A crise do PSOL e a necessidade de uma Frente Socialista e Classista

A crise no 2º Congresso do PSOL é expressão de um retrocesso que pode se agravar mais aindaO PSOL terminou seu segundo congresso evidenciando uma crise que se refletiu duramente na imprensa. A Folha de S.Paulo noticiou que “após três dias de debates em São Paulo, o 2º Congresso da agremiação foi encerrado sem conseguir convencer Heloísa Helena a se lançar candidata.” Segundo o jornal, “Heloísa não esconde que tem entre as possibilidades a serem analisadas a candidatura ao Senado por Alagoas.”
A matéria reflete a polêmica em curso no PSOL, em que Heloísa (com apoio de uma parte do partido) defende deixar de lado a candidatura à presidência e se dedicar à disputa pelo senado em Alagoas, em que está na frente pelas pesquisas eleitorais. Outro setor é contrário a esta iniciativa e a saída foi adiar a decisão para uma conferência daqui a 60 dias.

Mas a polêmica se estendeu, abrangendo outro tema, ainda mais complicado: o apoio ou não à candidatura de Marina Silva. Este debate já está presente no PSOL de forma aberta ou reservada nos bastidores.

A matéria da FSP registra a declaração de Heloísa sobre o tema: “Eu não aceito ser obrigada a não respeitar Marina Silva nas minhas declarações públicas. Isso gera um dissenso partidário. O partido deve construir o seu programa, apresentar as alternativas concretas para o Brasil e só então discutir qual o melhor quadro partidário para representar esse projeto”. “Eu tenho a dizer que Marina Silva é uma das mais valorosas militantes que a esquerda já produziu. E eu não vou aceitar que queiram me proibir de dar essas declarações públicas.”

Crise mesmo na indicação da presidência do partido
A matéria segue: “ O descontentamento de Heloísa com o PSOL já era evidente no início dos debates (ela chegou a denunciar que estaria sendo vítima de uma campanha de calúnias pela internet, movida por seus “camaradas”). Ficou pior. O último ponto da pauta do congresso, a eleição da direção, terminou com a derrota da chapa apoiada por ela e encabeçada pela deputada Luciana Genro (PSOL-RS). Venceu a chapa liderada pelo deputado federal Ivan Valente (SP)…”

Na verdade, não foi aceito pelo setor majoritário no congresso que Heloísa fosse candidata à presidência do partido por fora das chapas que concorriam à direção. Esse setor (capítaneado pela APS (do deputado Ivan Valente-SP) chegou a baralhar a possibilidade de lançar outro candidato à presidência, recuando depois. Heloísa foi obrigada a concorrer como parte da chapa minoritária apoiada pelo MES (de Luciana Genro), MTL e o grupo de parlamentares do Rio (de Chico Alencar, Marcelo Freixo). Só depois de ser derrotada, foi encaminhada por um acordo negociado, para a presidência. Foi uma demonstração do desgaste já causado na figura de Heloísa pela crise interna do partido.

É possível dar um passo adiante e não vinte para trás
Queremos fazer um chamado a todas as correntes e militantes do PSOL. A crise do congresso é expressão de um retrocesso evidente, que pode se agravar. Existem milhares de companheiros do PSOL com quem militamos no dia a dia no movimento sindical, estudantil e popular. Apesar das inúmeras diferenças que temos com o partido, tivemos uma frente eleitoral em 2006, através da candidatura de Heloísa Helena, com 6,5 milhões de votos.

Nós fizemos ao PSOL e ao PCB uma proposta de frente socialista e classista para as eleições de 2010, que queremos refazer neste momento. A candidatura Marina Silva é uma tentativa da oposição burguesa de ocupar o espaço não só de Dilma Roussef (pela origem petista de Marina, por ser mulher), mas também da oposição de esquerda. Se o governo está nervoso com o lançamento da candidatura de Marina Silva, é necessário dizer com todas as letras que a oposição de esquerda também deve estar.

Existe uma crise que começa a se abrir no projeto governista para 2010. A candidatura de Dilma Roussef começa a manifestar suas fragilidades desde já. Uma série de crises (Sarney, a famosa reunião com Lina Vieira) se soma as incertezas de sempre sobre a evolução da crise econômica em 2010, e agora ao problema Marina. A confiança alardeada da transmissão dos votos de Lula para Dilma já não existe.
É necessário articular de imediato uma resposta política da oposição de esquerda. Nos próximos dias, Marina Silva vai começar a construir sua candidatura como “alternativa ao PT e ao PSDB”, com todo o apoio da mídia. O PSDB e DEM não vão se queixar se Marina, para viabilizar sua candidatura, fizer críticas às “oligarquias políticas” e sobrar para eles. Afinal, se ela desde o início aparecer como um acessório da candidatura Serra, terá morrido no berço uma grande jogada política.

E a resposta verdadeira à Marina não pode ser outra senão uma Frente Socialista e Classista. Esta resposta tem de ser em primeiro lugar programática. Não se pode combater a candidatura Marina, defendendo o mesmo programa de um “desenvolvimento sustentável”, por dentro do capitalismo. É preciso apresentar uma resposta à crise econômica, com um programa de ruptura com o capitalismo, que inclua a expropriação dos bancos, alem do não pagamento das dívidas externa e interna, para garantir a reforma agrária, aumentos salariais e emprego para todos.

Em segundo lugar, não se pode combater a candidatura Marina e suas alianças com a burguesia, propondo também alianças com partidos burgueses como PV em P. Alegre e o PSB de Capiberibe no Amapá. Pior ainda, aceitando dinheiro das grandes empresas como a Gerdau em P. Alegre. Só assim denunciaremos com clareza as alianças do PV com o PSDB e DEM.

Em terceiro lugar, não se pode prescindir da candidatura de Heloísa. Ela tem um capital eleitoral que foi construído não só por sua ação pessoal, mas pelo trabalho militante de milhares de pessoas nas eleições de 2006, assim como dos militantes do PSOL nesses anos. E é necessário ocupar este espaço, evitando que ele seja capitalizado em boa parte por Marina Silva.

Não existe qualquer comparação política entre a importância deste projeto político e a disputa de uma cadeira do Senado por Alagoas. Mais ainda com o grau de desgaste acumulado pelo Senado com a última crise. O aparato de uma cadeira do senado não compensa de forma alguma o desgaste que será causado pelo abandono deste projeto. Os incidentes do congresso do PSOL falam por si mesmos.
Nós propomos uma coligação, que inclua Heloísa e a candidatura de Zé Maria, pelo PSTU à vice- presidência.

Todos estes argumentos só servem para aqueles que, junto conosco, acreditam que a candidatura de Marina Silva é uma ameaça para a esquerda. Mas pode ser que exista realmente um risco maior ainda, de que o PSOL se renda à candidatura de Marina. Aí sim, seriam vinte passos atrás, um erro gravíssimo.
Por isto queremos fazer um chamado a todas as correntes e militantes do PSOL. Vamos utilizar esses 60 dias que vocês se deram para decidir o que fazer para construir uma Frente Socialista e Classista, com as candidaturas de Heloísa Helena e Zé Maria.

Post author
Publication Date