‘Somos trabalhadores e não entraremos no PSUV´

Reproduzimos, a seguir, trechos da declaração emitida no último dia 8 de abril pela Unidade Socialista dos Trabalhadores (UST) da Venezuela. A UST nasceu numa plenária realizada em agosto passado e está preparando seu congresso de fundação. Reagrupa militNós, que nos constituímos como Unidade Socialista dos Trabalhadores, somos todos revolucionários, trabalhadores e decidimos não aderir ao PSUV. Por quê?

Devemos analisar o MVR e os demais partidos que apóiam o governo.

O PSUV, formalmente, ainda não foi criado e existem muitas questões que só podem ser respondidas analisando as características do MVR (Movimento Quinta República, partido de Chávez), Podemos, PPT, PCV (…) São partidos que apóiam e aplicam uma política econômica que favorece os ricos (…) em benefício da burguesia e contra os interesses dos trabalhadores e do povo.

As transnacionais automotivas. Através do Programa Venezuela Móvel, essas empresas foram isentas do pagamento do IVA em toda a cadeia produtiva (…)

Os donos dos bancos nacionais ou estrangeiros não têm nada a reclamar: a negociação com os bônus argentinos, os bônus do sul e os bônus da PDVSA lhes permitiu e lhes permite lucros fabulosos (…)

Os banqueiros internacionais (…) estão muito satisfeitos, pois a Venezuela faz pagamentos antecipados da dívida externa (…)

O setor agropecuário obteve a exoneração do IVA na produção, transporte, distribuição e comercialização, assim como os produtores de carne e de outros ramos da indústria de alimentos. (…) Um grande presente a esse setor da burguesia, mais do que o dobro do que se destina do orçamento para projetos de moradias e desenvolvimento urbano.

Agora, analisemos as nacionalizações: consideramos muito importante que os setores de telefonia, eletricidade e petróleo voltem ao controle nacional, mas lamentavelmente tudo foi “um grande negócio” para as empresas imperialistas. Por que ninguém viu o empresariado gringo (…) falar mal das nacionalizações? Em verdade, o que se viu foram os estrangeiros saindo do país felizes, como no caso do executivo da empresa elétrica de Caracas: “Este foi um dos melhores negócios dos últimos anos”.

PSUV nasce com o signo do “caciquismo”
No ato do teatro Teresa Carreño, foi possível perceber como funcionará o futuro PSUV. Só entraram os amigos-amigos. Os mesmos políticos que as massas começam a repudiar, por seu rápido e inexplicável enriquecimento, estavam presentes sem terem sido eleitos por ninguém. (…)

Setores da UNT que são críticos à política econômica e salarial do governo não puderam entrar. (…) Os companheiros da Força Socialista de Profissionais, Técnicos e Intelectuais tampouco. Se não puderam entrar na festa, também não poderão entrar no debate do programa, da composição da direção ou das deliberações importantes. O PSUV será um partido a mais, para que participemos com nosso voto, mas não com nossas idéias.

Maioria da esquerda caminha alegre e irresponsavelmente em direção ao PSUV
Alguns caminham de cabeça baixa e de forma resignada. Outros, (…) alegremente. Por que a esquerda venezuelana atua dessa maneira? Será a primeira vez que se coloca esse problema para nossa classe? Os mestres da classe trabalhadora, Marx, Engels, Lenin e Trotsky, entre outros, já estudaram a fundo esses processos e recomendaram à classe trabalhadora manter sua “independência política”. (…)

O problema mais grave é que a esquerda venezuelana se tornou de tal maneira oportunista que já nem comentam o “monte de grana” que o governo está dando às transnacionais, aos banqueiros, aos industriais e à burguesia agrária. (…) Caminha alegremente (…) em direção ao partido que seguirá aplicando essas políticas.

MVR e companhia fazem pequenas concessões aos trabalhadores
Depois de oito anos de governo, devemos fazer um balanço em relação às conquistas obtidas pelos trabalhadores. Muitos companheiros honestos nos dizem: “Observem as ‘Missões’, as becas”. Expliquemos o que estamos dizendo:

  • O desemprego continua igual. Baixam as estatísticas e aumentam os camelôs.
  • As favelas proliferam pelas grandes cidades e a política habitacional é um desastre. Em 2006, o Ministério da Habitação não conseguiu construir nem 34 mil casas.
  • A política salarial só favorece o lucro dos empresários (…) a cesta básica custa mais do que o salário mínimo.
  • O salário mínimo, hoje em dia, não garante a cesta básica, quer dizer, o custo de vida de 1,4 milhão de bolívares (US$ 700).
  • Uma inflação de 18% ao ano corrói os salários.
  • Os contratos coletivos: o MVR é o pior patrão do país. Os trabalhadores do Mercal já estão há quase dois anos sem contrato; os empregados públicos, há quatro; os do INCE, há nove; e os trabalhadores do próprio Ministério do Trabalho, há 16 anos! Muitos imaginam que os trabalhadores petroleiros ganham altos salários, mas um funcionário efetivo da PDVSA ganha menos de 150 mil bolívares semanais (menos de US$ 70).
  • Por outro lado, observa-se uma ofensiva contra o movimento operário. (…) No sábado, 24 de março, no teatro Teresa Carreño, (…) ocorria um importante ato para a construção do PSUV. O discurso de Hugo Chávez foi claro, límpido e direto: “Os sindicatos não devem ser autônomos, é preciso acabar com isso”. A voz do presidente não tremeu na hora de repreender os dirigentes sindicais: “Tenho muitos amigos dirigentes sindicais, mas andam brigados, um para cá e outro para lá. Não os recebo enquanto não se unirem”.
  • A autonomia sindical significa ter a coragem de denunciar que o Estado venezuelano é um patrão muito mau, pois contrata trabalhadores sem garantias trabalhistas, como qualquer chinês dono de um armazém. Se não há autonomia sindical, quem lutará então pelo salário e para acabar com os desmandos cometidos contra os servidores públicos?

    Não queremos mais do mesmo
    Os trabalhadores devem deixar bem claro que já são oito anos de governo e o problema do desemprego e da pobreza ainda não foi resolvido. Ao mesmo tempo, há enorme abundância de renda petroleira para a burguesia.

    Alguns nos dirão que atuar e pensar assim é ser sectário. Que é necessário acompanhar a experiência e a consciência das massas. Respondemos que aquele que faz política a partir da consciência das massas sempre, e invariavelmente, acaba capitulando ao seu atraso. Primeiro a independência de classe, depois a consciência.

    Nesse sentido, consideramos um erro a carta enviada por um grupo de companheiros dirigentes sindicais da CCURA (27 de março) ao presidente Chávez sobre a “não autonomia dos sindicatos”. Esse documento não fala da política econômica do chavismo. (…) Como as massas podem extrair suas conclusões políticas e avançar em sua consciência se seus dirigentes não dizem toda a verdade? Outro grave problema é que a carta parte do pressuposto de que governo e trabalhadores estão no mesmo campo. Como se a sociedade não estivesse dividida em classes…

    O texto também diz: “Defendemos o direito dos trabalhadores de fazer política e de se somar ao PSUV” e “não vemos contradição entre construir o PSUV e apoiar a revolução”. Quando os milhares de trabalhadores públicos, petroleiros ou aposentados da CANTV começam a fazer sua experiência com esse governo e vêem seus dirigentes pedindo que ingressem no PSUV, poderão pensar, de forma equivocada: “Agora as coisas vão mudar, já não é o velho MVR, é o novo PSUV”. Isso ajuda no desenvolvimento de sua consciência?

    Por isso, a primeira medida que devem tomar é ser conseqüentes com a resolução do congresso de fundação da CCURA, chamada “A UNT de que necessitamos os trabalhadores e trabalhadoras”: “As organizações sindicais devem ser independentes e autônomas do imperialismo, do Estado, do governo, dos patrões e dos partidos políticos”.

    É necessária uma frente de esquerda
    A UST, um agrupamento de revolucionários e defensores incondicionais da independência política da classe trabalhadora, e da unidade sindical independente e autônoma, considera que existem diversos grupos com orientações similares no país. Não acreditamos que esses grupos individualmente tenham força para impor um plano econômico dos trabalhadores. Mas, se juntarmos nossas forças, poderemos construir uma grande frente de esquerda e avançar na organização independente dos trabalhadores.

    A outra opção é ingressar no PSUV e submeter-se a sua política econômica de favorecer aos capitalistas e ao silêncio cúmplice frente à ocupação do Haiti. (…) Submeter-se à vontade dos conhecidos governadores, prefeitos e deputados. (…) Submeter-se a um partido sem democracia interna desde seus atos de fundação.

    Consideramos que este não é o caminho e chamamos os companheiros da CCURA que assinaram a carta mencionada a romper com o PSUV para que, juntos, construamos a ferramenta política independente de que a classe trabalhadora venezuelana necessita.
    Post author Unidade Socialista dos Trabalhadores (UST), da Venezuela
    Publication Date