A classe operária chinesa vai à luta

Rebelião em Longnan, em 17 de outubro
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A crise mundial que atingiu os principais países imperialistas do planeta no primeiro semestre de 2008 chegou à China e alcança níveis inesperados. A previsão, no início de outubro, era de que a atividade econômica seria reduzida gradualmente, mas sempre com índices positivos de crescimento, embora menores que em anos anteriores.

Porém os meses de novembro pegaram economistas e autoridades do governo de “calças curtas”. Conforme os números divulgados, os valores anuais das exportações apresentaram um valor negativo de 2,2%, de novembro de 2007 a novembro de 2008, e de 2,8% em dezembro. São as maiores quedas em dez anos, mostrando que uma recessão na China está bem perto de acontecer.

Além disso, os investimentos estrangeiros caíram 36,5% no mesmo período. Isto é, dois dos principais pilares do crescimento econômico chinês foram seriamente afetados. O outro pilar é a superexploração da classe operária, que está levando a muitas lutas de resistência.

A fábrica do mundo fecha suas portas
As regiões da Foz do Rio das Pérolas e do Rio Amarelo são conhecidas como a “fábrica do mundo”. É de lá que saem os produtos baratos destinados à exportação, que enchem as prateleiras das lojas em todo o mundo, como brinquedos, artigos domésticos, relógios, tênis, roupas etc. Milhares de fábricas médias e pequenas amontoam-se ao longo dos rios, da região costeira até vários quilômetros no interior. Estas fábricas empregam mão-de-obra intensiva, favorecidas pelos baixos salários e praticamente nenhuma proteção social aos trabalhadores, a maioria deles composta por migrantes sem qualificação profissional.

Estima-se que 5 milhões de camponeses provenientes apenas de Sichuan, estado atingido pelo terremoto no início do ano, estejam vivendo em Guangdong, estado onde o Rio das Pérolas alcança o mar, no sudeste do país. No primeiro semestre de 2008, 67 mil fábricas fecharam suas portas, devido ao aumento dos custos de produção, segundo estatísticas oficiais. Com a queda brutal das exportações, milhares de fábricas estão encerrando suas atividades no segundo semestre.

Na região do Rio Amarelo, no estado de Shandong, havia mais de 680 mil desempregados nos primeiros nove meses do ano, a maioria composta por migrantes. Este número vem aumentando nos últimos três meses.

Estas fábricas tem, em grande parte, capital proveniente de Hong Kong e Taiwan, e encontraram uma forma bastante peculiar de “driblar” a crise: seus proprietários pulam o muro da fábrica e fogem para Hong Kong, onde há um estatuto jurídico autônomo que impede que sejam processados. Isto ocorreu, por exemplo, em 1° de novembro, na fábrica de tênis Weixu, quando o proprietário de Taiwan fugiu e deixou 2 mil operários desempregados e sem pagamento.

Na cidade industrial de Dongguan, uma fábrica de brinquedos de proprietários de Hong Kong – a Smart Union – fechou sem aviso, deixando 7 mil desempregados.

Esta situação tem se repetido por todo o litoral do país. Na cidade de Jiaxing, entre Shangai e Hangzhou, 45 patrões fugiram este ano, deixando dívidas de mais de US$ 1,6 milhão para 3.744 operários. No estado de Zhejiang, 277 proprietários fugiram nos nove primeiros meses de 2008, deixando de pagar US$ 7,3 milhões em salários. Este valor corresponde a aproximadamente 48 mil salários não pagos, a uma média salarial de US$ 150 mensais.

A reação dos trabalhadores e da população
Esta situação tem levado a protestos diários e violentos por parte dos trabalhadores. No caso da Weixu, os empregados ficaram sem receber dois meses de salários e tomaram as ruas. A polícia antimotim agiu deixando pelo menos sete presos e seis feridos.

Em 25 de novembro, a falta de pagamento de indenização a 2 mil trabalhadores demitidos da mais conhecida fábrica de brinquedos de Hong Kong, a Kader Group, situada em Dongguan, causou um protesto. Os operários destruíram uma Van, quatro carros da polícia e equipamentos do escritório da fábrica.

Rebelião dos trabalhadores da Kader Group, em 25 de novembro, em Dongguan

Em função disso, o Ministro do Trabalho e da Seguridade Social da China, Yin Weimin, declarou em 20 de novembro que a situação de emprego no país era séria e que a instabilidade social, com as manifestações operárias constantes, era a principal preocupação do governo. O reconhecimento das manifestações decorrentes de problemas relacionados ao trabalho é inédito na ditadura chinesa, que sempre relacionou as lutas ocorridas no país a ações subversivas.

Mas não são apenas as lutas por direitos trabalhistas que explodem na China. Pequenas faíscas são capazes de acender um barril de pólvora. No dia 17 de outubro, um protesto de 30 pessoas contra a demolição de suas casas, danificadas pelo terremoto que atingiu o estado de Gansu, transformou-se numa rebelião de mais de 10 mil pessoas em Longnan, capital do estado. Carros da polícia foram queimados e prédios do governo e do Partido Comunista da China foram apedrejados em choques que duraram dois dias e resultaram na prisão de mais de cem pessoas.

Rebelião em Longnan, em 17 de outubroO motivo da rebelião foi a notícia de que a sede administrativa do Estado seria transferida para outra cidade. Segundo Wang Jinli, uma camponesa de 50 anos, “hoje as pessoas podem sobreviver coletando lixo, mas se eles transferirem a capital, onde encontraremos lixo? Nós comemos arroz e farinha agora, mas se o centro mudar, nós todos estaremos comendo milho. Será um retrocesso de 20 anos na economia”. Possivelmente, esta seja a melhor definição para a atual crise econômica.

Outra rebelião, da qual tomaram parte 30 mil pessoas, ocorreu em Weng’an, no estado de Guizhou. A população protestava contra a autenticidade de um relatório policial, que considerou a morte de uma estudante de 17 anos encontrada afogada num rio como suicídio. Porém, segundo familiares, ela teria sido afogada por parentes de policiais. A multidão avançou sobre a delegacia de polícia, com cartazes onde se podia ler: “Devolvam a justiça ao povo”. A situação só foi controlada pela ação da tropa de choque, que utilizou gás lacrimogêneo para dispersar a multidão.

No fim de outubro, ocorreu outro confronto que mereceu destaque: Em Shenzen, no sul da China, milhares de pessoas entraram em choque com a polícia devido à morte de um motociclista num acidente, após ter sido atingido por um walkie-talkie arremessado de um posto policial.

A resposta da ditadura chinesa
No ultimo mês, o presidente da China, Hu Jintao, advertiu que a crise mundial ameaçava corroer três décadas de crescimento. “A China está sob uma tensão crescente devido a sua grande população, problemas ambientais e recursos naturais limitados, e precisa acelerar as reformas econômicas para alcançar um desenvolvimento sustentável”, disse. Isto significa o aprofundamento ainda maior da privatização a qual o país é submetido desde 1978.

A primeira medida anunciada é a permissão para as famílias camponesas negociarem seus títulos de direito de uso da terra. Embora não detenham propriedade privada da terra, os títulos vitalícios permitem que as famílias camponesas possam cultivá-la sem perigo de perdê-la. Com a permissão de venda dos títulos e a pressão da crise econômica, ocorrerá a concentração da terra nas mãos de poucos latifundiários e a expulsão de milhões de camponeses.

Esta situação será agravada pela profundidade da crise, pois já se acredita que o pacote de US$ 586 bilhões em dois anos, anunciado pelo governo para investimentos na infra-estrutura, não será suficiente para recuperar as perdas causadas pela queda das exportações. Afinal, para uma população de 1,3 bilhão, este pacote significa cerca de R$ 500 por habitante, um valor muito baixo para resolver os graves problemas sociais do país.

A política do governo não é diferente nas cidades. Em 17 de novembro, o ministro Yin Weimin solicitou que os governos locais adiassem o aumento do salário mínimo planejado anteriormente, permitissem a adoção da flexibilização de horas de trabalho e salário pelas empresas de serviço e reduzissem as pensões pagas pela Seguridade Social. Para tentar controlar os protestos e dividir os trabalhadores, o ministro orienta os governos locais a permitir que pelo menos 50% dos migrantes possam ser registrados como desempregados, se provarem que trabalharam por mais de seis meses na cidade e, assim, receberem salário-desemprego.

Até então, os migrantes são considerados ilegais, por não terem visto de residência nas cidades. Mesmo assim, o salário-desemprego é muito menor que o próprio salário mínimo e é incapaz de sustentar um trabalhador desempregado. Já nas estatais, onde está o setor mais organizado e com mais tradição da classe operária, a ordem é reduzir os salários em vez de demitir.

A Federação Sindical da China, braço do Partido Comunista da China (PCCh) e única representação sindical legal dos trabalhadores, diz que o desenvolvimento econômico é sua prioridade e que patrões e trabalhadores devem trabalhar juntos para alcançar este objetivo. Em 28 de outubro, a Federação Sindical Municipal de Shenzhen divulgou um comunicado afirmando que o apoio e incentivo ao desenvolvimento das empresas é uma pré-condição para a defesa dos direitos fundamentais dos trabalhadores!

É assim que o PCCh, que em 1949 dirigiu uma revolução social vitoriosa na China, tenta tirar o país da crise: favorecimento aos patrões (que são chamados de empreendedores) e mais ataques às conquistas dos operários e camponeses. Mas isto não é surpresa se considerarmos que desde 2006 passou-se a aceitar a candidatura de patrões para a eleição do Operário Modelo, um evento importante que acontece a cada três anos.