A última batalha de Aziz

Geógrafo morto no dia 17 de março

Em seu último período de vida, geógrafo esteve engajado na luta contra as mudanças no Código Florestal.A morte do geógrafo Aziz Ab´Saber, no último dia 16 de março, representa a perda de um grande cientista que, como muitos articulistas ressaltaram, realizou estudos pioneiros sobre a diversidade paisagística de nosso país. Dono de um vasto conhecimento em vários ramos das ciências, o geógrafo chamou a atenção para a interação dos elementos (relevo, clima, vegetação, hidrografia, geologia, solo) que atuam na produção e transformação da paisagem. Aziz também é uma das maiores referências para aqueles que desejam se iniciar no estudo científico sobre a dinâmica da natureza e sua relação com o ser humano.

Mas Aziz também foi um arguto crítico das políticas envolvendo a questão ambiental, especialmente no que se refere ao conjunto dos projetos implementados pelos governos Lula e Dilma nesses últimos 10 anos, como a transposição do Rio São Francisco. Algo que, evidentemente, não foi recordado pelas muitas notas de pesar elaboradas pelos apoiadores do atual governo, como figuras de proa do PT e o PCdoB.

Sua última batalha foi travada contra as absurdas alterações – “a favor de classes sociais privilegiadas”, como dizia Aziz – do Código Florestal. Em carta escrita em 2010, dirigida aos parlamentares do Congresso Nacional, o geógrafo apelava “aos partidos que se dizem de esquerda e jamais poderiam fazer projetos totalmente dirigidos para os interesses pessoais de latifundiários”.

Na carta, Aziz alerta especialmente para os impactos ambientais e sociais que as mudanças exigidas pelos ruralistas terão na Amazônia. Explica que a floresta estará ameaçada, assim como sua enorme bacia hidrográfica, caso a taxa de preservação florestal das propriedades seja rebaixada de 80% para 20%. “Mas ninguém tem a coragem de analisar o que aconteceu nos espaços ecológicos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, e Minas Gerais com o percentual de 20%. Nos planaltos interiores de São Paulo a somatória dos desmatamentos atingiu cenários de generalizada derruição, comparava.

Também denuncia o enorme poder dos latifundiários na região, que cometem inúmeros crimes, enquanto gozam de ampla impunidade: “Amazônia Brasileira predomina um verdadeiro exército paralelo de fazendeiros que em sua área de atuação tem mais força do que governadores e prefeitos”, afirma numa passagem na qual revela um assombroso episódio ocorrido em Marabá (PA), quando um grupo de fazendeiros desfilou com seus cavalos pela cidade, enquanto a população fugia para suas casas.

Em alternativa à revisão do Código Florestal, Aziz sugere a criação de “um Código de Biodiversidades, levando em conta o complexo mosaico vegetacional de nosso território”. No entanto, como lembra o professor, Brasília qualificou a proposta como “inoportuna”.

Aziz nos deixou em momento delicado. O Congresso Nacional está prestes a realizar o maior desmonte da política ambiental brasileira – em acordo com o governo Dilma, diga-se passagem.

As mudanças do Código Florestal só interessam aos grandes capitalistas do campo, aqueles cujos interesses o governo do PT sempre zelou. Para estes senhores, é preciso desmatar para abrir pastagens, plantar soja (para reação de gado europeu), eucalipto, vender madeira e especular com a terra. A lei impede esse avanço.

A melhor forma de homenagear Aziz é dar continuidade a essa luta, a última que foi travada pelo incansável professor.

  • Carta de Ab´Sáber ao Congresso Nacional: Do Código Florestal para o Código da Biodiversidade