África do Sul: Marikana ainda sangra


Em 16 de agosto de 2012, uma greve de mineiros na cidade de Marikana, na África do Sul, foi duramente reprimida, resultando em 34 mortos (além de oito outros, nos dias anteriores), cerca de 70 feridos e mais de 200 presos.

Passados dois anos, os responsáveis continuam impunes, mas a ferida aberta em Marikana está longe de estancar.  No último dia 16, muitas mobilizações varreram o país lembrando o massacre. Mais profundamente, esse episódio foi um “turning point” (momento da virada) na história recente do país, detonando um profundo processo de reorganização política e sindical.

Por trás dos tiros criminosos, como sempre, estão as mãos da patronal – no caso, a Lonmin, uma das maiores mineradoras do mundo. Mas o governo do Congresso Nacional Africano (CNA), o partido de Nelson Mandela, também tem enormes responsabilidades nesta história. O CNA está no poder há exatos 20 anos – através da Aliança Tripartite, formada com o Partido Comunista e o Congresso Sul Africano de Sindicatos (Cosatu).

Existe na África do Sul uma crescente insatisfação com os rumos do país. O governo do CNA mergulhou o país no neoliberalismo, com as consequências conhecidas: aumento do desemprego, da precarização, do arrocho salarial, privatizações etc. Os tiros em Marikana mostraram que o CNA está disposto a reprimir severamente todos aqueles que desafiem seus planos. 

A reorganização política e sindical em curso é realmente muito profunda. Um exemplo foi o “Simpósio das Organizações de Esquerda e de um Movimento ao Socialismo”, realizado entre os dias 6 e 13 de agosto. Esse simpósio foi promovido pelo sindicato mais importante do país, o Numsa (Sindicato Nacional dos Metalúrgicos) que tem 350 mil filiados, e está rompendo com a central COSATU e com o CNA. É algo semelhante a uma ruptura do sindicato dos metalúrgicos do ABC romper com a CUT, com o PT e com o governo Dilma.  

Os dois autores deste artigo, Wilson Silva e Luiz Carlos Prates, membros respectivamente do Quilombo Raça e Classe e da Coordenação Nacional da CSP-Conlutas, participaram como convidados da reunião. A viagem incluiu uma emocionante visita às viúvas de Marikana, o que nos permitiu ver de perto o porquê este massacre, lamentavelmente, é uma síntese da África do Sul pós-apartheid.

Um massacre a serviço do capital
O principal motor do massacre foi a atual relação entre os membros da Aliança Tripartite e o capital. Como disse o advogado das vítimas, Dali Mpotu, na Comissão Especial formada para investigar os assassinatos, a Cyril Ramaphosa , vice-presidente do CNA e uma das principais figuras por trás do massacre: “você se vendeu ao capital branco”.

Essa é uma constatação que já havia sido feita no Congresso Extraordinário do Numsa, realizado em dezembro de 2013, cuja resolução afirma: “Marikana foi uma estratégia bem planejada e orquestrada pelo Estado para defender os lucros dos patrões do setor mineiro”.

Em setembro passado, em um seminário realizado pelo International Labour Research and Information Group (ILRIG, Grupo de Pesquisa e Informação Internacional sobre o Trabalho), no qual a CSP-Conlutas também esteve, um membro Sindicato Geral dos Trabalhadores da Indústria da África do Sul (GIWUSA) também foi enfático: “O CNA, o PC e a Cosatu se transformaram em organização anti-operárias”.

Uma opinião ratificada por Gavin Coops, especialista em mineração: “O massacre tem por trás o fato de que os mineiros estão rompendo com o NUM e desafiando o CNA (…). Aliança Tripartite para garantir os interesses dos banqueiros e dos empresários, agora está matando por dinheiro”.

Marikana:  o “Shaperville do CNA”
Exatamente por isso, o Massacre de Marikana é conhecido entre os sul-africanos como o “Shaperville do CNA”. Essa é uma referência a um dos episódios mais traumáticos da luta contra o apartheid: em 21 de março de 1960, a polícia abriu fogo contra mais de 20 mil pessoas que protestavam contra a lei dos passes (que restringia as áreas pelas quais os negros podiam circular).

Em 1960, a covardia criminosa da polícia racista vitimou 69 pessoas e feriu gravemente outras 180. Esse massacre deu origem ao Dia Internacional de Combate ao Racismo, símbolo da internacionalização da luta contra o apartheid. As fotos de Shaperville têm enorme semelhança com as imagens vistas na matança de Marikana. Agora também houve execuções a sangue frio para fuzilar os dirigentes da greve: um deles foi morto com nada menos que 14 tiros.

A responsabilidade dos dirigentes do CNA e do próprio governo no lamentável episódio, assim como a cumplicidade com a Lonmin são evidentes. Além de Ramaphosa, também há provas contundentes da participação direta de Susan Shabangu ( na época, Ministra dos Recursos Minerais),  e de Nathi Mthethwa (Ministro das Forças Policiais).

Ramaphosa: a raposa do capital
Cyril Ramaphosa participou ativamente da luta contra o apartheid, sendo uma das figuras chaves na formação da Cosatu, em 1985, e fundador do fortíssimo NUM, o Sindicato Nacional dos Mineiros. Ramaphosa foi o braço direito de Mandela durante todo processo de “transição negociada”, ou seja, a negociação com a burguesia branca.

De lá para cá, ele se transformou em uma espécie de símbolo do punhado de negros e negras endinheirados que foram beneficiados pelo programa “Black Economical Empowerment” (Empoderamento Econômico dos Negros), inaugurado por Mandela. Esses negros se transformaram em agentes da velha burguesia branca ou, diretamente, em patrões e exploradores.

Hoje, Ramaphosa  é presidente executivo da Shanduka Group, uma empresa que atua nos setores de recursos naturais, energia, imobiliário, segurança e comunicação; presidente da Bidvest, a maior empresa de distribuição de alimentos e material de papelaria da África do Sul (que tem cerca de 100 mil empregados espalhados pelo continente e trabalha quase que exclusivamente com trabalho terceirizado) e membro da comissão de assessores internacional da Coca-Cola e da Unilever.

Além de tudo isso é diretor executivo da Lonmin, a empresa por trás do Massacre. Uma posição que fez com que Ramaphosa fosse oficialmente escolhido pelos acionistas da empresa para coordenar as “ações contra os protestos criminosos”.

Isso veio à tona na Comissão Especial formada para investigar o Massacre através de um escandaloso email que Ramaphosa trocou com o diretor comercial da Lonmin, dando carta branca para os assassinatos: “Os terríveis eventos que estão acontecendo não podem ser descritos com uma disputa trabalhista. Eles são claramente vis e criminosos e devem ser caracterizados desta forma. Por isso a necessidade de ações adequadas para abordar esta situação”.

Hoje Cyril Ramaphosa, vice presidente do CNA, é um dos nomes defendidos para substituir Jacob Zuma, o atual presidente do país.

A criminalização da pobreza e do movimento
Como parte da programação do Simpósio, estivemos em Marikana, onde o Quilombo Raça e Classe teve a oportunidade de fazer uma saudação. Uma experiência marcante em todos os sentidos, mas principalmente diante da garra daqueles trabalhadores e, principalmente, trabalhadoras.

 Depois da assembleia, caminhamos pelas ruelas de Marikana. Barracos minúsculos, sem água encanada ou eletricidade. “Banheiros” cavados no chão.

Homens, mulheres e crianças resistem bravamente. Dois anos depois da morte de seus maridos, pais, irmãos e companheiros, continuam lutando por justiça. O crime do governo em Marikana não foi um fato isolado. Logo na abertura do Simpósio do Numsa, uma notícia mostrou isso cruelmente: foram assassinados três de seus dirigentes – Njabulo Ndebele, Sibonelo “John-John” Ntuli e Ntobeko Maphumulo – que estavam a caminho da reunião.

Balas pela culatra ricocheteando para todos os lados
O mergulho do governo no neoliberalismo e a repressão a toda forma de oposição estão nas raízes da reorganização política e sindical em curso no país.

O Congresso do Numsa em dezembro de 2013 deliberou pelo início de ruptura com o CNA e a COSATU. O seminário do International Labour Research and Information Group, em setembro passado apontou no mesmo sentido, com a participação de  cerca de 30 entidades como o Housing Assembly (Assembleia pela Moradia), o “De Doorns Farmworkers” (uma organização do campo), “Bokoni Labour Forum” (um movimento de mineiros) e “Sikhalasonke Wonderkop” (uma organização de mulheres de Marikana).

O Sindicato e Associação de Mineiros e Trabalhadores da Construção Civil (AMCU),  tomou partido dos mineiros de Marikana.

A tragédia de Marikana produziu um efeito inesperado pelo governo do CNA. Como destacou o jornalista Terry Bell em uma entrevista publicada no aniversário de dois anos do Massacre – sob o título “Marikana: o catalisador de uma mudança” – Marikana levou várias organizações a buscar “formar um novo movimento socialista, alternativo ao Congresso Nacional Africano (CNA)”.

Em busca de uma saída socialista
O resultado de fato é imprevisível. É possível afirmar que esta luta está só no começo e que o processo de reorganização só tende a se intensificar.

Em Marikana, a resposta à dor provocada pelo assassinato dos 34 mineiros e pela miséria cotidiana que os levou à luta ainda sangra. Mas, também, transformou-se em uma ferida aberta na Aliança Tripartite. Uma ferida que, ao que parece, os sul-africanos não estão dispostos a simplesmente “remediar”. Querem extirpar de vez, como lembra um toyi-toyi (os fantásticos cantos de luta sul-africanos) com o qual fomos recebidos pelas viúvas dos mineiros: “Oh! Mulheres não chorem! Oh! Mulheres não chorem! Somos mulheres, estamos em luta!”

Uma luta para a qual as resoluções do seminário do Numsa já apontaram o caminho: a construção de um projeto socialista. Uma certeza que os delegados ao Simpósio também celebravam a todo momento através de toyi-toyis :“Esta revolução é muito velha. Ela começou com nossos ancestrais. Por isso, não chore. Lute!”  “Nós não queremos o capitalismo, queremos o socialismo”.

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