A evolução da crise

A atual crise da economia mundial apareceu, num primeiro momento, sob a forma de uma crise imobiliária nos Estados Unidos. Nos últimos anos, os bancos americanos ofereceram de forma generalizada créditos hipotecários a compradores de imóveis de alto risco (subprimes), cobrando altos juros.

Essas hipotecas eram empacotadas por grandes companhias hipotecárias e transformadas em papéis ou títulos que eram negociados no mercado por corretoras e bancos de investimento, captando, assim, mais capitais e permitindo que as companhias oferecessem mais crédito.

Os títulos foram assegurados por companhias de seguros e avaliados com boas notas por agências de classificação de risco como a Standard & Poor’s. Desta forma, os papéis foram comprados por investidores do mundo todo, como os grandes bancos e os fundos de pensão.

Esse esquema especulativo, parecido com as famosas pirâmides, veio abaixo quando se tornou evidente que milhões de compradores não poderiam pagar suas hipotecas. Os bancos começaram a retomar as casas dos inadimplentes. A grande oferta de imóveis resultante fez baixar bruscamente os preços e deixou evidente que bancos, corretoras, companhias imobiliárias, companhias de seguros e investidores em geral não só não conseguiriam obter lucros como teriam pesadas perdas sobre o capital investido.

A crise financeira atual é mais uma manifestação de um processo permanente de crescimento-auge-crise-depressão, próprio do sistema capitalista, que vive crises cíclicas desde o começo do século 19, num permanente movimento de equilíbrio e desequilíbrio. Cada crise, no entanto, tem suas particularidades e alcances. A crise atual se expressa de forma particularmente violenta pela situação do capitalismo imperialista e da luta de classes na época em que vivemos. Na verdade, as contradições que explodiram agora vêm se desenvolvendo há vários anos.

Durante a década de 1990 e princípios do século 21, depois de décadas de crise, o imperialismo conseguiu inaugurar um período de expansão e crescimento através do enorme aumento da exploração dos trabalhadores de todo o mundo e de um verdadeiro processo de recolonização dos países explorados. Isso se deu de distintas formas:

  • Através da restauração do capitalismo na China, Rússia, todos os Estados do Leste Europeu e Ásia. Isso permitiu que o imperialismo explorasse diretamente os trabalhadores desses países, principalmente da China, que se transformou na fábrica do mundo, pagando salários de fome e extraindo, assim, uma enorme massa de mais-valia.
  • Com a abertura de novos mercados para os produtos das transnacionais nos países onde se restaurou o capitalismo e também nos países onde se impuseram os chamados Tratados de Livre Comércio (TLCs).
  • Com a quebra dos monopólios para a exploração das riquezas naturais dos países pobres, seguida por uma verdadeira pilhagem desses recursos pelas transnacionais.
  • Impondo um amplo e generalizado processo de privatizações de empresas estatais e serviços públicos, que permitiu às empresas imperialistas explorar diretamente todo um setor dos trabalhadores dos países periféricos e dos próprios países imperialistas e obter enormes lucros, o que antes só fazia de forma indireta.
  • Criando novas formas de aumentar a exploração do trabalho assalariado, a chamada flexibilização trabalhista, isto é, terceirizações, todo tipo de contratos precários, eliminação de conquistas, aumento da jornada de trabalho etc.

    Todas essas formas de exploração e expansão dos mercados permitiram um aumento da taxa de lucro (relação entre a mais-valia apropriada pelo capitalista e o capital investido por ele). Novas tecnologias digitais também possibilitaram aumentar a produtividade e criar um mercado financeiro mundial que funciona online e permite um ritmo instantâneo de repartição de lucros e acumulação e sobreacumulação de capital.

    Todos esses processos resultaram na extração de uma enorme massa de mais-valia. Produziu-se uma grande sobreacumulação de capital. No entanto, essa sobreacumulação gera uma queda na taxa de lucro na medida em que a parte superior da equação, a mais-valia, permanece a mesma, mas a parte inferior (o capital) aumenta. O capital busca então, o mais rapidamente possível, novos investimentos onde obter lucros e reverter a queda na taxa de lucros.

    Durante as últimas décadas, essa sobreacumulação de capital provocou um grande aumento do capital fictício, isto é, o capital que não é investido na produção diretamente, mas sim na especulação, em suas diversas formas.

    Em geral, essa grande massa de capital disponível é injetada de novo na economia sob a forma de uma enorme oferta de crédito (ações em bolsa, títulos, títulos da dívida pública, créditos para exportação, créditos para as empresas, crédito ao consumidor), sobre a qual os capitalistas esperam conseguir uma remuneração maior e mais rápida que a obtida na produção.

    Mas esse movimento provoca um brutal endividamento, não só dos consumidores individuais, mas das empresas e até dos Estados. A dívida pública dos Estados Unidos, por exemplo, já alcança a incrível quantia de US$13 trilhões.

    Quando se produziu a última crise mundial, em 2001-2002, o imperialismo buscou atenuar seus efeitos e produzir um novo ciclo de crescimento, entre outras medidas, baixando a taxa de juros e facilitando ainda mais a oferta de crédito. Com isso, conseguiu estimular o consumo e recuperar a taxa de lucro por um curto período.

    Isso foi combinado com outra política fundamental do governo Bush na época: deflagrar as guerras do Iraque e do Afeganistão, aumentando violentamente os gastos com o orçamento e estimulando assim um crescimento generalizado da indústria militar e dos setores ligados ao provimento das Forças Armadas.

    No entanto, ambas as medidas significaram uma fuga para adiante, isto é, conseguiram suavizar a crise de 2001-2002, mas só aumentaram as contradições do capitalismo norte-americano. Por um lado, elevaram a níveis insuportáveis o endividamento generalizado das empresas, dos consumidores e do Estado. Por outro, a heróica resistência das massas iraquianas e afegãs gerou uma crise política no imperialismo e um prolongamento acima de qualquer expectativa da guerra e conseqüentemente dos gastos públicos e da dívida do Estado.

    Por isso, essa crise é particularmente explosiva. Porque, além de sua natureza comum a todas as crises do capitalismo – se manifesta numa queda abrupta da taxa de lucros e num desequilíbrio que leva a uma crise de superprodução –, comporta um elemento que a potencializa tremendamente. Estamos falando da crise do sistema financeiro dos EUA e da Europa que, por obra da mundialização do capital e do desenvolvimento espetacular da técnica, já atinge o mundo inteiro, refletindo esse enorme endividamento dos consumidores, empresas e Estados.

    Post author Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI)
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