A guerra colonial e o controle do mercado mundial do petróleo

A agressão norte-americana contra o Iraque parece inevitável. Na base de tudo está a profunda crise da economia capitalista e a necessidade de aumentar a pilhagem do mundo. Esta nova guerra colonial é parte da contra-ofensiva imperialista à reação das massas. Mas o Iraque é tão somente uma peça da estratégia recolonizadora do imperialismo no mundo.

A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que a demanda de petróleo crescerá a uma média de 1,9% anual, sendo que o Oriente Médio possui 66% das reservas mundiais, o que significa que o mundo estará mais dependente da região. No caso dos EUA, a dependência chegará a mais de 60% do combustível consumido neste país.
As reservas do Iraque, de 112 a 250 bilhões de barris, ficam atrás somente das da Arábia Saudita, as maiores do mundo. A produção de petróleo iraquiana ficou submetida a 12 anos de bloqueio – dos 70 campos existentes, somente quinze estão ativos.1 As empresas americanas e inglesas controlam 70% do petróleo do Oriente Médio, mas não controlam as reservas de Iraque e Irã.
A recolonização tem um sentido bem preciso: o petróleo iraquiano, submetido a 12 anos de bloqueio, somente pode voltar ao mercado mundial pelas mãos das empresas americanas.
A evidência da estratégia norte-americana quanto ao controle absoluto do mercado mundial do petróleo fica patente ao relacionarmos a agressão imperialista ao Iraque com a ocupação do Afeganistão (estratégico para o controle das rotas de gás e petróleo do Mar Cáspio) e as tentativas de golpe na Venezuela (quinto produtor mundial).
O Iraque é, portanto, a bola da vez. Mas isso não significa vitória certa dos EUA: a ocupação implicará numa luta das massas árabes, colocando em risco a maioria dos governos fantoches da região.

A recolonização do Oriente Médio

Os EUA querem ocupar o Iraque com cerca de 100 mil soldados, para pôr em prática a estratégia de mudar completamente o mapa político e geográfico do Oriente Médio.
A falta de controle sobre Iraque e Irã; a simpatia internacional que vem ganhando a Intifada Palestina e o questionamento da presença militar na Arábia Saudita, até mesmo por setores burgueses, e a crise econômica que lança as massas árabes na miséria, transformam as chamadas petromonarquias em regimes profundamente instáveis.
Israel, tradicional “cão de guarda” do imperialismo na região, já não é uma garantia segura. Por isso, o imperialismo é obrigado a atuar diretamente para garantir seus interesses. Um Iraque ocupado seria a garantia de uma rápida repressão em qualquer país da região, obrigando também a abertura do Irã às empresas americanas.
Elizabeth Cheney, filha do vice-presidente dos EUA e encarregada de montar o regime pós-guer-ra, explicou que tipo de governo será instalado no Iraque: “Eleições em países árabes podem resultar em vitórias islâmicas”2. Saddam parecerá brincadeira de criança diante da ditadura que os EUA querem pôr no Iraque. Uma vitória americana seria o sinal verde para Sharon desencadear a Ofensiva Final e expulsar mais de 500 mil palestinos para a Jordânia, que ganharia parte do território iraquiano.
Assim, a ocupação não seria somente a derrubada do regime de Bagdá, senão uma remodelação das fronteiras e uma mudança no papel regional de outros Estados. Em resumo: a ocupação militar do Oriente Médio e regimes ao serviço do controle norte-americano do petróleo.3

Porque estão divididos os países imperialistas?

elo simples fato de que não querem pagar a conta da recuperação da economia americana. Com o aprofundamento da recessão em 2002, os lucros das principais empresas foram 50% menores. Não se via uma queda tão aguda há 50 anos. A crise ameaça prolongar-se no tempo, tomando as características do Japão, que há dez anos não consegue sair da estagnação econômica.
Os efeitos da guerra colonial sobre a economia mundial não podem ser vistos somente no sentido do aprofundamento da crise com o aumento do preço do petróleo. Se a maioria da burguesia perde com o aumento do preço desta matéria prima, devemos perguntar: quem ganha?
Em primeiro lugar, as empresas vinculadas à produção militar. O orçamento militar americano para 2003 aumentou em U$ 15,3 bilhões de dólares.4 Mas não é tudo: a Europa importa 80% de todo o petróleo que consome e o Japão quase 100%. São empresas norte-americanas e inglesas que fornecem a maior parte do petróleo da maioria destes países.
Um aumento do preço do petróleo deve acelerar a crise econômica na Europa. Mas se alguém paga mais caro pelo petróleo, significa que outro está recebendo mais. Assim, uma parte do lucro das empresas européias estará sendo transferida para as empresas e bancos americanos.
Na verdade, os EUA estão transferindo sua crise para o mundo. A recessão americana tendia a baixar o dólar, e os capitais europeus investidos nas bolsas norte-americanas começavam a migrar de volta. Somente a ameaça de guerra fez o dólar disparar, por pura especulação. A outra cara do aprofundamento da crise é o papel dos EUA como uma grande esponja que chupa capitais de todo o mundo para salvar sua economia.
Por outro lado, a França atuava no vazio da crise com o Iraque, fechando contratos de exploração de petróleo com o regime de Saddam. Se isso continuasse, deixaria os EUA fora da segunda maior reserva de petróleo do planeta.
Como a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, uma guerra que se prolongue no tempo pode dar o sentido oposto ao esperado pela camarilha petroleira que governa os EUA5. Os outros setores da burguesia americana também perdem com o aumento do petróleo, mas minimizam suas perdas investindo na alta dos outros dois ramos, petróleo e armamentos. Porém, com o prolongamento da guerra, a perda pode ser maior que os ganhos e aprofundar a crise.

Guerra e Alca: duas faces da recolonização

s EUA travam uma guerra contra os trabalhadores em todo o mundo. Seu objetivo é destruir todas as travas à transferência de riquezas aos EUA – riqueza esta gerada pelos trabalhadores latino-americanos – e controlar os recursos naturais do continente.
Não é somente o Iraque que periga ser transformado em colônia, a destruição que causará a Alca nos países latino-americanos será tão devastadora como uma guerra. A biodiversidade da Amazônia é tão valiosa para o imperialismo como o petróleo do Iraque, e o tratado da Alca entrega esta riqueza às empresas norte-americanas.
O desemprego e a fome que gerará a Alca matará tanto como a guerra colonial no Oriente Médio. A criação de mais bases militares por toda a América Latina – não se pode esquecer de Alcântara – e a intervenção na Colômbia obedecem aos mesmos objetivos da ocupação do Iraque.
Assim, uma vitória norte-americana nesta guerra colonial, reforçaria o poder imperialista não somente no Oriente Médio, mas fortaleceria a guerra econômica contra os trabalhadores na América Latina. Em sua busca desesperada para sair da crise, o imperialismo não se alimentará somente do petróleo do Iraque. Também exigirá a entrega das riquezas dos países latino-americanos. Tanto as riquezas naturais quanto as que geramos com nosso trabalho.

Brasil: o governo Lula e a guerra

ada vez que o dólar aumenta temos que trabalhar mais horas para pagar a dívida externa. Deste modo empobrecemos mais, pois transferimos mais riquezas para os bancos. Por isso haverá ainda menos recursos para saúde, educação e investimentos. E, como se isso não bastasse, nosso salário diminui com o aumento dos preços dos combustíveis e da inflação.
O Brasil não poderá fugir dos efeitos “econômicos” da guerra. O famoso “equilíbrio instável” da economia brasileira tende ao colapso, como na Argentina e no final de tudo serão os trabalhadores que pagarão a conta da guerra. Mas essa é uma das opções colocadas, não é a única.
Todos os jornais burgueses, a TV e os ministros do governo Lula tentam nos convencer de que “não há outra opção…”. Acontece que existem, no mínimo, duas: a primeira, seguir pagando a dívida, e a segunda, NÃO pagar.
Palocci diz que o programa com que Lula ganhou as eleições dizia que manteria o pagamento da dívida. Ora, o “programa do Lula” não dizia nada sobre o que fazer ante uma guerra que ainda não existia e que trará mais penúria ao povo brasileiro.
Com a guerra, os EUA mudam todas as regras do jogo. Lula se comprometeu a pagar a dívida pontualmente dentro de um determinado quadro. A guerra muda o quadro, aumenta o dólar e aumenta o petróleo. Aumenta, portanto, o montante de pagamento. Quem rompe o compromisso com Lula em benefício próprio é o imperialismo.
Além de tudo, se Lula está contra a guerra, como afirma, não pode seguir financiando-a com o sacrifício do povo brasileiro. Seria hora de, no mínimo, suspender o pagamento da dívida e as negociações da Alca enquanto durar a guerra. Afinal, esta é também uma guerra contra o Brasil.
Agora perguntamos: o compromisso que Lula assumiu com o FMI é superior ao compromisso que assumiu com a população pobre que o elegeu? De nossa parte, seguiremos defendendo que a única forma de garantir salário, emprego e terra é parando de pagar a dívida e se retirando das negociações da Alca.

1 Al-Kadiri, R., Middle East Report, número 220, outono 2001
2 O Globo, 02/02/ 2002
3 Informações mais detalhadas podem ser encontradas no texto “Qual deve ser a estratégia dos EUA no Oriente Médio?” do Instituto Rand, que presta assessoria aos governos norte-americanos.
4 O orçamento total de defesa dos EUA chega a US$379,9 bilhões. Maior do que o de França, China e Alemanha juntas.
5 Uma rápida olhada entre o atual governo americano e a indústria do petróleo dispensa maiores análises. Bush foi executivo de duas empresas petrolíferas, Arbesto Energy e Harken. O vice-presidente Cheney foi executivo da Halliburton, com contratos milionários no Kuwait. A assessora internacional do presidente, não só foi executiva de Chevron mas como é a única pessoa viva com um petroleiro batizado com seu nome.
6 O Estado de São Paulo, 01/02/2002

Post author João Ricardo Soares,
da Redação
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