A greve na Toyota de Indaiatuba e o papel da repressão

Frodo, trabalhador da Toyota de Indaiatuba (SP)

No dia 30 de outubro teve início a primeira greve em mais de 6 anos na fábrica da Toyota em Indaiatuba (SP). A pauta era a campanha salarial: o reajuste apresentado pela empresa (3,28%, referente à reposição da inflação) não foi aceito pelos trabalhadores.

Isso porque o Corolla (único modelo feito nessa planta) segue há alguns anos na contramão do mercado, vendendo mais do que muitos carros populares. O modelo 2020, recém-lançado, mantém essa lógica, mesmo com sua versão mais básica custando a partir de R$100 mil.

A consequência disso é que o ritmo de trabalho segue muito pesado. Dos mais ou menos 2100 funcionários calculam-se* que mais de 10% sejam de lesionados: gente que adoeceu devido ao trabalho (bursites, tendinites, hérnias, transtornos mentais e um longo etc.). Entre os demais é muito comum ver caixinhas de analgésicos nos armários, sendo consumidos ao longo do dia.

E se não há a devida preocupação com a saúde de quem está na linha de produção, há menos ainda com esses trabalhadores que, após anos de dedicação, foram “premiados” com diversas cirurgias, uso constante de remédios e dores físicas e psicológicas que não tem cura.

Essa contradição entre o tanto que se trabalha e o tanto que a empresa fatura aumenta a cada dia. Diante de tanto sofrimento do lado do operário e tanto lucro do lado da empresa, a situação chegou a esse ponto em que se votou a greve.

Houve muitas ameaças da empresa, que fez uma enorme pressão sobre os chefes de todos os níveis da hierarquia para que assediassem os trabalhadores. Muitos chegaram, inclusive, a ameaçar de demissão e houve até um caso de empurrão de um chefe sobre um cipeiro para que ele não desse opinião.

O efeito dessa pressão nos dias anteriores ao início da greve foi de aumentar a indignação dos trabalhadores. E pior ainda quando a empresa chamou o sindicato para uma reunião e fez uma proposta pior que a anterior: adiantar a 2ª parcela do PLR de janeiro de 2020 para novembro de 2019, o que geraria um aumento no desconto de imposto de renda.

Assim, teve início a greve na quarta-feira de manhã, e apesar das tentativas de alguns chefes de furar a greve, graças aos cipeiros, lesionados e sindicato foi possível fazer esse setor da chefia recuar, garantindo um dia de 100% de paralisação.

As instituições de repressão
Na quinta-feira a história mudou: um grande efetivo da Guarda Municipal e da PM estava presente. Logo no começo o recado foi dado: se não tiver piquete vai ser tranquilo, se tiver vai ter repressão.

A assembleia ainda estava em curso quando os mesmos chefes do dia anterior receberam a ordem da empresa de que deveriam entrar pra fábrica, e que a segurança seria garantida pela Guarda e pela PM.

A Guarda fez um corredor garantindo a entrada para quem “quisesse”. Tirando uma parte da chefia, a maioria absoluta dos trabalhadores não queria. Mas aí começaram os telefonemas de diversos líderes e encarregados que entraram, com aquele recado que todo mundo entende: “não tem ninguém barrando a entrada, quem quiser pode entrar”.

Aos poucos um e outro acabaram cedendo e entrando, e nisso, dentro de alguns minutos, a maioria já tinha entrado pra trabalhar.

A indignação com o efetivo policial era grande. “Lá no bairro eles não vão”; “Quando a gente chama eles demoram”; “A gente não é bandido, a gente é trabalhador”.

Essa situação mostra bem qual é o verdadeiro papel dessas instituições: a prioridade é a defesa da propriedade privada dos empresários. Quando há qualquer ameaça a eles, as instituições de repressão abandonam tudo e vão socorrê-los.

Um policial chegou a dizer: “eu trabalho igual a vocês, eu cumpro ordens igual a vocês. Quem manda na PM é o governador e quem manda na Guarda é o prefeito“.

Mais lúcido impossível: o governador Dória esteve com a direção da Toyota no Japão há poucos meses para anunciar o recente investimento na planta de Sorocaba. E o prefeito de Indaiatuba, Nilson Gaspar, esteve na fábrica também há pouco mais de um mês para o lançamento oficial do Corolla 2020. Não há como duvidar que eles acatariam qualquer pedido da empresa num piscar de olhos.

Outro diálogo bastante interessante foi o que tivemos com outro policial. Ele dizia: “tenho que liberar a entrada, porque vocês não podem intimidar as pessoas que querem entrar“. E quando dissemos: “mas e quando a empresa intimida o trabalhador para não exercer seu direito de greve?“, a resposta foi “aí vocês juntam provas e entram com uma ação“.

Em outras palavras: o direito do patrão é garantido de imediato pela polícia, já o do trabalhador depende de juntar provas e entrar com um processo na justiça.

Ao final, depois que tudo já estava resolvido para a empresa, um policial diz que “apenas estava cumprindo a lei, o direito constitucional de ir e vir“. Fica bem nítido como que o direito que favorece os empresários vale mais que o direito de lutar contra a exploração deles.

Lições
Dadas as condições internas da fábrica e as do momento de crise no país e no mundo, os trabalhadores da Toyota de Indaiatuba tiveram uma vitória política muito grande, apesar da derrota econômica. Provaram que não estão mortos, que não vão aceitar tudo eternamente, que uma hora a classe dá o troco.

Provaram também que a união entre os trabalhadores, independente de suas diferenças e divergências, é o que determina os rumos da sociedade. Com a classe unida, só há produção se ela quiser. O lucro do patrão depende do nosso trabalho.

E por fim fica a lição mais importante para o atual momento de grandes lutas acontecendo em todo o mundo: o Estado que existe hoje (poder executivo, poder legislativo e poder judiciário) tem dono, ele pertence à burguesia. Por isso ele sempre vai fazer o que os grandes banqueiros e empresários determinarem.

Essa é a razão para que a classe trabalhadora não tenha qualquer ilusão de que uma mudança no governo, ou no Congresso ou mesmo no judiciário vai resolver o nosso principal problema, que é a exploração, a extração de lucros do nosso trabalho para os bolsos desses bilionários.

É preciso aprofundar a nossa unidade enquanto classe, e transformar isso em organização, como está sendo feito no Chile, com a conformação de assembleias populares que hoje debatem os rumos da luta, mas amanhã debaterão os rumos da sociedade.

E é preciso também, no calor das lutas, construir um partido revolucionário, composto por aquelas e aqueles que são a linha de frente desses embates. Isso porque é indispensável disputar os rumos da luta contra todas as outras organizações que não confiam na classe trabalhadora e colocam as eleições e a institucionalidade como saída, e acabam tornando inúteis as mais heroicas batalhas.

* O número real é desconhecido, pois apesar das inúmeras cobranças por parte dos cipeiros de luta e do sindicato, a empresa esconde essa estatística a sete chaves.