A crise do plano sionista

Ainda que os lideres sionistas considerem-se especialistas em política e economia, o seu Estado enfrenta hoje uma das “piores“ crises desde a sua fundação, num momento que a oposição e vários setores sociais começam a manifestar-se contra esta política.

[03/12/2003] O governo sionista liderado por Ariel Sharon, enfrenta hoje uma crise interna, que não permite à sociedade israelense estar ao nível de outras, especialmente após vários setores da sociedade israelense terem manifestado sua desconfiança em relação à política interna e externa do governo sionista. A propaganda protagonizada pelo sionismo, que visa provocar a imigração de judeus para Israel, hoje tem outro “caráter“ e finalidades.

O governo sionista nunca libera informações sobre os números de imigrantes judeus que entram ou os que abandonam a Palestina. Para a política sionista, este “é um assunto secreto do Estado“. Na sua visita à Moscou no começo de novembro deste ano, Ariel Sharon foi perguntado por jornalistas sobre o número de judeus russos que abandonaram a Palestina este ano. O líder sionista não respondeu. A imprensa israelense estima que aproximadamente 40.000 judeus russos retornaram à seu país nos últimos meses. Centenas de judeus norte-americanos também retornaram ou já se preparam para retornar ao seu país, sendo que a grande maioria é composta de empresários.

Os setores políticos, militares e populares da sociedade israelense da oposição, da ala radical do Likud e do Yesha (grupo que representa os colonos judeus) advertem que o governo pode perder o controle sobre a sociedade israelense, se continuar com esta política que cada vez está aprofundando mais a crise. Na semana passada, quando Sharon declarou estar disposto a desmantelar alguns assentamentos isolados na Cisjordânia e na faixa de Gaza, para fazer avançar o processo de paz, sua declaração foi recebida com críticas pelos colonos judeus e integrantes mais radicais do Likud e de outros partidos da direita, que assumiram a total responsabilidade pela política de Sharon de não ter conseguido cessar a Intifada. Ao mesmo tempo foi criticada a política de instalar os novos assentamentos e a construção do muro de segregação racial, que impediram o avanço do processo de paz com a Autoridade Nacional Palestina, e fizeram com que o pacote bilionário de empréstimo norte-americano se reduzisse em US$ 289,5 milhões.

A crise política se reflete na economia do Estado, que pretende fazer reformas e ajustes a custa das massas, que está causando as greves iniciadas pelo sindicato dos operários israelenses (Histadrut) há dois meses, contra a política-economica do Estado e as reformas. Este conflito entre as massas e o Estado, se converte hoje em um dos principais problemas internos para o governo sionista resolver, principalmente após não conseguir chegar a um acordo com a Histadrut na semana passada, e a ameaça do Ministério da Fazenda de descontar 10 milhões de Cheiquel dos operários se entrarem em greve. Nesta semana a situação se complicará mais ainda, com a nova onda de greves que assistiremos em reposta à ameaça do governo.

Analistas israelenses acham que o governo, enquanto está preocupado com a segurança interna ameaçada pela Intifada e outros assuntos como a imigração, viu vários problemas se acumularem rapidamente nos últimos meses e levarem à esta profunda crise. Os analistas indicam que os novos empresários judeus russos que estão imigrando para Palestina, “estão trazendo o dinheiro da máfia russa“, fenômeno que pode ameaçar a estabilidade legal dos outros empresários judeus, e levar a sociedade israelense à corrupção e à violência. Por isso e por outros motivos e principalmente de segurança, a classe burguesa judaica norte-americana começa a retornar ao seu país, onde pode ter mais estabilidade econômica, segurança e futuro, fugindo de um Estado incapaz de dar segurança para o seu povo. Um país dominado por grupos políticos, econômicos e seitas religiosas com divergências ideológicas e estratégicas, que no meio desta crise não se coincidem estrategicamente para resolver os problemas.

Hoje a maioria dos movimentos da oposição da direita israelense e da ala mais radical do Likud não acredita nos compromissos políticos do governo com as mudanças para melhor, devido à perda de confiança nos discursos dos chefes sionistas em relação a segurança interna e ao processo de paz na região. Apesar de todas as medidas, hoje a intifada é a única ameaça para a estabilidade na palestina, que com suas vitórias pequenas e relativas está causando cada vez conflitos e instabilidade em Israel. Por outro lado, este medo é devido a perda de confiança na política exterior norte-americana após a invasão ao Iraque e o surgimento da resistência iraquiana, que inspirou a Intifada e está levando o governo sionista à um caminho sem saída. Esta desconfiança de vários setores da sociedade israelense está se transformando em medo. Medo que afastou os sonhos das grandes vitórias e começou a abrir as portas para retornar às verdadeiras pátrias, onde têm segurança e futuro.

A imprensa israelense estima que um milhão de judeus, a maioria de norte-americanos, recusam-se a emigrar para viver no território ocupado. Numa entrevista a um jornal israelense, após os atentados na Turquia, uma mulher judia preferiu continuar vivendo no seu país – Turquia – do que ir para um país onde não existe segurança. As últimas pesquisas israelenses falam sobre mudanças no pensamento do povo judeu no mundo, que não tem mais confiança na política sionista. Segundo o jornal israelense Ha´arts da semana passada, os líderes do Shabak estão ajudando o povo israelense a mudar sua visão. O jornal fala ainda que é cedo para falar do resultado deste tipo de pensamento e da crise como um todo, mas alguma mudança radical está por acontecer na sociedade israelense, talvez “uma crise sem saída“. Muitos intelectuais judeus e da esquerda acham que a política sionista desfigurou o caráter do judeu, afastou o sonho das vitórias e acham impossível falar do Grande Estado de Israel na frente da realidade da Intifada e que é mais viável para a sobrevivência falar em um Estado democrático-laico. Hoje em Israel há dois tipos de correntes de pensamento político judeu: uma que provoca a imigração dos judeus para palestina, liderada por Sharon que intenta utilizar ainda o anti-semitismo na Europa e Rússia, e outra contrária à política de Sharon, que pede ao governo que modifique sua política para que todos os judeus do mundo não sejam ameaçados.

O fato de estimular grupos na América Latina de outras religiões para converter-se em judeus e logo emigrar para Palestina, e de aceitar a imigração do povo judeu de Flachmura na Etiópia – que nunca foi permitida sua imigração pelo fato de serem pobres e doentes -, demonstra a crise que vive hoje o sionismo, pois os judeus europeus não querem imigrar para Palestina, nem os russos, nem os norte-americanos! Então é melhor procurar os africanos pobres e desnutridos para substituir a crise.

O que nos resta dizer é que, nesta situação delicada e difícil que sofre o sionismo, e apesar dos intentos diplomáticos para retomar as negociações pelo avanço do processo de paz, nada garante a estabilidade dos judeus nos territórios ocupados e seu futuro. E, de uma forma ou de outra, esta situação é um dos resultados das vitórias da Intifada.