Além das taxas de juros

Enquanto a produção nacional é destruída, as máfias dos exportadores e do FMI travam uma obscena discussão sobre os juros do Banco CentralAté pouco antes de sua posse como presidente da República, Lula da Silva gritava aos quatro ventos que no seu governo os problemas econômicos seriam resolvidos por decisões políticas. Passados cinco meses de governo, o vice-presidente (José Alencar) rebela-se contra as elevadas taxas de juros: “Isso não é decisão para economistas. É decisão para políticos”, justifica. Lula da Silva já não pensa mais assim. Em resposta ao seu inquieto vice-presidente, declarou como um economista qualquer que os juros precisam cair, mas “isso não se faz com bravatas”.

Quem está certo nessa obscena discussão sobre os juros? Lula, que agora defende as decisões econômicas para os problemas políticos, ou Alencar, que defende as decisões políticas para os problemas econômicos? Nenhum dos dois. Não existe decisão econômica que não seja política. A economia sempre foi e será uma Economia Política, como os fundadores Adam Smith e David Ricardo a denominavam. Por detrás das técnicas econômicas – como, por exemplo, a decisão do Banco Central em aumentar ainda mais a taxa básica de juros – existe uma luta de diferentes grupos capitalistas e seus interesses particulares sobre os rumos da economia brasileira.

Alencar quer a redução da taxa de juros – como todos os capitalistas que acham que o remédio para os problemas da economia brasileira está no aumento das exportações e diminuição das importações – porque ele é o proprietário de grandes indústrias têxteis que se beneficiaram recentemente com a desvalorização do real frente ao dólar e aumentaram brutalmente seus lucros nas exportações.

Lula quer a manutenção de elevadas taxas de juros – como todos os capitalistas que acham que o remédio para os problemas da economia brasileira está no combate à inflação dos preços através do corte das despesas correntes do governo, da valorização artificial do real frente ao dólar e de uma simultânea abertura do mercado nacional para os fluxos de mercadorias e de recursos externos – porque ele aceitou espertamente a função de despachante do Fundo Monetário Internacional (FMI) e pode ser recompensado pelos donos do mundo com um longo período na presidência da República, como aconteceu com seu antecessor FHC.

Nem a posição de Alencar/máfia exportadora, nem a de Lula/FMI, vão resolver os problemas da economia brasileira. E nem existem grandes discordâncias entre os dois. Enquanto as exportações de mercadorias batem recordes seguidos e a taxa de inflação volta a cair com força, os dados publicados na última semana mostram que está em curso um processo planejado de destruição da economia: produção industrial já está em queda (-3.36% em março/03); investimentos industriais desabando (- 16% nas encomendas de bens de capital no 1º trimestre/03); utilização da capacidade instalada atingindo níveis críticos; desemprego da força de trabalho batendo recordes históricos; salários e rendimentos individuais continuamente arrochados; comércio interno paralisado etc.

Em resumo: simultaneamente ao aumento desmesurado das exportações nos últimos quinze meses (o que favoreceu os lucros do time do Alencar), e ao aumento criminoso do superávit fiscal interno (o que aumentou as rendas e os juros do time de Lula/FMI), a produção nacional continuou derretendo. Entre o ano de 1977, quando atingiu seu maior valor (US$ 807 bilhões) e 2002 (US$ 451 bilhões), o Produto Interno Bruto (PIB) caiu quase pela metade, em valores reais.

A política do FMI no Brasil é a política que o capital global impõe a economias dominadas para a superação da crise que ele mesmo criou. É por isso que essa política do FMI não pode ser contestada pelos interesses particulares desta ou daquela fração das classes dominantes nacionais. Ela tolera apenas pequenos ajustes nas perdas e nos ganhos desta ou daquela fração de capitalistas. Nada mais do que isso.

Quem pode mais chora menos. Nessa discussão da taxa de juros, os representantes da máfia exportadora estão chorando e os que estão executando com mais desenvoltura a política do FMI não param de rir. Mas não se iludam, logo, logo, todos eles estarão rindo juntos, se reconciliando como uma verdadeira franco maçonaria capitalista para continuar unidos no massacre sobre os trabalhadores, quer dizer, sobre as verdadeiras forças produtivas nacionais.

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Post author José Martins,
economista do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio
Publication Date