A crise econômica mundial e a luta de classes

A crise atual do capitalismo tem as características clássicas de superprodução: queda na taxa de lucros das grandes empresas e índices gigantescos de queda na produção, aproximando a economia de uma depressão

Ao contrário das previsões dos propagandistas do capitalismo, a crise econômica internacional só faz crescer. Não se trata de um problema conjuntural, mas de um episódio histórico qualitativo, uma crise que reverte todo um período de crescimento. A globalização, que marcou o mundo com seus planos neoliberais nos últimos trinta anos, entrou em xeque. O capitalismo mostra sua face real em uma crise que joga por terra suas ideologias.

São ridículas neste sentido as expectativas que estão sendo difundidas de uma recuperação rápida, que viria já no segundo trimestre de 2009 pelas mãos de Barack Obama. A crise vai se aprofundar seguramente durante todo o ano de 2009.
A crise atual tem as características clássicas de superprodução das crises do capitalismo. O que marca seu ritmo e profundidade é a queda na taxa de lucros das grandes empresas multinacionais, em particular da indústria norte-americana, o coração do imperialismo. Essa taxa de lucros está desabando, e esse é o motivo pelo qual são completamente infrutíferas as tentativas dos governos de evitar a crise por meio de injeção de dinheiro nos bancos.

Por que a crise está se aproximando de uma depressão
A dimensão da crise é catastrófica. Primeiro vejamos os dados da realidade. A situação do setor automobilístico norte-americano é ilustrativa: a previsão é que as vendas em 2008 tenham sido as menores em 27 anos. A queda na produção de bens duráveis no último trimestre de 2008 nos EUA foi de 16,2%.

Não se trata de um fenômeno restrito ao mercado norte-americano. Existe uma recessão também no Japão e na Europa. A japonesa Toyota, hoje a maior produtora de automóveis do mundo, teve em 2008 o primeiro prejuízo de sua história. Segundo o JP Morgan, a queda na produção industrial mundial em dezembro esteve entre 12% e 15%.
Estes não são números de uma recessão “normal”. Segundo o economista José Martins, “no ciclo atual a queda do primeiro trimestre do seu período de crise foi cinco vezes mais profunda que o trimestre correspondente do último período de crise. Enquanto o quarto trimestre de 2001 registrou queda de 2,9%, o quarto trimestre de 2008 registrou queda de 16,2%.”

Estamos perante uma crise cíclica de superprodução agravada por alguns fatores chave. Vamos citar dois deles: a quebra financeira e o que podemos chamar de consequências do parasitismo imperialista.

A quebra financeira já é de conhecimento de todos. Os analistas superficiais inclusive tendem a centrar nela a explicação da crise, se equivocando completamente. Caso isso fosse verdade, alguma recuperação teria vindo da injeção recorde de US$ 8 trilhões dos governos nos bancos.

Mas a crise financeira, se não determina a evolução da economia como um todo, ajuda a explicar a gravidade da crise. Por um lado, os enormes prejuízos financeiros se estenderam a todas as grandes empresas. Por outro, existe hoje um bloqueio no crédito para a produção e o consumo que agrava muito a crise de superprodução.

Outro elemento tem também enorme importância. Os EUA, por serem a única superpotência hegemônica, conseguiram manter uma condição que esconde artificial e parasitariamente a decadência de sua economia. Trata-se do país mais endividado do mundo, sobrevivendo graças à injeção diária de US$ 2 a US$ 3 bilhões, que sustenta um brutal déficit comercial e fiscal. As empresas e famílias também estão endividadas em um grau gigantesco. Ampliou-se artificialmente o mercado através de um crédito abusivo. Isso, que poderia aumentar o crescimento com características parasitárias e especulativas, cobra seu preço no momento da crise, agora puxando para baixo.

Esses fatores (entre outros) agravam a crise cíclica. Por isso estamos vendo índices gigantescos de queda na produção, que se aproximam aos de uma depressão. As opções reais que existem são de uma depressão semelhante ou pior que a de 1929 (com quedas de 15%-20% nos países centrais) ou uma recessão severa que abra uma sucessão de ciclos econômicos com períodos de crescimento mais curtos e crises maiores.
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