‘O processo revolucionário não se encerrou na Bolívia´

`FotoJaime Vilela é dirigente nacional do Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), seção boliviana da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT). Nesta entrevista, no dia 26 de abril, ele falou sobre a atual situação política da Bolívia, após sete meses da insurreição que derrubou o presidente Sanches de Lozada, em outubro, e da greve geral marcada para o início de maio.

Opinião Socialista — Como está a situação da Bolívia hoje?
É necessário dizer, primeiramente, que se rompeu a trégua estabelecida pelas direções majoritárias do movimento de massas após a subida de Carlos Mesa ao governo. No dia 15 de abril, explodiu a primeira mobilização de motoristas e pequenos comerciantes, juntando-se a ela, mais tarde, a luta das 11 universidades estatais, por verbas.

Qual é a principal reivindicação destes movimentos?
Os movimentos saem às ruas porque suas reivindicações não foram atendidas e, pior ainda, estão vendo a sua situação de pobreza e miséria se aprofundar com a continuidade da aplicação, pelo “novo” governo, dos planos de ajuste do FMI.
É claro que a luta pelo gás passa por essa mobilização, pois o governo alega — assim como o anterior — que não há dinheiro e, por isso, tem de seguir com o ajuste fiscal e o aumento de impostos, assim como a venda do gás. Mas a população sabe que a venda do gás às multinacionais só trará lucro para as mesmas. Inclusive, o referendo que o governo está propondo para o próximo mês de junho arma uma cilada, pois irá perguntar se a população aceita ou não que se venda o gás, quando o que o movimento exige é que se consulte se o povo é a favor ou não da nacionalização do gás.

Qual é a posição da Central Operária Boliviana (COB) com relação esse referendo do governo?
Infelizmente, a última reunião ampliada da COB, no dia 7 de abril, foi antes da convocação do governo, por isso o movimento não se manifestou sobre este tema. Mas nós, do MST, vamos defender o boicote a este referendo e chamar a COB a defender uma greve geral, com bloqueio de estradas. De qualquer forma, veja que estranho: o governo faz a manobra de convocar um referendo para, em seguida, no dia 21 de abril, assinar de forma unilateral o acordo de venda de gás para a Argentina. Basta de trégua e confiança neste governo! É necessário derrotar Carlos Mesa e seu projeto de recolonização neoliberal!

Qual é o caminho que aponta o MST boliviano?
Acatamos o chamado à greve geral feita pela COB para o dia 2 de maio. Estaremos construindo esta grande mobilização para que o governo seja colocado em xeque. Porém, acreditamos que é preciso ir mais longe. A COB hoje é referência para todo o movimento de massas boliviano e já é um organismo de duplo poder. Um exemplo disso foi quando a COB declarou, durante a insurreição de outubro, que não haveria nenhuma seção do Parlamento. Os deputados acataram essa decisão e, sem consultar o presidente da casa, foram embora para casa.
É necessário organizar um congresso extraordinário da COB que congregue todos os trabalhadores e a juventude para preparar a tomada do poder neste próximo período. Está claro que o processo revolucionário não se encerrou e cada greve geral, como a atual, coloca a tarefa da tomada do poder.
Contudo, há muitos setores que jogam contra a mobilização e querem garantir a governabilidade de qualquer forma, para preservar o regime e garantir a sucessão de Carlos Mesa através das eleições.

Você se refere ao deputado do Movimento ao Socialismo (MAS), Evo Morales?
Exatamente. Evo, propositor da trégua a Mesa, sustenta este governo abertamente. Defende em público as medidas de Carlos Mesa e ajuda a aprová-las no parlamento, através de sua bancada. Com relação às mobilizações, vem alardeando que as entidades que a estão convocando são ligadas à embaixada norte-americana e querem, na verdade, provocar um golpe militar no país. Um delírio completo.

Post author Por Yuri Fujita, da redação
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