Reprodução / redes sociais

Você já deve ter reparado que o trânsito piora quando tem um acidente na pista. Muitas vezes, não porque o carro batido está atrapalhando, mas porque as pessoas reduzem a velocidade para olhar, por curiosidade. Na psicologia, chama-se de viés de negatividade o fato de que temos a tendência de prestar atenção nos fatos negativos, nas notícias ruins. Ao que parece, isso foi um mecanismo natural de preservação da espécie, que permitiu identificar o que é perigoso quando uma outra pessoa sofria um acidente ou morria.

Atualmente, esse viés ainda pode ser útil, quando prestamos atenção aos perigos de uma política de um governo genocida. Mas pode nos atrapalhar também, como no caso do congestionamento citado. Contudo, a mídia descobriu uma forma de utilizar esse mecanismo para ganhar muito dinheiro, ainda que isso prejudique a nossa saúde mental e viole a privacidade das vítimas de violências e de acidentes. É isso o que discutiremos nesse texto.

O oportunismo da mídia

Antes de qualquer tipo de imprensa, as notícias se transmitiam por fofoca, e até hoje utilizamos esses recursos. No chão de fábrica, por exemplo, isso é chamado de rádio peão, o que ajuda os funcionários a se proteger dos ataques dos patrões. Mas isso toma uma outra dimensão quando empresários começam a lucrar vendendo jornais, revistas e tempo no rádio e na TV.

Das revistas de fofoca, com seus paparazzi assediando artistas, ao jornalismo que esconde o debate político fazendo críticas morais aos poderosos. Esses empresários sabem que basta a eles ter audiência para que possam vender anúncios, não se importando com a utilidade pública da notícia veiculada.

Isso é levado às últimas consequências pelo chamado “jornalismo sensacionalista”, que sequer deveria ser chamado de jornalismo. Esse tipo de produção transforma a violência em um espetáculo, em entretenimento. O resultado é que, enquanto eles colocam o lucro no bolso, sua audiência fica anestesiada diante do horror da violência urbana e policial. Além disso, ficam com uma visão distorcida do tamanho do problema, piorando sua sensação de segurança.

Isso cria um efeito conhecido pelos especialistas da área como “pornografia da violência”. Ou seja, quanto mais se assiste, mais anestesiado fica e, consequentemente, sente necessidade de ver cenas cada vez mais hediondas e com maior frequência. Enquanto a população adoece, os lucros dos monopólios midiáticos aumentam.

A revitimização

Além da audiência sofrer o abuso da mídia, as vítimas dos casos anunciados por ela também sofrem. É o caso de uma mulher que sofre com violência sexual e precisa assistir seu rosto sendo veiculado em rede nacional sem sua autorização. Além de reviver o caso, ainda é constrangida pelos olhares de pessoas que a reconhecem na rua e no local de trabalho.

Até mesmo o sistema judiciário prevê em lei que as vítimas não devem ser colocadas junto aos seus agressores durante o processo policial e judicial. Se isso não é respeitado pelas instituições em nome do machismo, da falta de treinamento e de estrutura, tampouco é respeitado pela mídia, que lucra muito com essa forma de desrespeito.

Oportunismo das redes sociais

Com as redes sociais, as plataformas entraram na disputa por anúncios e, consequentemente, pela atenção das pessoas. Quanto mais apelativo o conteúdo postado, maior o engajamento e o lucro da empresa que controla essa plataforma. Os algoritmos que distribuem esses conteúdos acabam selecionando os materiais negativos e as pessoas que publicam são dirigidas a produzir esse tipo de conteúdo.

Não é por acaso que exista tanto comentário violento e agressivo que, se fosse numa conversa presencial, dificilmente seria reproduzido dessa forma. Também é o que explica os vídeos, áudios e imagens de violência urbana e policial, e de acidentes sendo viralizados nas redes. É o mesmo oportunismo da mídia sendo reproduzidos por essas plataformas. Mais violência em nome do lucro.

Os jornais, que agora competem com as plataformas por anunciantes, sentem a pressão para aumentar a carga de violência em suas manchetes. Isso cria uma espiral crescente e destrutiva sendo transmitida a todas as pessoas, amplificando todos os efeitos citados acima. Poucos são os jornalistas que respeitam a ética da profissão e se mantêm empregados.

Quando devemos veicular?

Tudo o que foi dito mostra como o mercado impõe a veiculação desse tipo de conteúdo como o padrão. Por isso, qualquer mídia, deve ter um cuidado redobrado ao escolher a manchete, a imagem, os áudios e os vídeos que irá veicular. Contudo, isso não significa que esse tema deve ser proibido ou um tabu.

Devemos sim discutir as catástrofes, os crimes e a violência. Mas conscientes do Quê, Como e Por que estamos fazendo isso. Ter a sensibilidade de ocultar os nomes das vítimas e as imagens mais explícitas. Priorizar a divulgação dos agressores, e não das vítimas. E principalmente, pedir autorização explícita.

É muito difícil que uma mídia com interesses de mercado consiga promover matérias jornalísticas com esse nível de sensibilidade. Quando algum jornalista consegue superar os interesses sensacionalistas da empresa, o mais provável é que as concorrentes tentem aproveitar a pauta para disputar a audiência com o oportunismo tradicional. Então, mesmo quando alguém acerta, é inevitável que haja abusos de todos os outros veículos e do próprio público.

Em geral, o movimento pode questionar a forma predatória com que as empresas de jornalismo tentam transformar as notícias em audiência e lucro de anúncios. Mas, algumas vezes, as vítimas fazem questão de que seja veiculada a violência sofrida. Nesses casos, é importante que o movimento esteja atento para que possa transformar as notícias em solidariedade e luta.

Alguns exemplos

É o caso de mães que perdem seus filhos para a violência racista e policial e não vêem perspectiva de que haja justiça. Bruna, mãe de Marcus Vinícius, teve seu filho morto, em 2018, com um tiro nas costas aos 14 anos por um blindado da PM RJ, no Complexo da Maré. Ainda no hospital ele disse à mãe: “Eles não viram que eu estava com a roupa da escola, mãe?”. Desde então, ela faz discursos em busca por justiça segurando o uniforme do filho manchado de sangue.

Outro caso emblemático foi de Emmett Till, um adolescente negro norte-americano que foi brutalmente assassinado aos 15 anos, em 1955, após ter sido acusado de um crime que não cometeu. Os assassinos foram absolvidos do crime e a mãe fez questão de que seu corpo fosse velado com o caixão aberto: “Eu quero que o mundo veja o que fizeram com meu bebê“. Milhares de pessoas compareceram ao velório, que se transformou em uma marcha pelos direitos civis e contra o racismo.

Também é bastante comum que povos inteiros queiram divulgar para o mundo as violências que sofrem de seus governos ou de nações invasoras durante as guerras. Os ucranianos, que tiveram seu país invadido pelo governo russo, recebem bastante solidariedade internacional por terem ampla cobertura de mídia. Palestinos e sírios, por outro lado, são ignorados pela mídia e se sentem isolados em suas lutas contra a invasão de Israel e o Ditador Bashar al-Assad.

Outro caso comum é durante as greves, em que a patronal costuma veicular mentiras sobre os operários através da mídia. Além do assédio anti-sindical dos patrões, também é comum a violência policial e de pistoleiros contratados pelos patrões. Os grevistas fazem questão de que toda a violência, a exploração e as calúnias sejam veiculada durante suas lutas.

A verdade é o motor da solidariedade

A violência é um problema real da classe trabalhadora. É um erro da mídia transformá-la em um espetáculo, mas também é um erro dos pacifistas que fingem que ela não existe. No capitalismo não é possível uma vida de “paz e amor” para quem é explorado e massacrado por esse sistema.

Para não cair em nenhum desses erros, é preciso ter um olhar crítico ao jornalismo. Vigiar se o veículo de informação é um oportunista pela audiência, pelo lucro ou pelo algoritmo. Sempre verificar se existe autorização explícita das vítimas caso elas estejam sendo expostas. Mas principalmente, se a notícia veiculada visa apenas causar pânico e deixar as pessoas em choque, ou se ela busca construir uma solidariedade da nossa classe na luta contra toda opressão desse sistema.