“Dia 11 de julho foi continuidade das manifestações de junho”

    O Opinião entrevistou José Maria de Almeida, que falou sobre o novo dia de paralisações convocado para 30 de agosto e polemiza com a imprensa sobre a avaliação dos protestos do dia 11 julho. Confira.

    A grande mídia falou que as  mobilizações do dia 11 foram  um fracasso. Qual é sua opinião  sobre isso? 
     
    Zé Maria – É importante identificar que há uma orientação geral das editorias dos grandes meios de comunicação em tentar desqualificar os protestos do dia 11. Isso 
    ocorre porque a entrada da classe trabalhadora de forma organizada nas lutas causa prejuízo aos patrões, com a paralisação das fábricas no país inteiro. Portanto, isso tem também uma dimensão econômica. Por outro lado, a entrada da classe operária com suas reivindicações coloca em xeque o modelo econômico que vem sendo aplicada pelo governo Dilma e reproduzido nos estados pelos governos do PSDB, PMDB, PT… Esse modelo econômico é o que garante o privilégio dado aos bancos, as grandes empresas e aos monopólios da mídia. Portanto, ao sentirem que seus privilégios estão ameaçados, o poder
    econômico reage contra o protesto dos trabalhadores no dia 11 de julho. Também não é correto e adequado fazer uma comparação entre as manifestações
    de junho e as paralisações do dia 11 de julho pelo número de pessoas que estavam nas ruas. O dia 11 teve como centro a paralisação das empresas.
    A paralisação das unidades econômicas do país. A paralisação das fábricas daqui de São Paulo, de Osasco, Guarulhos, do ABC, Cubatão. Em montadoras do Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. A paralisação dos operários da construção civil em  Fortaleza, Belém e nas obras de Suape [Complexo Industrial Portuário em Pernambuco].
     
    A paralisação das fábricas foi o fator central do dia 11, e não as  manifestações de rua. É natural que um processo como esse, no qual os trabalhadores
    começam a realizar atividade de greve às 5h da manhã, que às 16h da tarde não haja tanta manifestações no centro da cidade. Na verdade, as paralisações do dia 11 de julho são uma continuidade das manifestações de junho. Não é adequado contrapor um a outro. Os protestos de junho expressaram o descontentamento generalizado, especialmente dos mais jovens, contra o caos dos serviços públicos, do transporte e a corrupção. Mas de
    80% da população apoiaram os protestos. As paralisações do dia 11, impulsionadas pela classe trabalhadora organizada, defenderam as mesmas bandeiras
    das mobilizações do mês passado, mas agregam as demandas mais concretas dos trabalhadores. O que assistimos foi o fortalecimento das jornadas de junho
    com a entrada da classe trabalhadora organizada no dia 11. É o aprofundamento e fortalecimento de um processo de lutas contra esse modelo econômico
    aplicado no país.
     
    Na reunião realizada com as  centrais, como foi realizada a avaliação do dia 11? Como foi discutida a necessidade de um novo dia de lutas?
    A avaliação feita por todas as centrais foi bastante positiva. Eu ressalto, inclusive, que nós conseguimos evitar que a CUT transformasse o dia 11 em
    um dia de lutas em defesa da reforma política do governo, ou seja, em apoio à Dilma. Não conseguiram fazer isso. Os protestos cobraram diretamente do
    governo Dilma o atendimento das reivindicações. No debate sobre a continuidade das lutas é que começaram a aparecer novamente a polarização política que já se deu na própria construção do dia 11. A CUT queria esperar o processo de negociação com o governo. Nós [CSP-Conlutas] propusemos a realização de uma greve geral.
    Fomos apoiados pela Força Sindical, pelo presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Paulo, mas o resultado do debate foi a convocação de um Dia Nacional de Paralisação para 30 de agosto. Mas fica a hipótese, caso a paralisação não obrigue o governo a ceder as nossas reivindicações, da gente realizar no momento
    seguinte uma greve geral. Sobre o debate da pauta de reivindicações, havia quem defendesse enxugar a pauta, mas nós e outros setores defendíamos 
    que ela deveria ser mantida, pois tratava da demanda de diversos segmentos da classe trabalhadora e, por isso, não poderíamos deixar nenhum daqueles
    pontos de fora. Havia a necessidade, inclusive, de se estender esse debate para o modelo econômico do país. Se não param de pagar a dívida externa
    e a interna não vai haver  recursos para melhorar a educação, saúde e transporte.
    Por isso é necessário ampliar, e não  reduzir a pauta.
     
    Na reunião, foi agregado um ponto a mais da pauta que é a exigência da aprovação de Projeto de Lei, que tramita na Câmara, e estabelece salário igual para
    trabalhado igual. É uma reivindicação que vai no sentido de combater a discriminação que a mulher sofre no trabalho.
     
    Como será construída a paralisação do dia 30 de agosto?
    Dia 30 de agosto é um dia nacional de paralisação, portanto um passo à  frente em relação ao dia 11. Sua convocação 
    é muito importante e tem como  perspectiva a continuidade e aprofundamento do processo de mobilização. Inclusive, abre a perspectiva de que todas
    as campanhas salariais deste segundo  semestre se unifiquem com as mobilizações da juventude, que já estarão em aula, e com o movimento popular.
    O governo vai pressionar as centrais  sindicais, a CUT em particular, pra tentar desmontar esse dia. Vão tentar alguma negociação rebaixada com o governo
    para evitar o dia de paralisação. 
    É muito importante para nós, desde já, organizar essa mobilização  pela base para  justamente impedir qualquer recuo por parte das centrais
    sindicais que apóiam  o governo.
    Por outro lado, é  necessário fazer uma  disputa programática do processo de lutas que está em curso. Isso começa afirmando a pauta unitária,
    mas também levando aos trabalhadores o debate sobre a necessidade de mudar o modelo econômico do país. Sem parar de pagar a dívida pública, sem parar as
    privatizações que entrega o patrimônio do povo às multinacionais, sem parar com o repasse de recursos públicos, por meio de isenções fiscais, para as grandes 
    empresas, não vai haver recursos para atender as demandas dos trabalhadores,  seja na saúde, educação ou transporte, o fim do fator previdenciário,
    a redução da jornada de trabalho, fim das terceirizações e leilões de petróleo e Reforma Agrária. É preciso defender o congelamento do preço dos alimentos
    e das tarifas públicas e o aumento dos salários para protegê-los da inflação.

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