Alisson: Mais um guerreiro morto na periferia de São Paulo

Alisson de Paula Guerreiro, de 15 anos
Reprodução TV

Jovem de 15 anos foi assassinado por policial, na Zona Leste“60% dos jovens de periferia/ Sem antecedentes criminais/ Já sofreram violência policial/ A cada 4 pessoas mortas pela polícia 3 são negras/ Nas universidades brasileiras/ Apenas 25 dos alunos são negros/ A cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo…”
Racionais MC´s

São Miguel Paulista, Zona Leste, São Paulo, noite de sexta-feira, 10 de junho, 23h30. Os jovens da região, como em todos os lugares, tomam as ruas à procura de diversão. Em frente à Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL), grupos de jovens de todas as idades se reúnem nos bailes e nos bares para curtir. Era uma noite de sexta-feira como todas as outras, não fosse pelo desfecho trágico que teve o dia 10 de junho para Alisson de Paula Guerreiro, seus familiares e amigos.

Alisson e um grupo de amigos estavam nos arredores da UNICSUL, quando uma ronda da PM abordou os rapazes. Alisson e mais um amigo saem andando, após outros membros de seu grupo serem abordados por PMs. É perseguido por um policial da Força Tática do 29º Batalhão e atingido por um tiro de calibre .40 na nuca. É levado ao Hospital Tide Setubal pelos PM´s, mas não resiste aos ferimentos.

Em depoimento à Agência Estado, a madastra de Alisson contou como foi o momento do crime, a partir do que escutou de testemunhas. “Com a mesma mão que ele (o policial) segurava a pistola, puxou meu enteado pelo capuz da blusa. Naquele momento a arma disparou e tiro pegou na cabeça dele. Logo em seguida o policial se agachou para procurar pela cápsula que havia caído no chão e depois colocaram o Alisson na viatura e o levaram para o hospital. Chegando lá, meu enteado estava com vários tiros na cabeça”, afirmou.

O policial foi autuado em flagrante por homicídio culposo (sem intenção de matar) e encaminhado para um presídio militar. No entanto, foi solto após ter pago fiança de R$ 1.250 e responderá em liberdade.

VEJA REPORTAGEM DA RECORD

REVOLTA
Alisson de Paula Guerreiro, negro, 15 anos, estudante da oitava série na Escola Estadual Ataulpho Alves, está morto. Mais uma vítima da violência policial em São Paulo, que dia-a-dia engrossa os índices de homicídios de jovens negros em todo o país. A morte de Alisson demonstra, da forma mais trágica possível, como o racismo, apesar de todo o discurso oficial sobre a democracia racial, tem ceifado a juventude e a vida de milhares de jovens negros no Brasil.

Estudos recentes do IPEA apontam que 50% das mortes na população negra, no Brasil, são decorrentes de homicídios. Outros estudos apontam que jovens como Alisson, na faixa etária de 15 a 25 anos, são as principais vítimas em chacinas, sendo que os jovens negros são os mais atingidos por esta política de limpeza étnica (75% dos mortos nesta faixa etária). Ou seja, Alisson foi mais uma das centenas de milhares de vítimas do racismo, que predomina em todas as instituições do Estado Brasileiro e que tem nas polícias seu ponto mais sanguinário.

O enterro do jovem ocorreu neste domingo (12/06) e foi marcado por protesto de familiares e amigos, que exigem punição para o assassino de Alisson, que foi preso, mas já está nas ruas. Na escola o clima de revolta é grande e na segunda-feira, os alunos estavam bastante emocionados com a morte do amigo e organizarão uma caminhada até o Cemitério da Saudade, em São Miguel Paulista, onde Alisson foi enterrado, nesta terça-feira, dia 14.

Os alunos e professores publicaram na internet um manifesto contra a violência policial para marcar o início de uma campanha pela punição do assassino de Alisson e contra o racismo, que foi apoiado também pela coordenação da Subsede da APEOESP São Miguel, Itaim Paulista e Região.

A morte de Alisson e os dados do IPEA demonstram como o Brasil nada avançou em relação ao combate ao racismo. A política neoliberal aplicada pelo governo Lula e continuada pelo governo Dilma e também pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que prioriza o lucro dos banqueiros, em detrimento do investimento nas áreas sociais, como o recente corte no orçamento de R$ 50 bi feito pelo governo federal, os torna responsáveis pelo avanço da violência racista do estado brasileiro contra a população negra e a juventude negra, em especial. A falta de investimento em educação, saúde e na criação de empregos é substituída por um avanço na repressão estatal e na criminalização dos jovens negros por parte da polícia.

É uma tarefa do movimento negro combativo e classista apoiar a luta contra o assassinato de nossa juventude com a luta pelo socialismo, pois no sistema capitalista é impossível se acabar com o racismo, como já dizia Malcolm X .

Nós, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU, não apenas nos solidarizamos com a dor da família de Alisson, como estaremos lutando lado a lado com seus familiares e amigos para que o assassinato deste jovem não fique impune e para construir uma sociedade socialista em que a juventude negra tenha o direito de gozar plenamente a vida e não mais sofrer a perseguição racista promovida pela polícia a serviço do Estado.

Leia abaixo o manifesto publicado na internet:


Manifesto contra a violência policial
“60% dos jovens de periferia/ Sem antecedentes criminais/ Já sofreram violência policial/ A cada 4 pessoas mortas pela polícia 3 são negras/ Nas universidades brasileiras/ Apenas 25 dos alunos são negros/ A cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo…” Infelizmente a atualidade da música do grupo Racionais MC´s se mostra da forma mais cruel possível com o recente assassinato do jovem de 15 anos, Alisson de Paula Guerreiro.

Alisson de Paula Guerreiro, 15 anos, negro, estudante da EE Atauplho Alves, morador de São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo, foi mais uma vítima da Polícia Militar de São Paulo, sendo sumariamente executado na noite de sexta-feira, 10 de junho, em frente à Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL).

A morte de Alisson, pelas mãos da PM, demonstra a triste realidade da violência cotidianamente sofrida pela juventude negra das periferias brasileiras, em que, de acordo com dados de pesquisa do IPEA, 50% das mortes de negros no país são decorrentes de homicídios. Dado confirmado por estudos que apontam que as chacinas vitimam preferencialmente jovens negros de 15 a 25 anos (75% das mortes nesta faixa etária) e demonstra de forma nua e crua a violência racista praticada pelas instituições do Estado.

Não podemos nos calar diante do extermínio de nossos filhos, amigos e aluno. Quantos outros “Alisson” terão sua juventude interrompida pelas mãos da polícia cotidianamente?

  • Abaixo o racismo!
  • Basta de violência contra a juventude negra!
  • Pela punição do assassino de Alisson!
  • Pelo fim da impunidade dos assassinos de nossa juventude!