A outra face do futebol que a Fifa tenta abafar


O caso de racismo envolvendo o jogador do Cruzeiro, Paulo César Fonseca, o Tinga, causou revolta e consternação. Nesse dia 12, na cidade de Huancayo, quando o time mineiro enfrentava o peruano Real Garcilaso pela Libertadores, parte da torcida local imitava sons de macaco cada vez que o jogador tocava na bola, numa demonstração explícita de racismo.

O ataque racista gerou uma onda de apoio ao jogador, que declarou à imprensa após o jogo: “Eu queria não ganhar todos os títulos da minha carreira e ganhar o título contra o preconceito, contra esses atos racistas“. Disse ainda que trocaria todos seus títulos “por um mundo com igualdade entre todas as raças e classes“.

A Copa é para quem?
Dilma anunciou no twitter que a Copa seria a maior prova do combate ao racismo. Pena que suas declarações não passam de demagogia. O país que sediará a “Copa das Cores” (expressão usada por Dilma para dizer que no país há uma “harmonia racial”), é o país em que 67% da população das favelas é composta por negros. Em um país onde 63% da população que vive abaixo da linha da pobreza é negra, a única harmonia que vemos é entre PT e a burguesia, pois aos pobre e pretos é apenas miséria. O número de jovens negros mortos é superior ao de jovens brancos, chegando ao assustador número de 132%.

A Copa do Mundo estará longe de ser dos trabalhadores, que em sua maioria são negros e negras. Aliás, a única chance de vermos os negros nos estádios é ocupando os postos de trabalho mais precarizados, os da construção civil, que durante as obras da Copa tiveram inúmeros casos de mortes por conta da exploração e da falta de segurança.

Ainda os gramados são brancos
O caso de racismo durante o jogo do Cruzeiro contra o Real Garcilaso chocou a todos, mas infelizmente não foi a primeira vez que ocorreu. Em 2005, quando Tinga jogava pelo Internacional no Campeonato Brasileiro, a torcida do Juventude o chamava de macaco sempre que ele tocava na bola.

Tinga também não foi o único jogador negro a sofrer racismo dentro de campo. Em 2005, Edinaldo Batista Libânio, o Grafite, quando jogava pelo São Paulo, foi vítima de um dos acontecimentos mais polêmicos da história do futebol. Em pleno campo, o jogador do Quilmes, Desábato, gritou a Grafite “seu negro de merda”, após um jogada mal-sucedida. O caso tomou proporção internacional, levando Desábato a ser preso em campo e a ficar dois dias na prisão. No mesmo ano, só que na Itália, em um jogo entre Inter de Milão e Messina, Marc Zoro escutou quase o estádio inteiro, dominado pela torcida do Milão, palavras racistas contra ele. Outro jogador a ser incorporado nessa triste lista foi Roberto Carlos, que recebeu de um jogador do Zenit, da Rússia, uma banana (depois, quando jogava pelo Anzhi, em uma partida, a torcida jogou bananas contra ele). E, infelizmente não é o último mas talvez um dos casos mais chocantes, Mario Balotelli, que sofreu inúmeros casos de racismo em sua carreira, recentemente foi alvo de xingamentos racistas vindos da torcida do Nápoli, tendo que sair de campo diante de tamanha opressão.

Em uma entrevista à CBN, Tinga disse “Que isso não venha a acontecer em outros jogos, em outras situações, principalmente essa diferença não só racial, mas social que é tão grande, que eu acredito que é até maior”, conseguindo mais ainda grande apoio de trabalhadores e trabalhadoras do país se solidarizando com o caso.

Importante colocar que o que ocorreu com Tinga, como vimos, não foi um ato isolado, mas sim a própria condição da sociedade que faz com que diferenças raciais sejam justificadas para brancos oprimirem negros.

FIFA: da demagogia ao cinismo
Joseph Blatter, presidente da FIFA, declarou repúdio ao ocorrido com Tinga, colocando que condena qualquer ato de discriminação. Durante muitos anos a FIFA sempre afirmou que combateria o racismo dentro de campo, usando frases de efeito em cartazes, passando a impressão de que suas promessas estavam sendo cumpridas. Mas ao vermos sua trajetória, percebemos imediatamente que suas promessas se resumem, e param por aí, em propaganda. Apenas isso. É como um comercial que promete mundos e fundos mas, na prática, todos sabem que não se chegará nem na esquina.

Se Blatter levasse a sério suas declarações, principalmente a recente de que envolvidos em casos de racismo devem ser severamente punidos, a FIFA poderia já encomendar a placa da “fechado”, já que ocupa uma vasta lista das empresas com casos de racismo. O próprio Blatter, que hoje diz se preocupar e punir casos de discriminação racial é o que, em 2011, afirmava que não existia caso de racismo em campo e que, segundo ele, “tudo pode ser resolvido com um aperto de mão no final do jogo”. Para o presidente da FIFA até o racismo é um jogo. Mas para os trabalhadores da África do Sul, país que sediou a Copa do Mundo em 2010, suas condições de vida precárias não eram um jogo. Para os trabalhadores da construção civil, maior parte composto por negros, enterrarem seus colegas de trabalho que morreram nas obras dos estádios da Copa, não é um jogo. O cinismo de Blatter só fica atrás da conivência do Governo Federal diante de todos esses casos.

Mais Tinga e Menos Pelé e Ronaldo
A solidariedade ao jogador mostra que toda a juventude que se levantou em junho contra o aumento da passagem ainda não sentou e está disposta a ir à rua lutar contra o racismo. Nunca foi só por 20 centavos, e o repúdio imediato ao que ocorreu com o jogador do Cruzeiro mostrou isso. E mais, mostrou a toda uma nova geração de amantes do futebol que o jogador também é um ser social e é necessário um posicionamento deles sobre os principais acontecimento no país. Diferente de Tinga, temos Pelé e Ronaldo que cumprem um papel reacionário e de capachos da FIFA, onde priorizam mais os interesses dos empresários do que das necessidades da população.

Nós, da Secretaria de Negras e Negros do PSTU, acreditamos que a única forma de lutar contra o racismo, é também lutar contra o capitalismo. Não há como combater o racismo no campo sem colocar em cheque o caráter racista da FIFA!