A volta da inflação e as campanhas salariais

A imprensa, agora, foi obrigada a reconhecer o que já era parte da experiência diária dos trabalhadores – a volta da inflação. O fim dela era uma das maiores armas da propaganda do neoliberalismo. Esse foi um dos fatores políticos de maior importância para o apoio ao Plano Real, primeira versão do plano neoliberal de FHC. Agora, a inflação está de volta.

Já tínhamos visto a alta dos preços do feijão (123% em 2007) e do arroz (11,9% só em maio). Existe uma clara subida nos preços dos alimentos. Em março, eles subiram 0,89%, em abril, 1,29% e, em maio, 1,81%. O leite já subiu 13,4% este ano. O pão francês subiu 8,8% só em abril.

Não se trata mais de pequenos reajustes que se possa esconder embaixo do tapete. A cesta básica de alimentos teve aumentos maiores que 20% nos últimos 12 meses em todas as capitais segundo o Dieese. Os maiores aumentos ocorreram no Nordeste – Recife (46,5%), Fortaleza (40,78%) e Natal (40,75%). Só neste ano, os aumentos nessas capitais foram de 26,5%, 24,2% e 21,8%.

Os reajustes nos preços não param nos alimentos. Os produtos industriais tiveram aumento de 0,94% em março e 1,77% em abril. Está começando a ocorrer o de sempre: as grandes empresas reajustam seus preços para defender seus lucros.
Mas os trabalhadores não podem fazer o mesmo com seus salários, que seguem iguais. A inflação funciona como uma forma de transferência de renda dos trabalhadores para os patrões, uma maneira de arrocho salarial.

Em todo o mundo está voltando a inflação. Matérias-primas como petróleo, metais e os alimentos estão à frente nos aumentos. Pior ainda, os reajustes nos preços no mercado internacional estão se espalhando a todos os países rapidamente. E já começam a ocorrer reações dos trabalhadores. Houve grandes greves no Egito e em vários países da África e da Ásia. Ocorreram também rebeliões populares no Haiti e em outros países. Na Europa houve greves de pescadores em vários países de maneira coordenada.

A reação do governo Lula à volta da inflação é exatamente a mesma de qualquer governo de direita. Está falando em “remédios amargos” e já começa a utilizá-los: aumentou o superávit fiscal de 3,8% para 4,3% ao ano. Assim, o governo vai cortar mais ainda os gastos em saúde e educação para pagar a dívida e dar garantias aos banqueiros diante da aproximação da crise. Além disso, o Banco Central já sinalizou que vai voltar a aumentar a taxa de juros. As medidas têm um objetivo claro de preservar os lucros altíssimos dos bancos e das grandes empresas.

Os trabalhadores, para enfrentar a inflação e o corte em seus salários, vão ter que lutar. Já começaram a ocorrer as primeiras reações, com greves em várias categorias do país, com destaque para os operários da construção civil e os trabalhadores do transporte público. A greve da construção civil de Fortaleza conseguiu uma importante vitória e a paralisação dos operários da Revap (São José dos Campos) seguia até o fechamento desta edição. Greves atingiram também os motoristas de Fortaleza, Belém e Macapá. Muitas outras categorias estão em mobilização em todo o país.

Em várias dessas lutas pode-se ver uma radicalização muito grande dos trabalhadores, enfrentando a patronal e fazendo rebeliões de base contra as direções pelegas. Os operários da construção civil de Fortaleza tiveram no sindicato (dirigido pela Conlutas) uma firme direção para a mobilização. No caso da Revap foi o oposto: tiveram que lutar contra a direção pelega do sindicato e se apoiar na Conlutas para poder fazer sua greve.

Não se trata de um processo geral, mas de algumas greves por cidade. E cada uma dessas lutas tem uma importância muito grande. Uma vitória pode significar um avanço na organização e na consciência dos trabalhadores, e um exemplo para outras lutas. Por isso, tem enorme importância o apoio da Conlutas a essas mobilizações, como já está ocorrendo.

É preciso construir um programa comum a todas essas lutas, com reajuste de salários e exigência ao governo Lula que rebaixe e congele os preços dos alimentos. Além disso, é fundamental também que haja um reajuste salarial automático de acordo com o reajuste dos preços.

Por outro lado, é importante ir pensando nas campanhas salariais do segundo semestre, que vão se realizar provavelmente numa situação de crescimento econômico e com inflação. Isso pode afetar diretamente o ascenso, empurrando para a luta categorias fundamentais que têm aí sua campanha salarial , como metalúrgicos, bancários e petroleiros. É muito importante buscar unificar essas campanhas para ter mais chances de vitória. Este é um debate importante para o congresso da Conlutas.

Post author Editorial do Opinião Socialista nº 340
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