América do Sul: Acabaram-se as vacas gordas

O impacto da crise econômica na Argentina, Venezuela e BolíviaA crise econômica internacional já golpeia com muita força a América do Sul. Todos os dados mostram que as economias dos países que mais se beneficiaram no anterior período de crescimento, como Venezuela e Argentina, estão desacelerando. A realidade desmente de forma contundente dois mitos bastante difundidos desde que se manifestaram os primeiros sintomas da crise nos EUA.

O primeiro foi a “teoria do descolamento” segundo a qual o novo pólo industrial surgido na China, na Índia e em outros países asiáticos poderia compensar a queda das economias do EUA e Europa. Como a maioria dos países sul-americanos exportam de modo crescente para esse “pólo asiático”, sofreriam muito menos do que os países imperialistas.

O segundo mito afirmava que, diferentemente das potências, os países sul-americanos tinham “feito os deveres de casa” e ajustado seus orçamentos para conseguir superávit fiscal, suas balanças de comércio exterior eram amplamente favoráveis e isso lhes permitia manter importantes reservas em dólares em seus bancos centrais. Portanto, tinham uma melhor blindagem para enfrentar a crise. É o que afirmava até há pouco tempo, por exemplo, a presidenta argentina Cristina Kirchner.
Mas a realidade não deixa margens para mitos. Se, por diversas razões, a crise econômica demorou um pouco a estender-se aos países sul-americanos, agora já está plenamente instalada neles e afetará fortemente as perspectivas para 2009 e os próximos anos.

Queda dos preços das commodities
A economia mundial funciona como um todo que alguns autores chamaram de “economia-mundo”. Atualmente, não existe margem para que um país (ou um grupo de países) funcione de modo autônomo, separado da dinâmica da economia-mundo. No caso da América do Sul, longos anos de privatizações das estatais e de desregulação das economias aprofundaram o domínio e o controle que exercem os países imperialistas sobre os colonizados.

Ao mesmo tempo, no marco da atual divisão internacional do trabalho, os países sul-americanos ocupam o papel de “provedores de matérias primas” (alimentos, minerais, combustíveis, etc.) aos países imperialistas e ao “pólo asiático”. Por isso, suas economias são profundamente dependentes do mercado mundial e, especialmente, da dinâmica dos mercados internacionais de commodites e as mudanças de suas cotações.

Entre 2003 e 2007, o crescimento da economia mundial expressou-se num aumento permanente da demanda de matérias primas e numa alta ainda maior de seus preços no mercado mundial. As exportações em alta, tanto em seu volume como em seu valor total, impulsionaram um forte crescimento econômico na maioria dos países sul-americanos. Mas em nenhum país, nem sequer naqueles cujos governos têm uma retórica mais antiimperialista, se avançou em mudanças realmente estruturais que diminuíssem sua dependência do imperialismo.

No final de 2007 e começo de 2008 a crise econômica já tinha se iniciado no EUA e estendia-se a Europa. No entanto, o giro de capitais especulativos desde o setor imobiliário para os mercados de commodities gerou uma forte alta dos preços das matérias primas, especialmente dos alimentos (com uma média de 70%). Foi o que originou a chamada “crise dos alimentos” e as “revoltas dos famintos” em vários países do mundo, em março deste ano. Esta demanda especulativa (e o aumento de preços que produziu) ajudou a postergar o rendimento da crise nos países sul americanos.

Mas, uma vez superado este “momento especulativo”, a lógica da recessão econômica mundial (queda da demanda) impôs-se e os preços das matérias primas começaram a baixar rapidamente.

Esta dinâmica do mercado mundial significa que as exportações dos países sul-americanos cairão tanto em volume como em valor total e, deste modo, paralisa-se a locomotiva que impulsionou seu crescimento nos últimos anos.

Conseqüência direta desta queda nas exportações será a desaceleração de importantes investimentos produtivos planejados pelas empresas imperialistas ou dos países mais importantes da região, como o Brasil. Por exemplo, a brasileira Braskem (principal empresa petroquímica latino-americana) anunciou que adiará o início da construção de duas plantas na Venezuela (que seriam operadas em conjunto com a estatal venezuelana Pequiven). O mesmo fez a siderúrgica Gerdau que freou o investimento de 500 milhões de dólares para ampliar a planta que possui em Pérez (Santa Fé, Argentina).

A dívida externa
Outro fator que vai a impactar negativamente na economia dos países sul-americanos é a dívida externa. Melhor dito, a dívida pública em geral já que, nos últimos anos, grande parte do novo endividamento dos países foi camuflada pelo aumento da “dívida interna”.

No período mais recente, após o refinanciamento compulsório e o pagamento de uma parte da dívida externa com os credores privados realizada pelo governo argentino de Nestor Kirchner, em 2005, este tema pareceu perder o caráter de eixo das questões político-econômicas que tinha tido nas últimas décadas.
A situação exportadora favorável e a boa situação das balanças comerciais permitiram que vários países (Argentina, Brasil ou Venezuela) pudessem não só pagar pontualmente como inclusive adiantar pagamentos.

Este período de “calma”, porém, acabou. Por um lado, a partir de 2009, na maioria dos países acabou o “respiro” obtido nas últimas renegociações. Por exemplo, a Argentina deve pagar, nos próximos três anos, 47 bilhões de dólares. Em segundo lugar, já não existirão os folgados saldos das balanças comerciais, que serão reduzidos ainda mais à medida em que avance a crise.

Esta realidade já começa a se expressar na situação política. Por exemplo, na recusa do governo equatoriano em pagar uma dívida ao BNDES brasileiro, ou no conflito entre o governo argentino e a burguesia agrária.

O pagamento da dívida externa, mais ainda num contexto de crise econômica, vai representar fortes ataques à classe trabalhadora, como o congelamento dos salários dos trabalhadores públicos ou o corte de orçamento de serviços como a educação e a saúde. Isso numa situação onde muitos destes serviços já estão à beira do colapso.
Vejamos agora um pouco mais de perto a situação de três países do continente:

Argentina: da ascensão à queda?
Depois da forte crise vivida por sua economia entre 1999 e 2002 (com uma queda acumulada do PIB superior a 20%), graças à demanda e aos preços sustentados de alimentos e matérias primas, a Argentina foi um dos países sul-americanos que mais cresceu em 2003-2007. O país conseguiu taxas anuais de crescimento “quase chinesas” (entre o 7,5 e 9%). Inclusive, recuperou parte de seu parque industrial. No entanto, é a cada vez mais um país produtor de matérias primas, que representam 55% de suas exportações. Dentro delas, a soja e seus derivados contribuem o 25%.

Em 2008, começaram as más notícias. No momento de maior alta do preço dos alimentos, explodiu o conflito entre o governo e a burguesia agrária pelos impostos sobre as exportações agrícolas. A disputa expressou, essencialmente, sobre de onde sairiam os recursos para pagar os crescentes vencimentos da dívida externa.

Agora se soma a queda dos preços internacionais das matérias primas alimentícias: a soja baixou para perto de 600 dólares e pelo menos 400 outros cereais, como o trigo e o milho, caíram em proporção parecida. Também estão caindo os preços de outras exportações minoritárias, como o petróleo e os minerais. Ou seja, mesmo mantendo o volume físico das exportações, seu valor total cairá pelo menos 20% no próximo ano.
Em 2008, a economia já começou a desacelerar claramente, especialmente no último trimestre. O crescimento anual acumulado será de 5 ou 6%. Mas para 2009, prevê-se um crescimento de 2% ou até de 0%.

Cristina Kirchner tenta utilizar as reservas de 30 bilhões de dólares para tentar atenuar os efeitos da crise. Estatizou as AFJP, o sistema de aposentadoria privada, com fortes investimentos em ações e bônus do estado, para evitar uma futura quebra financeira. E vai lançar uma linha de crédito para compra de automóveis e eletrodomésticos, buscando assegurar um mínimo de atividade industrial.

Mas, por outro lado, quer garantir o pagamento da dívida externa já que o país, depois do pagamento compulsório de 2005, não tem acesso ao crédito internacional e, portanto, essas reservas são escassas. Por isso, se viu obrigada a tirar isenções impositivas às empresas privadas de transporte e serviços públicos, o que vai causar fortes altas nestes setores com grande impacto na economia popular.

Um dos grandes problemas da burguesia e do governo argentino é o que fazer com o tipo de mudança. A queda dos preços internacionais das matérias primas e a elevação da moeda brasileira empurram para uma forte desvalorização do peso argentino. Mas esta desvalorização significaria, ao mesmo tempo, um encarecimento do custo interno da dívida externa.

Por outro lado, além do aumento do custo de vida pela forte inflação dos anos passados, a classe operária argentina já começou a sofrer os custos da crise. Só na indústria metal-mecânica, há cerca de 8.000 demissões e suspensões. Na GM de Rosario, há um conflito contra 400 demissões definidas pela empresa.

Cristina Kirchner, menos de um ano após ter assumido, sofreu um forte desgaste, tanto em suas relações com importantes setores burgueses como em seu prestígio popular, e está bastante debilitada para enfrentar a crise. A oposição burguesa, que se tinha unido no apoio à patronal agrária, também não apresenta uma clara alternativa. Também não existe uma alternativa política própria da classe trabalhadora.

Venezuela e Bolívia: a crise do modelo bolivariano?
Os processos encabeçados por Hugo Chávez, na Venezuela, e por Evo Morales, na Bolívia, são seguidos com muita simpatia por numerosos lutadores e trabalhadores, que os vêem como uma alternativa possível a outros governos do continente. No entanto, o “modelo bolivariano”, ao não romper com a estrutura capitalista de seus países nem com sua dependência ao imperialismo, mostra agora suas profundas limitações sob os golpes da crise.

A economia venezuelana gira ao redor do petróleo e seus derivados, que representam 30% do PIB e quase 80% das exportações (a maioria para os EUA). No resto, a Venezuela é dependente da importação de máquinas, alimentos e partes de produtos industriais de consumo. Chávez não só manteve basicamente este modelo como, em alguns aspectos, o aprofundou.

A partir de 2003, teve a seu favor a alta dos preços do petróleo, que chegou a se cotar em 130 dólares o barril. Isto fez que o país tivesse um período de crescimento econômico com as maiores taxas do continente e que o Estado venezuelano contasse com rendimentos de cerca de 30 bilhões de dólares anuais, o que permitiu ao governo financiar planos sociais, mas sem modificar a estrutura de fundo.

Hoje o preço do barril do petróleo caiu a 40 dólares. As estimativas para 2008 apontam para um crescimento de 6% e as previsões para 2009 indicam, no melhor dos casos uns 2%.

O prestígio de Chávez nas massas venezuelanas já vinha diminuindo, o que se expressou em sua derrota no referendo constitucional de dezembro de 2007. Recentemente, nas eleições regionais, apesar do governo obter uma maioria global a nível nacional, perdeu em estados importantes como Miranda, que inclui parte de Caracas, uma das regiões mais industrializadas do país. Agora deverá enfrentar o restante de mandato sem a mesma “bonança petroleira” de antes.

Nos últimos anos, a Bolívia teve, numa escala muito menor, uma dinâmica de crescimento parecida ao resto de América do Sul. Cresceu entre 4 e 5% , graças a suas exportações de gás nos mercados internacionais (cujo preço aumentou de 3 a 12 dólares o BTU). Inclusive, pôde aumentar suas exportações de estanho e prata (metais hoje secundários no mercado internacional) e avançar em projetos mais estratégicos com a concessão da exploração de ferro do Mutún à empresa índia Jindal Steel.

A renegociação dos contratos de exportação de gás para Argentina e o Brasil permitiu ao governo contar com rendimentos adicionais de 800 a 900 milhões de dólares anuais. Uma cifra muito importante para um país cujo PIB é de 10 bilhões, o que permitiu financiar alguns planos sociais. Atualmente o preço do botijão de gás caiu para 6 dólares. É muito provável que a crise faça diminuir o consumo e as exportações para Argentina e Brasil.

No plano político a situação é bem mais complexa porque está atravessada pelo confronto do governo de Evo Morales com a burguesia de ultra direita da Meia Lua (onde ficam as reservas de gás e petróleo). Por sua origem camponesa e indígena, Morales faz com que a maioria da população do país o veja como “seu governo”.
Ou seja, o governo tem bases de apoio populares mais amplas. E se verá entre a crise econômica e sua capacidade para dar concessões. Em qualquer caso, é claro que Evo deverá enfrentar o próximo período num contexto econômico bem mais difícil.

As perspectivas
No marco da crise econômica internacional é evidente que acabou a época de “vacas gordas” para os governos latino-americanos. Os governos de frente popular, como o de Evo, os populistas de esquerda, como o de Chávez, ou os de características populistas, como o de Cristina Kirchner, que têm base e apoio popular, perdem assim a “base econômica” que lhes permitiu distribuir negócios entre os diferentes setores burgueses e, ao mesmo tempo, fazer concessões às massas.

Para enfrentar a crise, estes governos burgueses serão obrigados a atacar os trabalhadores e as massas e, desse modo, se acelerará a experiência com eles. Neste marco, é mais necessária que nunca a construção de uma alternativa revolucionária e socialista para enfrentar a crise e suas conseqüências.

Post author Alejandro Iturbe, da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI)
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