25 de Julho: Os aços das novas correntes não nos aprisionam!


Data comemora o Dia Latino Americano e Caribenho de Luta das Mulheres Negras

Há  22 anos, a República Dominicana sediou o I Encontro de Mulheres Negras. O encontro marcou o dia 25 de julho como o dia da mulher negra, latino-americana e caribenha, com o intuito de dar visibilidade à luta das mulheres negras que são as mais marcadas pela opressão capitalista e racista.

Após anos da abolição da escravidão, pouca coisa mudou na vida das mulheres negras. Somos maioria nos trabalhos domésticos, lideramos o ranking de violência doméstica, somos as mais expostas à violência sexual e também à violência policial. Exemplo disso foi o caso de Claudia da Silva Ferreira, auxiliar de limpeza, morta e arrastada por policiais da UPP no Rio de Janeiro em março deste ano.  

Essa é a mesma violência que também faz com que as negras sofram com o encarceramento ou até a morte de seus filhos, irmãos, maridos, quando um jovem negro tem 136% mais chances de ser assassinado que um jovem branco em nosso país.

A carne mais barata do mercado
Nós, negras, já somos maioria entre as mulheres do país, além de sermos 51,1% entre mulheres que chefiam famílias, desde 2009.  No entanto, a renda média de famílias chefiadas por nós, não ultrapassa os R$ 500 mensais.  Não ocasionalmente, em pleno século XXI, quase 70% desses lares não contam com máquina de lavar.

Esses valores se explicam pelo fato de, ainda hoje, ocuparmos postos de trabalho que seguem sendo desvalorizados socialmente como os serviços domésticos, os serviços agora terceirizados de limpeza, os telemarketings e trabalhos temporários sem carteira, e até os postos da educação básica e os cargos mal remunerados na saúde pública.

Esses dados levantados pelo IPEA são ainda mais preocupantes se levarmos em consideração que mais da metade dessas mulheres são mães solteiras que arcam sozinhas com as responsabilidades familiares e que, por sua situação de renda, dependem diretamente dos serviços sociais públicos de saúde, educação, transporte, moradia.

Os números evidenciam que as desigualdades sociais e raciais do país, não só não diminuíram como proporcionalmente vêm aumentando, e somos nós mulheres negras que sentimos na pele o reflexo das mazelas produzidas pelas escolhas políticas dos governos, que seguiram priorizando a elite branca e racista desse país: os patrões e banqueiros.

Guerreiras na vida, vencedoras na luta
Se por um lado são as mulheres negras que mais sofrem com os desinvestimentos nas áreas sociais, as que são 60% das estatísticas da violência sexual, as que sustentam famílias inteiras com baixíssimos salários, somos também verdadeiras guerreiras, e vencedoras em potencial quando organizadas na luta.

A nova situação política aberta em junho passado também chegou para nós! Desde as pequenas batalhas cotidianas pela afirmação de nossa identidade negra, pela liberdade de nossos cabelos crespos, até o nosso protagonismo à frente das centenas de ocupações urbanas na luta pela moradia, ou diretamente enfrentando a guerra interna nas periferias como no exemplo de resistência de Maria de Fátima, mãe do dançarino DG e de Beth, esposa do pedreiro Amarildo, ambos assassinados no Rio de Janeiro pelas UPP´s, mostram a que viemos.

Os aços das novas correntes não nos aprisionam!
É tempo de nos organizar e de questionar o projeto político de dominação que vivemos no presente.  Nem os dois mandatos presidenciais dos governos do PT, tampouco os governos da direita tradicional, foram capazes de governar para nós negras e para o conjunto da classe trabalhadora. E por isso vamos exigir nas ruas e apontar nas eleições, o projeto de raça e classe, da emancipação negra e trabalhadora desse país.

Não nos contentamos com mais trabalhos em situação de precarização; não cabemos mais nas filas pelos atendimentos na saúde, pelas vagas nas creches ou programas habitacionais que nunca tem fim. Questionaremos as bolsas de estudo do péssimo ensino e os programas assistenciais que iludem e não alteram nossas condições de vida; mas também não aceitaremos a violência dos acoites dos patrões, dos governos, da polícia, ou de quem quer que seja.

No dia de hoje, saudamos nossas irmãs haitianas que resistem a uma vergonhosa ocupação militar do governo brasileiro no Haiti, e com a mesma força dessas guerreiras dizemos um basta às senzalas da exploração capitalista e da opressão machista e racista que insistem em aprisionar centenas de milhares de mulheres negras trabalhadoras afrodescendentes, no Brasil, nas América e Caribe, e em toda parte do mundo.

Assim como Luiza Mahin, que liderou a revolta dos Malês; Acotirene, líder das lutas em Palmares lado a lado com Zumbi, ou Preta Anastácia que lutou e resistiu aos abusos dos senhores, as mulheres negras de hoje, também podem se tornar protagonistas de sua história e da construção da sua libertação em uma sociedade livre e socialista!

ACESSE a seção “Fala Cláudia” no site Zé Maria Presidente