2º Encontro Nacional do MML reúne mais de mil mulheres trabalhadoras e jovens

Fotos Romerito Pontes e Aline

 As mais diversas categorias em luta pelo país estiveram presentes

 “Construindo um caminho de resistência e luta das mulheres trabalhadoras contra a opressão e a exploração! ”. Foi esse o signo do 2º Encontro Nacional do Movimento Mulheres em Luta (MML) que ocorreu nos dias 21 e 22 de abril, em São Paulo. Foram dois dias intensos de debates políticos e trocas de experiências importantes para fortalecer as mulheres trabalhadoras e jovens.

Um encontro marcado pelas lutas e desafios de vários segmentos, onde se destacou a presença dos setores mais explorados e oprimidos da classe trabalhadora e a necessidade de avançar ainda mais na organização das mulheres para unificar a luta das operárias com as mulheres das ocupações urbanas e do campo, as aposentadas, estudantes, negras, trans, lésbicas, indígenas e todas as categorias sofridas e em luta no país.

Para construir esse encontro, mulheres de diversas regiões, se reuniram, discutiram política, fizeram atividades financeiras com brechós, pedágios, festinhas, tudo para garantir a independência financeira do evento e enviar suas delegações. Dessa forma, fortaleceram um trabalho de base nas suas categorias para seguir com uma luta classista contra o machismo. Lotaram o Sindicato dos Metroviários de São Paulo, local do encontro, e se dividiram nos debates setoriais colocando 19 temas em discussão.

Também foi garantida a participação política das mulheres trabalhadoras no evento com a disponibilização de creche para as crianças daquelas que não tiveram condições de deixar seus filhos em casa para estarem lá.

A abertura no sábado trouxe ao plenário um importante debate de conjuntura sobre a “Crise econômica e o aprofundamento do machismo e toda forma de opressão: os desafios e tarefas do movimento de mulheres frente à situação política do Brasil e do mundo”. A discussão foi colocada pelas companheiras Marcela Azevedo, da Executiva do MML, e Dayse Oliveira, ativista do movimento negro e da educação do Rio de Janeiro. Foram abertas as intervenções e depois as mulheres almoçaram e se organizaram para participar dos Grupos de Trabalho (GTs), onde puderam fazer debates mais específicos sobre diversos temas. No domingo ocorreu uma mesa de discussão sobre trabalho de base e, logo após, a votação das resoluções elaboradas pelos GTs e o anúncio dos nomes das companheiras que compõem agora a nova direção executiva do MML, todos referendados por votação no plenário.

Também muitas apresentações culturais intercalaram o evento com performances poéticas e oficinas temáticas que encerraram o encontro.

Aqui se respira luta: detalhe nas mãos de uma das participantes do 2º Encontro. FOTO: Cláudia Priebe / Sindicato dos Comerciários de Santa Cruz e Região

Lugar de mulher é na luta, com raça e classe!

Não foram poucas as vezes na história que mulheres trabalhadoras buscaram se reunir para enfrentar os problemas econômicos, políticos, sociais e culturais de suas épocas.  A vida das mulheres sob o capitalismo exige essa organização a todo momento e a nova realidade das lutas traz consigo a importância de enfrentar coletivamente os problemas cotidianos nos locais de trabalho e de estudo. O 2º Encontro do MML surgiu dessa necessidade e demonstrou os grandes desafios que há pela frente, mas também o quanto a disposição e a garra das mulheres são ainda maiores.

Impulsionada a partir da necessidade de lutar contra o extermínio das comunidades quilombolas que já vivem sem qualquer direito, Zilmar Pinto Mendes, liderança do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), foi ao 2º Encontro do MML: “Nossa bandeira de luta é território livre e bem-viver, que quer dizer moradia, água, saúde, educação. Mas os governos negam todos os nossos direitos de viver e vem exterminando as comunidades quilombolas”, explica Zilmar, que destaca, ao relatar os ataques dos governos, fazendeiros e jagunços, o protagonismo das mulheres na luta e a importância de se organizar para enfrentar os inimigos do povo quilombola: “Nós, mulheres quilombolas, mulheres indígenas e todas as mulheres trabalhadoras temos que nos unir e ir pra luta defender nosso território e nossos direitos”.

A situação da mulher trabalhadora no Brasil nunca foi fácil. Especialmente das mulheres negras que ocupam os setores mais precários e rotativos do mercado, além de sofrerem a combinação nefasta do machismo com o racismo. Mesmo com uma mulher no poder, os índices oficiais de violência doméstica, de mortes por aborto clandestino, de salário desigual em trabalho igual, de desemprego e de trabalho precário não diminuiu. Tudo isso se aprofundou ainda mais com a crise econômica e a saída dos governos, agora com um homem à frente, tentando colocar a todo custo nas costas da classe trabalhadora uma forma de manter os lucros dos banqueiros e empresários. A situação econômica, política e social do país foi tema central no encontro, não só na mesa de conjuntura e intervenções, mas também nos Grupos de Trabalho.

Participando pela primeira vez, Lucimara de Souza, trabalhadora terceirizada dos correios de Porto Alegre no setor de limpeza, veio com a filha de dois anos interessada em saber como se organizar e levar para as suas colegas uma maneira de enfrentar a situação degradante do setor terceirizado e a violência machista pelo qual passam nos locais de trabalho: “Eu vim pra conhecer o movimento e vou me engajar na luta. Já compartilhei pelo “zap” com as minhas colegas de porto alegre tudo que vi aqui, com a minha família, e vou falar com elas sobre tudo isso quando chegar lá”.

As mulheres indígenas também estiveram presentes no encontro para debater a organização desse setor social no combate à violência que sofrem. Elas vivem sob condições de vida precária e, lamentavelmente, compartilham da mesma perversa combinação de exploração e opressão racista e machista que atinge as mulheres negras. Foram transformadas em “figuras folclóricas” e muitas são exploradas pela indústria do Turismo e da prostituição, sem acesso à saúde, à educação e à justiça.

Laura veio representando os habitantes Guarani do território indígena Morro dos Cavalos, situado no município de Palhoça, há 30 quilômetros de Florianópolis. Para ela é importante dar destaque para a forma como as mulheres da aldeia enfrentam os ataques que sofrem: “Nós viemos aqui mostrar tudo que passamos lá e o quanto as mulheres Guarani são lutadoras, são guerreiras”.

Uma homenagem à companheira Maria Aurora, militante aguerrida do PSTU em Natal, que foi mais uma vítima fatal da transfobia, emocionou as participantes do encontro. Um vídeo com ela e a Marielle, ambas mortas por expressar suas lutas, silenciou o local que em seguida ouviu o brado retumbante de diversas mulheres trans, lésbicas, bissexuais e heterossexuais saindo do fundo do plenário até o palco: “Eu não saí, eu explodi o armário, sou LGBT, sou revolucionário!”

O tema da LGBTfobia e da identidade de gênero esteve fortemente presente nos debates e intervenções. Cris Fenix ressalta seu orgulho de ter participado do encontro: “Eu também participei do 1º Encontro e estou muito feliz de estar aqui no 2º, porque eu sempre achei que na luta das mulheres faltava algo mais e esse algo mais o MML, junto com a CSP-Conlutas está trazendo pra cá. Os debates e resoluções sobre nós, mulheres trans, nos deixa muito mais fortalecidas pra nos organizar e lutar contra tudo e todos que nos atacam”.

As mulheres do setor operário também estiveram em peso debatendo as demandas da categoria e a necessidade de participação ativa junto à luta do setor por condições dignas de trabalho e contra a violência machista e o assédio que sofrem.

10 anos do MML

O Movimento Mulheres em Luta completou 10 anos de existência no final de semana do Encontro. Uma história de muitas lutas e organização das mulheres trabalhadoras na defesa de seus direitos, no combate ao machismo e à exploração.

I Encontro do MML em 2008

Na trajetória do MML entra o governo do PT, num momento difícil, quando grande parte das mulheres trabalhadoras acreditava que esse era um governo seu. Pacientemente as companheiras que compunham o movimento fazia atividades e debates em vários lugares para explicar que não bastava ter uma mulher na presidência, pois Dilma não defendia os interesses das mulheres trabalhadoras. Sempre esteve presente a denúncia dos baixos investimentos nas políticas de combate ao machismo e a insuficiência da rede de assistência às vítimas. O MML também levantou uma forte campanha denunciando o turismo sexual, o assédio, as encoxadas no transporte público, e construiu, junto com diversas categorias, os encontros de mulheres e as secretarias e departamentos de mulheres nos sindicatos.

Nesse tempo, os casos de violência doméstica, estupros e feminicídios aumentaram e também a desigualdade para as mulheres no mercado de trabalho e na sociedade, como reflexo do aprofundamento da crise econômica.

Ainda assim, as mulheres mostraram toda sua garra e firmeza e não titubearam em ir à luta para defender suas vidas, seus empregos, seus direitos. E, seguem exercendo um protagonismo importante na luta do conjunto dos trabalhadores, enfrentando os ataques e reformas do governo Temer, assim como os projetos da bancada conservadora do congresso que atacam direitos democráticos, como os que aumentam a criminalização do aborto.

Um movimento de mulheres cada vez mais forte

Com o cenário econômico e político atual, contribuir para a organização das mulheres da classe trabalhadora para avançarmos na luta por vida, por direitos, contra a ofensiva dos governos e patrões e lutar contra o capitalismo e o machismo é fundamental para toda e qualquer força política de esquerda. Nesse sentido, as organizações presentes no Encontro cumpriram um importante papel ao impulsionar e buscar viabilizar em seus locais de militância a participação dessas trabalhadoras.

O Movimento de Luta Socialista, organização política e sindical do Rio Grande do Sul, foi um dos que estiveram presentes, tendo anunciado recentemente sua entrada no MML, mas já dando resultados importantes no fortalecimento dessa luta. A organização que rompeu com a CUT, há alguns anos e ingressou na CSP-Conlutas, agora se soma à construção da luta classista contra o machismo e a exploração.

Também o Coletivo Angela Davis, do município gaúcho de Rio Grande, esteve presente enegrecendo ainda mais o encontro, contribuindo com os debates e fortalecendo a luta das mulheres negras.

Com a entrada das companheiras, o MML se fortalece e se consolida como uma alternativa de organização para as mulheres trabalhadoras.