A CUT na encruzilhada

Em agosto de 1983 foi fundada a Central Única dos Trabalhadores. Seu congresso de fundação reuniu 5.054 delegados, nos estúdios Vera Cruz, em São Bernardo do Campo. A CUT foi o fruto do enorme ascenso das lutas dos trabalhadores que comovia o país, particularmente das poderosas greves do ABC em 1978, 79 e 80.

Quem esteve presente neste e no primero congresso, em 1984, lembra-se do clima apaixonado e acalorado que envolvia todas as discussões. Além da plenária geral que deliberava sobre tudo, os grupos de trabalho prolongavam-se até altas horas da madrugada, em intensos debates, mesmo com o frio cortante daquele inverno.
No final dos debates, a maioria dos delegados dormia ali mesmo, num alojamento improvisado. Havia muita ansiedade e expectativa. Afinal, ali estava se fazendo história: mudava-se o movimento sindical brasileiro. No final da ditadura militar, aqueles sindicalistas – de oposição à pelegada – desafiavam a lei e criavam uma central sindical autônoma, independente, classista, democrática, de luta e de caráter socialista.

Hoje, vinte anos depois, estará acontecendo o 😯 Congresso da CUT, que poderá vir a ser tristemente lembrado como aquele em que ocorreu um salto de qualidade na adaptação da central a institucionalidade, fazendo a nossa CUT assumir um caráter governista e “chapa branca”.

Se depender da Articulação Sindical isso certamente ocorrerá. O texto base de sua tese não se posiciona sobre a reforma da Previdência, o salário mínimo, o aumento da taxa de juros, superávit primário e menos ainda defende o Não Pagamento da Divida Externa e Ruptura do acordo da ALCA.

Enquanto isso, a direção majoritária da CUT se pronuncia a favor da participação no CDES; critica de forma contida o aumento dos juros, se cala sobre o superávit primário; declara que 240 reais é um valor “razoável” para o salário mínimo; considera “criativa” a proposta de reajuste de 1% com abono de R$ 60 para o funcionalismo e assinala “diferenças pontuais” com a reforma da previdência.
Enfim, apóia globalmente a política do atual governo. O pior é que esta “domesticação” se dá quando o atual governo está aplicando de maneira aprofundada o projeto neoliberal exigido pelo FMI.

A expressão máxima deste processo de domesticação é a indicação, feita por Lula, de Luís Marinho para presidente da CUT. Homem de confiança do Presidente, Marinho é conhecido por ser ardoroso defensor das políticas de parceria com os empresários e multinacionais, da flexibilização dos direitos trabalhistas, banco de horas, redução de salários e terceirização.

Esta realidade impõe a necessidade de construção de uma alternativa de direção na CUT, que organize e impulsione a luta pela manutenção e ampliação dos direitos sociais e trabalhistas, pela ruptura com o FMI e a ALCA, pelo não pagamento das dívidas externa e interna, contra os pactos sociais e que aponte como perspectiva a luta por superar a exploração capitalista e por uma sociedade socialista.
Neste sentido, a responsabilidade das correntes de esquerda cutistas neste momento é imensa. Está em xeque tudo que foi construído nos últimos 20 anos no movimento sindical.

É fundamental unir a esquerda e constituir um Bloco que se afirme como alternativa de luta, classista, pela base e socialista perante o projeto da Articulação Sindical, que possa atuar no congresso e no dia a dia da central, em defesa dos interesses dos trabalhadores e da CUT combativa que fundamos em 1983.

Post author Américo Gomes,
de São Paulo
Publication Date