliás, na CPI dos bingos, o impoluto e radical Arthur Virgílio já tinha firmado posição de que nem Palocci e nem seus parentes próximos poderiam ser incomodados com questões relativas à tal de Justiça – tratava-se, na ocasião, de convocar o irmão do Czar da economia, Ademar Palocci, que, lembrando seu homônimo famoso, era suspeito de corrupção ativa. Nada de convocações, nada de guerra. Prevaleceu a tese da maioria do PSDB (Aécio, Serra e outros) e do PFL (ACM e outros) segundo a qual se a burguesia parlamentar radicalizar ela corta os preciosos laços que detém com a massa da grande burguesia, toda ela mais do que nunca satisfeita com Lula. Ou será que alguém se esqueceu que num momento agudo da crise todas as associações nacionais do grande capital foram a Brasília hipotecar apoio público e ostensivo ao Presidente operário? Ou será que ninguém leu as inúmeras entrevistas e artigos de dirigentes do grande capital, como o artigo publicado pela Folha de S. Paulo de 04 de setembro assinado pelo presidente da Fiesp agitando a palavra-de-ordem “Chega de crise!“? Os deputados de direita querem ganhar eleição, mas entendem, mesmo a contragosto, que precisam manter firme o terreno onde pisam.

E o Governo Lula e seu Ministério da Crise? A guerra que esses iam travar também se desfez:

1) concluíram que faltariam trabalhadores para serem mobilizados, pois Lula manteve o arrocho do salário mínimo, não tem política de reajuste para os funcionários públicos e tampouco política salarial de reposição automática das perdas salariais;

2) consideraram que se convocassem os camponeses, por mais que o MST demonstrasse alguma boa vontade, os milhões de acampados para os quais o governo não ofereceu nenhuma solução e as dezenas de assassinatos de camponeses por todo o país eram uma chaga aberta;

3) avaliaram que poderiam faltar intelectuais para fazer a luta de idéias. Os professores das universidades federais estão sangrando, o Governo Lula os aperta ainda mais e, ao mesmo tempo, a dupla Lula e Fernando Hadad distribui dinheiro à larga às universidades privadas através do PROER, perdão, do PROUNI e do BNDES;

4) viram que se se dirigissem aos ambientalistas, lhe perguntariam sobre a lei de biossegurança e sobre a destruição da Amazônia, agora com projeto de regulamentação lulista;

5) as feministas quereriam saber porque o Governo Lula determinou a sustação da tramitação do projeto de aborto;

6) os democratas e os familiares de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar interpelariam o Governo sobre a iniciativa tomada pelo Governo Lula de proibir o acesso aos documentos que testemunham os crimes cometidos pelas Forças Armadas contra os guerrilheiros do Araguaia;

7) os antiimperialistas iriam perguntar sobre o envio de tropas ao Haiti e sobre o voto sapecado ontem pelo “nacionalista“ Celso Amorim a favor dos EUA e contra Síria no Conselho de Segurança da ONU e (são muito radicais esses antiimperialistas…) não iriam querer saber dessa história de que é preciso servir ao imperialismo para poder ingressar como membro permanente do tal Conselho;

8) alguns pensaram em pedir apoio às “elites“, mas logo viram que o Governo não está mais podendo contar com seus queridos parceiros, os governadores do PFL, do PSDB, do PP etc., com quem o Presidente Lula, em meados de 2003, desfilou de braços dados e com ar desafiador e vitorioso (vejam as fotos da época…) no trajeto entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional para lá depositar o projeto de reforma neoliberal da Previdência;

9) os corruptos do governo pediram para não fazer guerra porque isso poderia mobilizar os corruptos da oposição o que só iria, nas palavras despudoradas do senador Aloísio Mercadante, “prejudicar a todos: tucanos e petistas“;

10) enfim, concluiram que para essa guerra o exército do Lula mais parecia um Exército de Brancaleone. A perspectiva era um novo 16 de agosto de 2005, a manifestação de “protesto em apoio ao governo“ (!) que foi um verdadeiro fiasco;

11) mas pesou também para a decisão de desistir da idéia de fazer guerra o fato de que o presidente operário receberia hoje o inefável Bush, o ditador do planeta, para uma amistosa churrascada na capital da nossa triste República e não ficaria bem incomodar tão nobre convidado… (Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança…)

Portanto, nada de guerra; é acordão mesmo! (À parte, é claro, as briguinhas eleitorais entre as duas torres gêmeas do política brasileira.)

(Armando Boito)

PS. Uma última observação.

A continuidade da greve nas universidades federais tem como um de seus principais motivos o fato de o Governo Lula estar desrespeitando os direitos previdenciários dos professores aposentados. Enquanto isso, o sr. José Genoíno acaba de receber uma bela aposentadoria de R$8.000,00 da Câmara dos Deputados, segundo noticiaram os jornais. Trata-se de um prêmio por esse sr. ter praticado, em parceria com Marcos Valério, crime de colarinho branco, segundo a caracterização do insuspeito Márcio Thomas Bastos.

Aposentadoria especial para deputado! E justo para o sr. José Genoíno que sempre afirmou, como voltou a fazê-lo por ocasião de sua última aparição pública no programa Roda Viva da TV Cultura, que os funcionários públicos são privilegiados e corruptos – principalmente os concursados, disse ele então…