A burguesia define a política econômica e os trabalhadores pagam a conta

Com o aumento da inflação, Lula toma medidas recessivas, que só gerarão mais desemprego e aumentarão a carga da crise sobre os trabalhadoresAs emissoras de televisão vêm exibindo, em horário nobre, uma propaganda oficial na qual se relacionam as medidas tomadas pelo governo Lula para mudar o Brasil com as obras que precisam ser feitas numa casa sem que os moradores saiam. É explicada a intenção de “reformar” a casa com o mínimo possível de “incômodo” para quem está dentro dela. Mas quem está realmente sendo incomodado com a política adotada por Lula e a quem essa reforma vai afetar?
O desemprego continua subindo e registrou alta de 0,7% entre o final do ano passado e janeiro de 2003. A conclusão é a mesma para os resultados das duas principais pesquisas sobre emprego e desemprego realizadas no país, ainda que os índices apontados sejam diferentes.
Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Seade/Dieese, 18,6% da população economicamente ativa da Grande São Paulo estava desocupada em janeiro, o pior resultado para o mês desde que os institutos iniciaram a PED, em 1985. O tempo médio para que o desempregado consiga uma nova ocupação foi calculado pelo Seade/Dieese em 53 semanas, ou seja, mais de um ano. Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístca (IBGE), aponta um índice de desemprego de 11,2% em janeiro.
Para quem se mantém no mercado de trabalho, a situação também é ruim: durante o ano passado, a renda dos trabalhadores na Grande São Paulo caiu em média 8,8%. A queda foi ainda maior para os assalariados, que tiveram seus rendimentos diminuídos em 9,4% entre dezembro de 2001 e dezembro de 2002. Trocando em miúdos, isso significa que as empresas não só estão demitindo, mas que as contratações são feitas com salários ainda mais rebaixados.
À recessão econômica está se juntando à inflação, que voltou a crescer este ano (chegando a 2,28% em fevereiro, segundo o IGP-M da Fundação Getúlio Vargas) e ameaça sair do controle. Desde o ano passado, já se alertava para o risco das empresas repassarem aos consumidores os aumentos de custos gerados pela alta do dólar e pelos reajustes das tarifas públicas, provocando uma inflação maior que a registrada em 2002.

Saiu FHC, entrou Lula: ficam a política de recessão e juros altos

Esse quadro, que é mais grave nas regiões metropolitanas, mas se reproduz no restante do país, faz parte da herança deixada por FHC e seus oito anos de imposição de medidas econômicas recessivas, como a elevação sistemática da taxa de juros, em nome da manutenção da estabilidade do Real.
Então, não se pode questionar o atual governo, que está no poder a menos de três meses, pelas dificuldades pelas quais passa o país? Errado. Cabe responder a esta pergunta com outra: Qual tem sido a política de Lula desde a posse? A resposta é que Lula decidiu manter os mesmos princípios econômicos que colocaram o país na situação atual. Sob o argumento de segurar a inflação e não “assustar” o capital financeiro internacional, impõe mais desemprego e prejuízos aos trabalhadores.
Estudo do Ipea, instituto econômico subordinado ao Ministério do Planejamento, dirigido atualmente por Guido Mantega, deixa essa política às claras. Baseado num método que relaciona desemprego e controle da inflação, o órgão apontou a “necessidade” de aumentar em um ponto percentual a taxa de desemprego em relação à do final de 2002. Para o Ipea, mais 832 mil trabalhadores deveriam perder o emprego no país para que a inflação pudesse ser controlada.
Apesar do mal-estar causado pela divulgação do estudo e das contestações feitas por membros do governo, o mesmo trabalho do Ipea mostrou que as principais medidas adotadas por Lula nos seus primeiros dois meses de mandato são contrárias à geração de empregos. Segundo o instituto, cada ponto percentual de aumento na taxa de juros (que subiu de 25% para 26%) representa queda de 0,2% na expectativa de crescimento econômico, o que provoca recessão e alta no desemprego. Ainda de acordo com as estimativas do Ipea, cada ponto percentual de aumento do superávit primário ocasiona redução de 1,4% na expectativa de crescimento.
Cabe perguntar a Lula: Como é possível fazer mudanças em favor dos trabalhadores e do povo sobre alicerces podres? Se as estruturas já estão corroídas, sem uma mudança nas bases da política econômica, mais cedo ou mais tarde a casa cai.
Post author Luiza Castelli,
da Redação
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