A revolução que mudou o mundo

Há 87 anos, um evento na Rússia abriu uma nova etapa histórica que muitos consideram como o verdadeiro início do século 20. Um partido pouco conhecido, cujos principais líderes tinham sido acusados de agentes do governo alemão, tomou o poder na Rússia.Em fevereiro de 1917, o czarismo desabou rapidamente sob o impacto de uma insurreição realizada pelo exército e pelo movimento operário de Petrogrado. A Rússia vivia uma catástrofe econômica e social. O país estava há quatro anos em guerra com a Alemanha. Dos 150 milhões de habitantes, 80% eram camponeses. A ampla nobreza do país ocupava todos os cargos altos e intermediários do Estado. A classe operária era concentrada em poucas cidades, como Petrogrado, e em grandes unidades industriais.

Para financiar o esforço de guerra, o Estado russo criou uma situação que elevou o colapso financeiro. As forças sociais que sustentavam o czarismo eram extremamente frágeis e encontravam-se esgotadas pela guerra. O movimento operário em Petrogrado ocupava o papel de protagonista social, mas a temperatura foi elevada pelos 10 milhões de camponeses concentrados nas fileiras do exército.
São três as principais questões colocadas pela Revolução de Fevereiro:
1) A derrubada do czarismo, a conquista das liberdades democráticas e a instauração da paz. Ou seja, as massas camponesas queriam voltar para casa.
2) O abastecimento das cidades e a fome, associadas à necessidade do controle operário como forma de combater a burguesia que, diante da revolução, boicotava a produção.
3) A questão agrária.

As muitas crises do governo provisório

Assim que o czarismo é derrubado, cria-se um governo provisório, de colaboração de classes entre representantes da burguesia e partidos operários reformistas. O partido Cadete, principal representante da classe dominante russa, tinha como representante político Miliukov. Os partidos socialistas reformistas eram os socialistas revolucionários (esseristas), liderados por Kerensky, e os mencheviques. Os bolcheviques não participaram do governo.

Três semanas após a derrota do czarismo, surge a primeira manifestação independente dos trabalhadores de Petrogrado, pela jornada de oito horas. Essa reivindicação colocou em crise o governo provisório. Cadetes proclamaram que essa exigência colocava em perigo a unidade patriótica para vencer a guerra. Dois meses depois, novas manifestações questionavam a política militar do governo provisório, a manutenção da guerra e chamavam o “Fora Miliukov”. O governo mantinha o apoio de sua base camponesa com a promessa de convocar uma Assembléia Nacional Constituinte para fazer a reforma agrária e promover uma ofensiva militar rápida para garantir a paz. Mas, nas cidades, esse apoio se enfraquecia, devido ao desabastecimento e à fome.

Os bolcheviques apoiaram essas lutas e levantaram as bandeiras “Fora Miliukov e os ministros capitalistas”, exigindo a ruptura dos partidos reformistas com a burguesia. Defendiam também “Todo poder aos Soviets”, apontando para a exigência que os partidos reformistas tomassem o poder.

Junho e julho: a temperatura sobe

Mas o governo de colaboração de classes seguiu, mesmo com a queda de Miliukov, aumentando a participação dos mencheviques e esseristas. Kerensky, o chefe dos esseristas, assumiu o Ministério da Guerra e promoveu uma ofensiva final no front que resultou em um desastre completo.

Em junho, o primeiro Congresso dos Soviets, dirigidos pelos mencheviques e esseristas, convocou uma passeata de apoio ao governo provisório e a ofensiva militar. Os bolcheviques, apesar de serem contra a ofensiva e de não apoiarem o governo, foram à passeata com suas bandeiras contra a guerra, contra os ministros capitalistas e reivindicando todo poder aos Soviets. Mais de 500 mil pessoas foram às manifestações e, pela primeira vez, as bandeiras bolcheviques eram a maioria.

No campo a situação também evoluía. Não houve grandes ocupações, mas os camponeses, organizados em Soviets, impuseram preços máximos da venda e do aluguel da terra, obrigando a aristocracia latifundiária a se desfazer de suas propriedades a um preço baixo.

Em julho, ocorre um teste decisivo para a revolução. Contra a orientação bolchevique, ocorreu uma insurreição armada em Petrogrado. Lenin considerava que, depois das manifestações de junho, toda mobilização colocaria a questão do poder.
Mas, para ele, os camponeses ainda não estavam maduros para a revolução. Ou seja, promover a insurreição isolaria Petrogrado.

A insurreição de julho é rapidamente sufocada. Os bolcheviques são colocados na ilegalidade, Trotsky é preso e Lenin cai na clandestinidade.

A tentativa de golpe e a tomada do poder

Entusiasmado com a derrota da insurreição de julho, Miliukov convoca o general czarista Kornilov para esmagar definitivamente os Soviets. O governo Kerensky fica paralisado e tenta conciliar com os golpistas. Os bolcheviques chamam os operários e soldados a lutarem contra o golpe e se colocam na vanguarda da resistência militar organizada pelos Soviets. Kornilov não conseguiu mobilizar os regimentos que esperava e o golpe foi sufocado. O malogro do golpe desgastou profundamente o governo Kerensky.

Rapidamente os bolcheviques ganharam a maioria nos Soviets em Petrogrado, primeiro passo para ganhar a direção da classe operária. As massas aprenderam em meses o que não tinham descoberto em décadas. Os tempos se aceleraram e as rupturas se sucederam. Em 25 de outubro, a Guarda Vermelha, sob as ordens do Soviet de Petrogrado, toma o Palácio de Inverno, sede do governo provisório. Acontecia assim a primeira revolução operária vitoriosa da história.

A diferença foram os bolcheviques

A Revolução de Outubro foi totalmente diferente da de Fevereiro. A classe operária e seus aliados chegaram ao poder através de uma insurreição organizada pelos seus organismos e dirigida por um partido revolucionário de combate.

Os bolcheviques, um partido minoritário, transformara-se numa potência. As massas, de forma desigual, se descobriam bolcheviques.

A originalidade da Revolução de Outubro se explica pela existência do Partido Bolchevique. Pelas condições peculiares da Rússia, esse partido foi o único da II Internacional que se constituiu como uma organização conspirativa, baseada no centralismo democrático.

Lenin tinha uma formulação estratégica completamente diferente da maioria da II Internacional. Em 1916, publicou um artigo intitulado A Falência da Segunda Internacional, no qual apresenta, de forma embrionária, uma teoria da crise revolucionária. Essa teoria tem no seu centro a compreensão da crise revolucionária como um processo de luta de classes que se resolve na política. Ou seja, para a sua solução é necessário o protagonismo político da classe operária e de seus aliados, sob direção de um partido de combate. Entre fevereiro e outubro há uma situação deste tipo, na qual os bolcheviques intervieram no terreno da política. Construíram assim uma referência histórica, até hoje insuperável, de conquista do poder pelo proletariado.

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SAIBA MAIS

O que há para ler e ver sobre a revolução

Dentre os vários livros sobre a história da Revolução, destacamos alguns que são fundamentais. Para começar “A História da Revolução Russa“, de Leon Trotsky, é leitura obrigatória, na medida em que seus três volumes cobrem os mais diversos aspectos do processo: dos debates entre os revolucionários ao cotidiano da revolução. Como também é essencial ler “As Teses de Abril“, com as quais Lenin deu a orientação definitiva para a tomada do poder. Outras leituras recomendadas são “A Revolução Bolchevique: 1917-1923“, “História da Rússia Soviética“, de E.H. Carr; “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo“, de John Reed, e “Memórias de um Revolucionário“, de Victor Serge.

Já nas locadoras também é possível encontrar filmes relacionados à revolução. O melhor deles, apesar das manipulações e censura impostas por Stalin, é o revolucionário (inclusive na forma) “Outubro“, filme de Sergei Eisenstein, de 1928. Do mesmo cineasta há também “Encouraçado Potemkin“, sobre a revolução de 1905, fundamental para o desenvolvimento dos soviets. Além disso, há “Reds“, a versão que Warren Beatty fez para o livro de John Reed.

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