A classe trabalhadora e a esquerda ante o colapso social e ecológico do capitalismo

 

É preciso matar o imperialismo para que o gênero humano possa continuar subsistindo[1], LEÓN TROTSKY.

Em sua agonia, o capitalismo ameaça levar a humanidade ao túmulo junto com ele”[2]NAHUEL MORENO.

Juana Ceballos

Há  100 anos da fundação da Internacional Comunista de Lênin e Trotsky, a propósito da possibilidade do “colapso socioecológico” capitalista, fazemos um chamado público revolucionário urgente aos trabalhadores de pé, organizados ou não, industriais e dos serviços, aposentados e desempregados, dos países imperialistas e países semicoloniais. América do Sul, do Centro e do Norte, África, Ásia, Oceania e Europa. Também aos ativistas e dirigentes dos partidos de esquerda; correntes internacionais, centrais operárias, sindicatos, movimentos sociais e associações; cientistas, intelectuais e artistas; mulheres, negros e imigrantes, indígenas e camponeses; estudantes, jovens e crianças; lgtbi’s, presos políticos e párias, pessoas com deficiências e oprimidos em geral.

O capitalismo imperialista decadente nestas primeiras décadas do século XXI é um inferno real para bilhões de animais domésticos e selvagens e para a natureza, assim como para os bilhões de trabalhadores e setores populares e oprimidos. Este sistema está nos levando ao simples e nítido, porém complexo, “colapso civilizatório”.

O aquecimento do clima em aumento e aceleração promete ultrapassar mais de 1.5 e 2 °C  graus em uma espiral catastrófica em relação à era pré-industrial nas próximas décadas [3], as emissões recorde atuais de dióxido de carbono (CO2) em mais de 415 pmm e gases de efeito estufa, como há 3 milhões de anos não se via, estão afetando os ecossistemas, a agricultura, a saúde pública e a vida material humana[4].

Há um processo em curso e hipotético do que alguns cientistas chamam a 6ª extinção massiva de espécies, ao menos 1 milhão em perigo atual e redução de 60% da fauna silvestre nos últimos 40 anos. O aumento do maltrato animal estrutural e a criação industrial intensiva de gado, o desmatamento e alguns agroquímicos nocivos e OMG (Organismos Modificados Geneticamente), com custos negativos para eles e as plantas, para a natureza e para os próprios trabalhadores e consumidores.

A perspectiva desigual e combinada é de esgotamento e finitude do petróleo nas próximas décadas [5], o gás e em uma muito menor medida o carbono contaminante. O boom e declive das commodities, seu impacto nos preços internacionais e as regalias nacionais, as dificuldades de transição e “plano B” para uma nova e inédita matriz energética material “renovável” depois de 2 séculos de capitalismo industrial e sendo mais de 7,6 bilhões de humanos, com perspectiva de crescer 2 ou 3 bilhões mais, depois de 2050 e no final do século.

A ausência de medidas efetivas (Geoengenharia solar…? Tratado de Paris e Protocolo de Kyoto…? Objetivos do Milênio e Desenvolvimento Sustentável…?) e o caráter suicida dos governos capitalistas da ONU e o empresariado mundial para lidar com a mudança climática crônica e multidimensional que já está afetando dezenas de milhares de pessoas e trabalhadores em cidades, zonas costeiras e campos por todos os lados.

Todos estes processos complexos, desiguais e combinados, estão relacionados intimamente com a superprodução capitalista, a exploração irracional da natureza e sua destruição antiecológica para a taxa de lucro e a acumulação do capital como fim em si em toda a sociedade mundial. A crise ambiental e ecológica se conjuga e interrelaciona com uma série de crises cíclicas econômicas de corte comercial e financeiro, locais, regionais e globais (2007-2008, a mais recente e da magnitude da de 29; hipótese de uma nova recessão mundial nos próximos 5 anos ou década), planos de ajuste e privatização dos serviços sociais (água, luz, gás, eletricidade, saúde, moradia, educação, aposentadorias, etc), as guerras imperialistas e capitalistas pelos recursos naturais e sociais.

As sequelas de tudo isto e impacto em nossa classe social são a fratura neocolonial do Norte-Sul; a desnutrição, a fome e a sede; o desemprego, os salários precários, carestia material e desigualdades sociais multimodais; êxodos migratórios colossais e implicações à saúde pública; destruição de territórios e habitats, dívidas hipotecárias e déficit de moradia popular; assassinatos e torturas, violências multimodais e opressões (gênero, sexual, racial, etc); corrupção institucionalizada; etc. Os padecimentos de ansiedade climática, stress laboral e síndrome burnout, transtornos mentais e psicológicos, doenças ocupacionais e físicas, suicídios e dependências, etc, são a amostra desta decadência e barbárie capitalista, aprofundada como nunca antes.

Tudo isto põe em sério risco civilizatório, como nunca antes e de modo inédito, a liberação social integral e necessidades materiais dos trabalhadores e seus aliados populares, a espécie humana e o resto de espécies animais e vegetais do planeta. No empenho de abordar os problemas mais urgentes e imediatos da humanidade, os “materiais” , é necessário que os trabalhadores e suas vanguardas estudem, conheçam e analisem criticamente, toda uma série de teorias socionaturais e evidências empíricas sobre riscos civilizatórios e perigos globais, colapsos socioecológicos, tipos de crises sistêmicas, transições de sistemas complexos e possibilidades de extinção, cenários de gestão de recursos e entropias, crise capitalista e transições pós capitalistas, de autores tais como:

Paul Crutzen, Will Steffen e James Hansen, Mark Lynas; Jared Diamond, Joseph Tainter y Luke Kemp; McAnany Patricia e Norman Yoffee; Pablo Servigne e Raphaël Stevens, Raphael Stevens, Carlos Taibo, Manuel Casal Lodeiro, Renaud Marcovaldo; Antonio Turiel Martínez, Ferran Puig Vilar, Richard Heinberg, Antonio García-Olivares, Dmitry Orlov; Jorgen Randers, Dennis Meadows e William Behrens, Giorgos Kallis;  Emilio Santiago Muiño, Jorge Reichmann, Ramón Fernández Durán, Alberto Matarán e Oscar Carpintero; Ramon Sans Rovira e Elisa Pulla Escobar; Richard Wolff, Michael Roberts, David Harvey, Wolfgang Streeck; Miguel Fuentes y Manuel Baquedano Muñoz; Eric A. Schutz, Michael Löwy, John Foster, Christian Stache, Andreas Malm, Fred Magdoff, Daniel Tanuro, etc.

O imperialismo decadente, às vezes chamado de neoliberalismo, fez aparecer como nunca antes na história, mas semelhante a outros tempos de transição, versões de socialismos utópicos por toda parte (v.g. decrecentistas; ecossocialistas; neoanarquistas, primitivistas, indigenistas e comunitaristas; pós-modernistas, etc) e também não poucos capitalismos utópicos e distópicos (v.g. tecnolátricos verdes neoliberais; colapsistas; ecofascistas; neomalthusianistas e neodarwinistas, escatologias religiosas e apocalípticas, etc). É necessário que o socialismo científico em reconstrução, o marxismo revolucionário dissipe a aparência da realidade, conheça, reabsorva os conteúdos materialistas e critique estas ideologias, mas sobretudo, ofereça uma alternativa de transição anticapitalista à classe operária mundial e aos povos oprimidos.

Todas estas teorias socionaturais interdisciplinares com diferentes vieses e interesses de classe, prognósticos, evidências empíricas e modelos de sociedade, estudam as transições e magnitudes das crises sistemáticas. O marxismo, patrimônio cultural da classe operária mundial, é o pioneiro destes estudos materialistas e o único que está à altura da análise científica e da política revolucionária, ao indagar as causas materiais e subjetivas, desiguais e combinadas, da transição de um modo de produção a outro em determinadas zonas geográficas e sistemas, períodos históricos e épocas, por diferentes fatores concretos, particularidades e generalidades, inclusive mudanças de regimes políticos, quedas de governos e as revoluções na natureza, nas ciências e na sociedade. O papel da luta de classes e as contradições das relações sociais das forças produtivas (natureza, seres humanos e técnica) em todos estes processos como uma totalidade viva e complexa.

O marxismo revolucionário foi a primeira corrente sociopolítica e científica que mostrou uma teoria do colapso do capitalismo verificável baseado no desenvolvimento objetivo das forças produtivas do capital, os limites históricos [6] de suas forças destrutivas e as relações sociais entre as classes atuantes e suas condições materiais de existência.

As crises cíclicas de valorização catastróficas de superprodução e superacumulação, o fator subjetivo social e político crucial das revoluções proletárias e populares com partidos organizados de classe e massas mobilizadas em uma guerra social prolongada (agora estamos chegando às “últimas batalhas”). O trabalho como coveiro ativo do capital e o próprio capital em fator objetivo de crise social (e agora de crise natural: “mudança climática antropogênica”) na luta de classes econômico-política de guerras, crises e revoluções.

Não em vão nos chamaram ‘catastrofistas’[7]  e outros epítetos para assinalar com objetividade a crise estrutural capitalista e seus estragos, mas estamos deixando de ser um demodé e alguns setores de opinião pública começam a falar do colapso civilizatório da civilização industrial contemporânea, do sistema capitalista existente, inclusive a representar e consumir nas artes estes cenários, dados os desastres ambientais e tragédias sociais que diariamente se veem nos meios de comunicação, se vivem e se estudam suas causas.

Mas as derrotas, erros sectários e atrasos programáticos, nossa cegueira ignorante e negacionismo já tem um custo político imenso e também um benefício, segundo a lei do desenvolvimento desigual e combinado, se abrirmos os olhos de uma vez por todas e reconhecermos nossos erros e os corrigirmos, apesar do atraso.

Se os trabalhadores não lutarem com mais afinco e se rebelarem o quanto antes, durante e depois do possível processo de colapso socioecológico do capitalismo, sua crise civilizatória… estamos re-fodidos. O atraso contrarrevolucionário que o stalinismo provocou no século XX e a derrota do proletariado mundial com a restauração capitalista na Europa do Leste, o Sudeste Asiático e o Caribe, tem custos históricos.

Vamos ao aprofundamento (já estamos vivendo) da barbárie contra a classe operária e os setores populares, principalmente nos países semicoloniais, mas também imperialistas. Vamos a holocaustos  massivos de pobres e a possibilidade real da auto-extinção humana ou uma sobrevivência de uns poucos, em sua maioria camadas ricas e seitas ecofascistas. Se o proletariado e sua vanguarda de classe não conquistarem o poder político em algum país nas próximas décadas e neste século, abrindo um novo Outubro vermelho global, é provável que, por razões da crise socioecológica, a civilização humana colapse, se degrade e finalmente se extinga. O triunfo da barbárie.

Esta é a nova magnitude do “perigo iminente” (disse o cientista da NASA, Joseph Hansen) e temos pouco tempo, muito pouco tempo, em termos históricos – contra o relógio, contra os tempos). Cada ano, quinquênio e década que passa sem uma mudança revolucionária, sem uma Revolução de Outubro e o atraso, postergação, conjuração ou desvio desde a segunda pós guerra de numerosos processos revolucionários, é mais e mais catastrófica em termos sociais e ambientais: “Os povos do mundo terão que pagar com novas guerras e revoluções os crimes históricos do reformismo” (Trotsky, A revolução traída, 1936).  Tenhamos absoluta consciência disso e do perigo iminente, preparemo-nos para o que vier, seja o que for. Vivemos tempos em que já não há nada a perder e sim tudo a dar. Nenhum momento na história foi tão necessário e urgente o instrumento partidário (a Internacional) e as organizações de massas combativas (movimentos) pela resistência, a revolução social e as condições materiais de existência básicas. Nossa última oportunidade de vencer.

Nahuel Moreno já advertia em 1982 com literalidade materialista em uma conferência internacional de dirigentes revolucionários de mais de 15 países na cidade de Bogotá, Colômbia: “Em sua agonia, o capitalismo ameaça levar a humanidade à tumba junto com ele. Ou, no melhor dos casos, afundar a grande maioria dela em um abismo sem fundo, de barbárie, miséria e degradação…só é possível formular os mais sombrios prognósticos [objetivos], se a revolução socialista mundial não conseguir reverter este processo [destrutivo]” (Ver, Tese de Fundação da LIT-QI, #11982)[8].

Em que pese a urgência e impaciência sensata, não há que deixar-se levar pelo niilismo e derrotismo, o pessimismo e irracionalismo, tão característico das frações pequeno burguesas e burguesas degeneradas. Sobretudo, sucumbir e capitular à cegueira e atraso ideológico das direções tradicionais e emergentes do movimento de massas e da esquerda.

Seu anticientificismo idealista e desprezo pela teoria revolucionária, eleitoralismo e imediatismo sindical, seu programa mínimo democratizante e de ação em curto prazo, nos leva a derrotas estratégicas. Estas direções traidoras, negacionistas e ignorantes (tanto reformistas como centristas; tanto pequeno burguesas como operárias[9]) constituem um sério obstáculo na luta contra os governos do capital e da burguesia enquanto classe, a luta pelo poder operário-popular e a preparação para enfrentar o colapso capitalista em um período de transição tortuoso e imprevisível.

Seguindo León Trotsky, hoje é mais que necessário e urgente uma revolução antiburocrática no interior das organizações sociais e políticas dos trabalhadores. Um programa operário revolucionário de transição atualizado e de combate, uma nova internacional proletária de partidos antissistema e movimentos – como a III Internacional fundada há um século, em 1919 – para a revolução socialista mundial no século XXI e o enfrentamento do colapso socioecológico ( ou melhor, sistêmico) do imperialismo, a fase superior e final do capitalismo. A era viva das crises, guerras e revoluções. Hoje mais do que nunca é verdadeiro o postulado em sua magnitude extrema de que “a crise da humanidade se reduz à crise de sua direção revolucionária” (León Trotsky, Programa de transição, 1938).

As Primaveras Árabes, as greves trabalhistas e as greves climáticas da juventude, as mobilizações massivas e resistências aos planos de ajuste nos quatro continentes, as rebeliões às ditaduras e as mais de 10 revoluções neste século (a mais recente: Sudão e Argélia), muitas delas armadas. As quedas de governos, gabinetes ministeriais e renúncias de presidentes e tensões (Porto Rico, Coréia do Sul e Hong Kong), marcam o caminho de luta ante um inimigo descomunal que vem ganhando e infligindo duros golpes. Reina um caos sob os céus, a situação é excelente! Aproveitemos as poucas ou muitas oportunidades que nos restam.

Só a revolução socialista integral dos trabalhadores e seus aliados populares, a conquista do poder urgente, a instauração de novos governos revolucionários com organizações democráticas de duplo poder de massas e economias planificadas ecológicas, poderão salvar-nos. Isto é, uma série de insurreições de massas dirigidas por partidos socialistas de combate, rememorando o gênio político de Lênin e a revolução permanente de Trotsky, podem livrar-nos do aprofundamento da barbárie existente – ao que parece, já estamos nas fases iniciais dela ou desenvolvida desde o século XX , veja entre outras, a hecatombe da Síria, Palestina, Iraque e Afeganistão; desastres ambientais e sociais, etc. Um panorama qualitativo muito mais dantesco que o imaginado por Rosa Luxemburgo durante a primeira guerra mundial e sua analogia com o colapso decadente do Império Romano. Muito mais trágico que o que tiveram que viver Lenin e Trotsky, e os revolucionários da segunda pós guerra com as bombas nucleares, as invasões imperialistas e as guerras revolucionárias, muito mais trágico que o de Marx e Engels com a miséria fabril do século XIX.

É provável que o agravamento da crise civilizatória capitalista, traga consigo um duplo efeito. Por um lado, o efeito positivo do colapso progressivo do sistema dos últimos 500 anos pelas lutas de resistência e revolucionárias dos povos e o proletariado favorecido com o fator desestabilizador sócio-ecológico. Os operários e oprimidos não tem nada a perder com o fim e desmoronamento deste pútrido sistema e devem contribuir a sepultá-lo o mais rápido possível, aproveitando os fatores objetivos de crises sócionaturais, porque o capitalismo não morrerá de morte natural automática, como acreditam os reacionários colapsistas. Por outro lado, o efeito negativo do contragolpe regressivo e brutal da contrarrevolução. O severo deterioramento, escassez e enfraquecimento das forças produtivas, da natureza, do trabalho vivo e da técnica, diria Marx. Toda uma luta de classes viva e uma infraestrutura econômica e produção material em transição e bifurcação.

O capitalismo moribundo nos lega uma devastação do planeta, com uma classe que se nega a perecer e ameaça com agudizar a crise climática e social de maneira barbárica, a todo custo, com tíbias reformas para conjurar o monstro que criou, como um aprendiz de bruxo, ao estilo de Goethe. Para parafrasear um famoso guerrilheiro proletário antifranquista, a burguesia pode deixar em pedaços regiões consideráveis e a terra inteira antes de abandonar o cenário da história, mas os operários não devemos ter medo das ruínas porque levamos um mundo novo em nossos corações e somos construtores inatos e melhores. Esse mundo socialista está crescendo a cada instante, na casca do velho mundo. Todo um parto civilizatório, que pode ser abortado ou não. O capitalismo pode perecer e dar origem a uma ordem social nova de múltiplas contradições ou simplesmente ser o último modo de produção da história humana, ambas as possibilidades históricas estão abertas.

Salvar nosso habitat, o planeta, e nossas vidas materiais. Esta é a real rota estratégica de nosso século e dos trabalhadores, o socialismo, um parto contingente doloroso em que pode nascer uma vida, deformada ou não, ou morrer a criança e sua mãe e pai. A luta por uma nova sociedade mundial sustentável sem capitalistas no poder é nosso caminho. Parafraseando Moreno, podemos vencer, não há lei determinista da história, nem deus, nem fator climático-energético nem científico, nem político que diga que não possamos triunfar. As leis objetivas da natureza e da sociedade as usaremos em nosso benefício na intensificação da luta de classes por muito adversas que sejam as condições materiais de existência, só o derrotismo colapsista nos condena de antemão, como o imperialismo.

Não temos fé religiosa na classe operária nem confiança metafísica na enteléquia da revolução, mas sim confiança formativa desta, criticidade e autocriticidade (seus erros organizativos, etc) vontade de mudança em que, após uma série complexa e dialética das derrotas e vitórias, nossa classe e sua vanguarda revolucionária em construção se recupere e não seja tão limitada e tão estúpida  para não despojar-se e sepultar algumas classes dominantes minoritárias parasitárias (entre 1% e 30% da população grande burguesa, médio burguesa e pequeno burguesa de estratos superiores) e criar uma nova sociedade em transição, ao viver em suas carnes os efeitos devastadores do capitalismo moribundo e estar em suas maxilas…será um prazer fazer os colapsólogos e capitalistas tragarem todas suas fezes, tanto de direita…como de esquerda.

Para eles é mais fácil pensar no fim do mundo, que no colapso do capitalismo, diriam Fredric Jameson e Joel Kovel, e também é mais fácil conseguir uma “comunidade resiliente” em uma transição facilista (i.e. socialista utópica) de seus modelos pós capitalistas, após o citado colapso penitente e sanador, que seria uma tragédia social de proporções históricas. Suas saídas são francamente utópicas e “realistas” contrarrevolucionárias, sem perder de vista o êxtase autoritário pelas distopias e seu ranço eco-fascista pelo colapso (v.g. Miguel Fuentes, entre outros): “Sua auto-alienação alcançou um grau que lhe permite viver sua própria destruição como um gozo estético de primeira ordem. Este é o esteticismo da política que o fascismo propunha”. (W. Benjamin, A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, 1936).

Mesmo que hipoteticamente estivéssemos já, desde os anos 90 (ou antes, desde os anos 70) e nos próximos 15,30 ou 50 e 80 anos em ponto de não retorno e irreversível em termos de degradação ambiental e social em 2015 e 2017, após a segunda metade do século XXI ou outra data pessimista, otimista ou realista, a qual varia segundo os prognósticos científicos e políticos materialistas, como as profecias religiosas e predições pseudocientíficas idealistas e supersticiosas populares.

Assim fosse lamentavelmente inevitável o colapso sócio ecológico (ou sócio natural) sem nenhuma revolução triunfante e por uma série de derrotas atrás de si, uma forma em que o fim do capitalismo se conjugara com o fim da civilização. Ainda nesse cenário desfavorável hipotético, o pior que possamos imaginar e possível, com o dobro de força e convicção haveria que lutar pelo imperativo da sobrevivência material dos explorados e oprimidos, para enfrentar a contrarrevolução imperialista e fascista. Colapsar melhor, mal inevitável menor, lutar pela minimização dos danos à nossa classe, pois nem tudo está perdido e a luta de classes não acaba.

A revolução permanente e o método do programa de transição não deixam de ter vigência em um cenário pré-colapso, colapso do capitalismo e transição pós-colapso, a menos que triunfe a extinção humana e a crise sócio-ecológica degrade a vida humana, tão somente devem atualizar-se e adequar-se ao contexto da luta de classes final e aos perigos civilizatórios sócio-ecológicos do imperialismo senil. A ditadura transicional revolucionária do proletariado, seu terror vermelho, é mais necessária do que nunca. O armamento militar dos trabalhadores e as insurreições sociais armadas, a economia planificada radical de todos os aspectos da vida social (e.g. natalidade, etc) e sustentável com planos de choque e de emergência. A internacional de partidos centralizados de trabalhadores e movimentos, a democracia operária de novos estados socialistas federados entre si. A guerra civil a morte, operária e popular, contra os capitalistas e as seitas eco-fascistas de direita e esquerda são a única salvação realista terrenal e não metafísica que resta a nós, mortais. Salvo o poder, tudo é ilusão.

Após um cenário de lutas contingentes decisivas, oxalá triunfantes na estratégia, a aposta seria construir e arar em uma nova base ecológico- econômica degradada totalmente inédita, contrário ao que acreditavam nossos mestres pensadores socialistas clássicos do séculos XIX e XX, para a construção contingente mas necessária de uma sociedade socialista e suas forças produtivas minguadas em um cenário de escassez (hipótese materialista) e talvez para dar as últimas batalhas operárias e populares antes que tudo pereça ou no menos pior dos casos, para que tudo renasça (por vir). Lutar, lutar e lutar com raiva até à morte. Vontade proletária de viver, instinto de classe de conservação, sobrevivência a todo custo na terra e se for possível em outro planeta, quando deixarem de existir as condições de habitabilidade humana e possamos preservar e melhorar nossos nichos tecnológicos. Um ato de dignidade humana dos de baixo ao menos uma franja massiva não lumpenizada dela ante o cenário da crise civilizatória capitalista a todo nível.

Como diria nosso Gabo, em uma suprema atitude humanista e antiniilista, ante a espada de Demócles do perigo termonuclear de seu curto século e rememorando seu mestre Faulkner: “Me recuso a aceitar o fim do homem…!” (Cem Anos de Solidão, Discurso Nobel ante a Academia Sueca, 1982).

Pois bem, trabalhadores de todo o mundo e revolucionários, se a grande família humana desejar ter uma segunda oportunidade sobre a Terra, afrontemos então o perigo civilizatório de nosso século XXI, recusando-nos a perecer, isto é, a sermos derrotados não pela “natureza” e sim pela frente contrarrevolucionária da burguesia moribunda e da pequena burguesia niilista na luta de classes em andamento e final.

Fonte: https://blogsocialist21.wordpress.com/2019/08/01/llamado-urgente-la-clase-trabajadora-y-la-izquierda-ante-el-colapso-social-y-ecologico-del-capitalismo/?fbclid=IwAR1IcigT6ihHLxJxE-VhOhdnjKImM42J1eq13n9WlfAoZpWa5ifVjliemmM

Notas

[1] Trotsky, L. Os cinco primeiros anos da Internacional Comunista, Edicions Internationals Sedovs, 1921/2017, pág. 162.

[2] Moreno, N. Tese de Fundação da Liga Internacional dos Trabalhadores, #1, 1982.

[3] Wilke, Carolyn. CO2 emissions are on track to take us beyond 1.5. degrees of global warming. Disponível em Science News: https://www.sciencenews.org/article/co2-emissions-global-warming?fbclid=IwAR2FEak3juSfrjL8jFcE-WVM4ctk20pScOfoeSIc1zW22kjdtx3mc0Uop18

[4] Martins, Alejandra. Que consequencias há que tenhamos superado o recorde de CO2 em tres milhões de anos. Disponível em BBC News Mundo:  https://www.bbc.com/mundo/noticias-48283274

[5] Iturbe, Alejandro. O fim do petróleo? Disponível em Marxismo Vivo – Revista Teórica da LIT: http://marxismovivo.org/wp-content/uploads/2018/12/Primera-Epoca/ESP/MV12/mv12/mv12esp.pdf

[6]  Algumas das contradições sistêmicas do capital que gerariam sua crise estrutural segundo o método marxista são: a lei da queda tendencial da taxa de lucro, a lei da concentração-acumulação do capital e a miséria relativa crescente da classe operária e das massas; a tendência à socialização da produção (o trabalho social) frente à apropriação da propriedade privada; o peso superior das forças destrutivas sobre as forças produtivas em uma fase desenvolvida do capital (v.g. capital financeiro); as amarras do desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais de produção; o aumento desigual e combinado do nível de consciência de classe e organização social e política do proletariado frente às forças do capital; etc.

Em 17 contradições do capitalismo e fim do capitalismo (2014, Cap. III), a partir de uma teoria econômica marxista do valor-trabalho e financeirista (“capitalcêntrico”), David Harvey nega ou pelo menos é cético a uma hipótese colapsista ou catastrofista do capital por fatores ambientais pelas oportunidades de investimento, adequação tecnológica e acumulação do capital em meio a desastres, talvez por sua postura como geógrafo e seu reformismo de esquerda.

Não obstante o autor sim assinala as “contradições perigosas” do crescimento exponencial do capital em relação à espoliação da natureza e os limites acumulativos (por desapropriação), cruciais para uma transição anticapitalista. Sobre as relações de crise entre capital – natureza, nos últimos vinte anos, os marxistas tem apresentado: a quebra metabólica da sociedade e da natureza na produção imanente capitalista; a contradição entre as condições de produção material e as condições de reprodução ecológica; a ecologia do capital e os limites da biosfera; a união da crise social e a crise ecológica a partir de um vetor de classe e dos valores de uso e de mudança, etc.

[7] Em Reforma e revolução (1899), capítulo IV da parte II (às vezes aparece como epílogo), Rosa Luxemburgo, já falava sobre a teoria marxista ortodoxa sobre a crise capitalista (mais além de seu caráter “cíclico” e “plural”) nos termos do “colapso do capitalismo” (Der Zusammenbruch), traduzida erroneamente para o espanhol como afundamento.

Em A doutrina socialista (1899), Capítulo II, a), o primeiro Karl Kautsky polemiza com o revisionista Bernstein ao falar da teoria marxista da derrocada do capital, unindo os fatores objetivos e subjetivos, contra a tosca crítica sobre a suposta teoria objetivista-fatalista da necessidade do socialismo por causas econômicas de Marx e Engels.

Manifesto de Zimmerwald (1915), escrito por Trotsky em nome de socialistas antiimperialistas de onze países, também falou do “colapso da civilização” em plena carnificina da Primeira Guerra Mundial.

Os debates energéticos, ecológicos contemporâneos e sistêmicos, vem enriquecer a teoria materialista sobre a crise estrutural (o colapso) do capital como sistema e a transição socialista, a teoria da revolução permanente e o comunismo. É necessário que o marxismo ortodoxo, isto é, o materialismo histórico dialético, atualize estes dois polos sociedade – natureza de uma mesma realidade processual e no mesmo nível critique tanto o colapsismo pequeno burguês e burguês como o revisionismo anticatastrofista (Rolando Astarita, etc). É hora de abordar seriamente a economia, a política e as ciências (naturais e sociais) como um todo complexo.

[8] Mahecha, Eduardo (2019). Nahuel Moreno sobre a ecologia e a crise do capitalismo mundial (2019). Disponível em Blog Socialist XXI: https://blogsocialist21.wordpress.com/2019/04/21/nahuel-moreno-sobre-la-ecologia-y-la-crisis-del-capitalismo-mundial/

[9]  Fatos recentes da “crise da esquerda” mundial: divisão fracional interna do Partido Obrero (PO) da Argentina pelo regime interno. O eleitoralismo da FIT (em especial, do PTS), a adaptação ao regime democrático burgues e modo de lutar contra o ajuste de Macri, 2019; a ruptura fracional do Committee for International Workers (CIW) na Europa por questões políticas e metodológicas, 2019; dissolução da International Socialist Organization (ISO) nos USA, 2019, por vícios oportunistas frente ao Partido Democrata (corrente DAS, Ocasio-Sanders, setores oprimidos) e atentados à moral revolucionária (violação sexual encoberta pela direção, etc); ruptura 2016 do PSTU Brasil, onde um setor gira para o oportunismo do PSOL; expulsão do Secretariado Unificado europeu (FI, ecossocialista) a um setor centrista que está contra a política dos partidos amplos e pela ditadura do proletariado, saída do MST argentino do SU e criação da LIS, 2018-2019; débâcle eleitoral do Podemos, Syriza e o NPA, crise do neorreformismo e curto auge do mesmo nos países; ascenso de Trump e da nova direita, crise e degeneração do nacionalismo burguês na Venezuela (ditadura madurista), Nicarágua (o rato Ortega), Honduras, etc; ruptura do partido FARC Colômbia, integração ao regime e fragmentação do stalinismo mundial, em especial, na Índia e Nepal, etc.

Tradução: Lilian Enck