A Convergência Socialista nos anos 80: a construção na classe operária

A década de 1980 significou um processo de amadurecimento para a Convergência Socialista. Alguns fatos marcaram a trajetória da organização. A construção do PT e a luta contra a política oportunista e conciliadora de sua direção. A participação na reorganização do Movimento Estudantil, da reconstrução das suas entidades, a UNE, UEEs, UBES e UMES no movimento secundarista. A luta contra a ditadura, que teve o seu auge na luta por eleições diretas em fins de 1983 e começo de 1984.

No entanto, o que mais marcou a vida da organização neste período e a influenciou até os dias de hoje, foi sua intervenção nas lutas do movimento operário e o processo de sindicalização e proletarização vivido durante estes anos.

Uma orientação voltada para a classe operária
A preocupação em orientar a organização para a classe operária foi permanente, mesmo quando sua tática era a construção no movimento estudantil. Nisso seguíamos a tradição de nossa corrente internacional desde sua fundação, quando Nahuel Moreno e um pequeno grupo de jovens, rejeitando o “trotskismo dos cafés” de Buenos Aires, foram viver em Villa Pobladora, um bairro operário da cidade de Avellaneda, na periferia da capital, para construir uma organização operária revolucionária.

A Liga Operária, organização fundadora da corrente trotskista morenista no Brasil, procurou ligar-se desde o princípio ao Movimento Operário, elegendo como prioridade a região do ABC paulista. Não foi casual que as primeiras prisões do grupo, em 1977, se devessem a uma panfletagem de um boletim clandestino, o Faísca, na véspera do 1º de Maio. Deste processo, a Liga trouxe para suas fileiras um dos operários presos, o jovem metalúrgico José Maria de Almeida, o Zé Maria.

Já como Convergência Socialista, a organização participou ativamente nas greves de 1978-79 e 1980, e teve um papel decisivo em Santo André, onde Zé Maria foi um dos principais dirigentes, e São Caetano. Na greve de 1980, a CS sofreu a repressão junto com os dirigentes sindicais do ABC. Zé Maria também foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional junto com Lula e vários dirigentes operários.

A CS também teve um papel dirigente na greve dos metalúrgicos de São José dos Campos, onde a categoria organizou sua mobilização passando por cima do então presidente do sindicato, conhecido como Zezinho “Pelego”. A greve foi dirigida por um comando que tinha à frente dois militantes da CS: Ernesto Gradella e Eduardo Tambaú, na época trabalhadores da Fiel. Nesta greve, surgiu como ativista o trabalhador da GM, Antonio Ferreira, o Toninho, depois presidente do Sindicato de Metalúrgicos de São José.

Em 1983, três anos depois da fundação do PT, depois de um amplo processo de reorganização sindical, nascia a Central Única dos Trabalhadores, a primeira grande organização sindical de massas do país. A CUT foi muito importante na década de 80.

Sua fundação foi o produto combinado das lutas do movimento operário em 1978-79-80, do surgimento de milhares de ativistas que se agrupavam nos sindicatos e construíam oposições sindicais contra os pelegos. A este processo se somaram direções sindicais burocráticas, à esquerda dos velhos pelegos. Estes dirigentes se autodenominavam “autênticos” e depois vieram a constituir a Articulação Sindical. O objetivo desta última corrente era controlar e dirigir a nova central sindical, no que obtiveram total sucesso.

No entanto, o processo de organização pela base impunha certas características à CUT. Desde o princípio, a central agrupou o melhor do ativismo sindical do país, que se reunia em congressos que chegavam a mais de 5 mil delegados. Era uma central democrática e classista, apesar de sua direção. Sua fundação estimulou a organização de novas oposições sindicais contra os pelegos e a organização de novos sindicatos.

A Convergência Socialista decidiu participar com todas suas forças deste processo. Por isso, a organização, que nos dois anos anteriores centrava seu trabalho no movimento estudantil e assumia o nome de Alicerce da Juventude Socialista, votou, em seu congresso de 1984, voltar ao movimento sindical.

A partir de uma orientação da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), a CS colocou o centro do seu trabalho na organização das oposições sindicais cutistas. Foi essa orientação que permitiu à CS ajudar a organizar e a orientar oposições para derrotar os pelegos e conquistar a direção de grandes sindicatos

A primeira grande vitória da organização foi impulsionar e dirigir a chapa de oposição que venceu as eleições para o sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem em 1984. Em pouco tempo, o sindicato começou a organizar oposições sindicais nos sindicatos do interior e aliar-se com sindicatos independentes dos velhos pelegos. Assim passou a ser uma referência para os metalúrgicos de vários sindicatos de Minas Gerais, como Itaúna, Divinópolis, Vespasiano, Divinópolis, Itajubá e muitos outros.

O sindicato de Belo Horizonte e Contagem dirigiu inúmeras lutas no período, mas sem dúvida seu ponto alto foi a greve com ocupação, da siderúrgica Mannesmann em 1989. Este processo de lutas e organização culminou, em 1989, com a fundação da Federação Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais, a primeira Federação metalúrgica, classista e democrática da CUT.

Outro êxito importante desta política da CS foi a vitória de uma chapa cutista para o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos no princípio de 1985. Esta chapa era uma composição de várias correntes, inclusive a Articulação, para derrotar os pelegos. O impulso da vitória no sindicato deu novo ânimo à categoria que logo em seguida protagonizou a famosa ocupação da GM.

Estes foram os pontos mais avançados desta política de ida à claase operária da CS. No entanto, além dos citados anteriormente, a CS formou ou participou de dezenas de oposições operárias, sendo que muitas delas conquistaram sindicatos: metalúrgicos, borracheiros e químicos do Rio de Janeiro; metalúrgicos de Niterói, químicos de Campinas, construção civil do ABC, metalúrgicos de Jundiaí, petroleiros de Natal, metalúrgicos de São Leopoldo (RS), construção civil de Cubatão, químicos de Recife etc.

Uma opção classista contra a burocratização da CUT
Este processo de orientação para o movimento sindical e, principalmente, operário industrial não foi apenas uma orientação de prioridades, o que já seria muito importante. Ela foi acompanhada pela defesa de um programa e da organização de uma corrente sindical dentro da CUT. Este programa se organizou em torno de três eixos: a democracia operária nos sindicatos e na CUT, a independência da classe frente aos governos e partidos burgueses e a busca da mobilização permanente dos trabalhadores, sendo a negociação uma atividade auxiliar desta e não o contrário.

Estas principais bandeiras, levantadas pela CS desde o primeiro Congresso da CUT, se mostraram justas e necessárias à luta que se deu dentro da central e dos sindicatos, contra a política da Articulação Sindical. As correntes sindicais dirigidas pela CS procuraram dar forma consciente à luta de milhares de ativistas contra o processo de burocratização da entidade, conduzido por sua direção.

Já no Congresso da CUT de 1986, a CS foi uma das principais forças da chapa Democracia e Luta que depois passou a ser o nome da corrente sindical impulsionada por nossa organização neste período.

Mas, a principal batalha política travada por Democracia e Luta se deu no Congresso de 1988, onde junto com a CUT pela Base e outras correntes, lutou contra as propostas de mudança no estatuto que assentavam as bases para a burocratização da CUT. Em ambos os congressos, Democracia e Luta constituiu chapas que conseguiram votos de mais de 10% dos delegados e representação na direção executiva.

Toda esta batalha foi o a base para um programa de luta contra a política da Articulação Sindical na década de 1990 (negociação permanente das conquistas dos trabalhadores, banco de horas, sindicato-cidadão). E, principalmente, foi o que armou o combate contra a postura da direção da CUT, a partir da eleição de Lula em 2002, de levar a Central a integrar-se ao governo como uma repartição pública e não uma organização independente de trabalhadores.

Trinta anos depois das grandes greves de 78-79-80, é possível ver que a participação do PSTU na construção da Conlutas e no atual processo de construção de uma central sindical classista e combativa, contou com uma importante contribuição estratégica do programa, da política e da ação da Convergência Socialista no movimento operário e sindical do país nas décadas anteriores.