Por um triz não aconteceu uma tragédia na Ocupação Wiliam Rosa

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Restos do arsenal utilizado pela PM contra a ocupação

Na noite de sexta, a PM de Minas atacou com brutalidade a Ocupação William Rosa, em Contagem. Chegaram a incendiar vários barracos e atacaram quem tentasse apagar o fogo. Leia o relato de Frei Gilvander Moreira, da Comissão Pastoral da Terra, sobre o episódio

A Ocupação Wiliam Rosa não foi despejada na noite desse 1º de novembro. Por um trisco não aconteceu uma tragédia na Ocupação, sob ataque da polícia de Minas, mas o povo está firme, de cabeça erguida, para continuar a luta. Mas o que aconteceu nesse dia 1º lá na Ocupação Wiliam Rosa foi muito grave. Riscaram fósforo ao lado de um barril de pólvora. Temos que tirar muitas lições, todos: policiais, comandantes, autoridades, juízes, TJMG, prefeitos, governador, presidenta Dilma, lideranças, o povo das pcupações e todos nós. Vamos aos fatos e a algumas luzes

Nesse dia 1º de novembro, sexta-feira, à noite, por volta das 21h40, recebi um telefonema de uma das lideranças da Ocupação Wiliam Rosa, que está com 3.900 famílias sem-terra e sem-teto, localizada próximo ao CEASA – em terreno que “pertence” ao CEASA -, em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, MG. Desesperado, via celular, gritava: “Frei Gilvander, pelo amor de Deus, socorro! A Polícia de Minas Gerais com tropa de choque – uns 300 policiais – está atacando a Ocupação Wiliam Rosa, jogando bombas no meio das barracas de lona preta, dando tiros e jogando gás lacrimogêneo do helicóptero. Chegou alguém gritando que, ao correr das bombas, passou por cima, de uma pessoa caída, que parece estar morta.” Perguntei: “Tem oficial de justiça aí?” “Não tem.” “Estão despejando a Ocupação?”, indaguei. “Parece que é início de despejo, mas não sabemos a intenção da polícia.”

Liguei para outra liderança que me repassou a mesma versão. Soluçando por causa do gás lacrimogêneo, essa liderança, com a voz embargada, chorando, me disse: “Frei Gilvander, pelo amor de Deus, socorro. Venha nos ajudar. E chame quem puder vir.”

Divulguei, via celular e Facebook, uma mensagem com o “conteúdo”, acima, e, junto com uma advogada popular, fomos correndo para a Ocupação, enquanto telefonávamos para lideranças. Consegui falar com o deputado Rogério Correia (PT/MG), que conversou, via celular, com a Cel. Cláudia, Comandante de Policiamento de Belo Horizonte, fiquei sabendo às 23h42 quando consegui falar, via celular, com a Cel. Cláudia, que, aliás, via telefone, me repassou a versão da polícia e disse estar disposta a conversar pessoalmente.

Quase dois quilômetros da Ocupação Wiliam Rosa, na Avenida Severino Balesteros, havia um bloqueio da polícia. Apresentei-me aos policiais que bloqueavam a avenida e disse que a advogada e eu estávamos indo para ajudar na intermediação do conflito. O soldado disse que me conhecia, mas que teria que obter ordem para deixar a advogada e eu passarmos de carro.

Esperamos uns 15 minutos e a resposta foi que um tenente não tinha autorizado nossa entrada de carro. Após insistência nossa, o policial falou, via rádio, com outro comandante que autorizou nossa entrada. Andamos uns 500 metros e eis outra barreira da PM. Explicamos a um policial que estava com uma “espingarda” em punho que tínhamos obtido autorização para chegar à ocupação. Ele grosseiramente me respondeu: “Você poderia ser o papa, mas aqui não passa ninguém.” Tivemos que deixar o carro e continuar a pé mais 1 Km até chegar ao epicentro da Ocupação que é muito grande: 3.900 famílias, sem contar outras 2.000 famílias que estão na fila de espera.

Nos dois bloqueios ouvimos de policiais que uma viatura teria sido queimada, notícia desmentida por todas as pessoas que perguntamos na ocupação. Aos motoristas que insistiam em continuar pela Avenida, um policial dizia: “Está proibido transitar por aqui. Se você for por aqui, vão apedrejar seu carro.” Eis duas mentiras – entram muitas outras que policiais disseminam contra o povo das ocupações – que acirram os ânimos, caluniam e difamam os pobres que justamente, por necessidade, estão lutando por um direito humano elementar: o direito de morar com dignidade.

Na Ocupação, mostraram-nos muitos destroços de bombas jogadas pela PM no meio dos barracos de lona e vimos pessoas feridas, por exemplo, uma senhora com marcas nas costas atingida por bala de borracha,  um senhor com o joelho machucado e notícia de que algumas pessoas foram presas Ouvimos que às 13h desse dia 1, o povo da Ocupação Wiliam Rosa iniciou uma Marcha até a sede da Prefeitura de Contagem. Foram 18 Kms a pé por solidariedade ao povo da Ocupação Tupã – mais de 200 famílias – que, após serem despejados pela tropa de choque de MG, estão acampados em frente à Prefeitura de Contagem.

 Marcharam também para cobrar do prefeito de Contagem, Carlin Moura (PCdB) compromisso com resolução do grave conflito social que é a falta de moradia para milhares de famílias no município. Mas o prefeito Carlin Moura não recebeu nem uma comissão de representantes das duas ocupações. Assim, a indignação aumentou, é óbvio. O povo voltou marchando outros 18 Kms e trancou a BR 040 nos dois sentidos, próximo ao CEASA. Claro que o engarrafamento se tornou grande. A Polícia Federal Rodoviária não se opôs à manifestação, mas a PM de MG logo começou a pressionar para que as vias de acesso à BR 040 fossem desbloqueadas. Alguns motoristas exaltados criaram animosidade. O povo ouvindo insultos de policiais, além de manter o bloqueio da BR 040, bloqueou também a Av. Severino Balesteros Rodrigues, Bairro Laguna, ao lado da Ocupação Wiliam Rosa.

Policiais iniciaram pressão para liberar o bloqueio da Av. Severino. O povo discordou e resistiu. Um comandante deu um minuto para liberar a avenida e logo em seguida iniciou uma chuva de bombas, de tiros de “bala de borracha”, segundo a Cel. Cláudia, e a jogar gás de pimenta a partir do helicóptero da PM que sobrevoava em vôos rasantes disseminando terror e pânico em crianças, mulheres, idosos e deficientes. Aí o pânico se instaurou. Ouvimos que jogaram pedra na polícia também. Normalmente, os pobres jogam pedra na polícia somente após serem atacados. Muitas pessoas lutaram para apagar incêndios em barracas incendiadas pelas bombas jogadas por policiais. E, segundo relatos, policiais atiraram nas pessoas que tentavam apagar o fogo em várias barracas. Por pouco não alastrou um grande incêndio na Ocupação.

Em poucos minutos dezenas de militantes foram acionados e foram correndo para expressar apoio à Ocupação Wiliam Rosa.

Um trio contra o povo: Terreno do CEASA/Governo Federal, Polícia de MG e prefeitura de Contagem, do PCdB. Assim não dá. É injustiça e temeridade.

Felizes os que lêem os sinais dos tempos e dos lugares. O sinal vermelho já acendeu. Primeira lição: As 3.900 famílias da Ocupação Wiliam Rosa, assim com as 8.000 famílias das Ocupações Rosa Leão, Esperança e Vitória, na região do Isidoro, em Belo Horizonte, não vão aceitar jamais serem despejadas, SEM O ESTABELECIMENTO DE UMA MESA DE NEGOCIAÇÃO SÉRIA E À ALTURA DO CONFLITO, até porque não tem para onde ir, estão organizados e conscientes dos seus direitos. Dr. Francisco Alves, Juiz Federal em Pernambuco, irmão do nosso saudoso professor Fábio Alves, informou-nos que só expede liminar de reintegração de posse, após entregarem a chave da casa/apto para onde as famílias vão mudar. Ou seja, reintegração de posse só possível e justa com alternativa digna.

Segunda lição: O único caminho a ser trilhado para superarmos o gravíssimo conflito social que envolve diretamente as 12.000 famílias dessas quatro ocupações – Wiliam Rosa, Rosa Leão, Esperança e Vitória -, é a ABERTURA DE UMA MESA DE NEGOCIAÇÃO, diálogo e busca conjunta de soluções justas e pacíficas, Mesa que deve ser integrada por representantes das ocupações, representantes dos movimentos sociais populares que acompanham essas ocupações, prefeito Carlin Moura (de Contagem, MG), prefeito Márcio Lacerda (de Belo Horizonte), Governo de Minas, Governo Federal, Ministério Público da área de Direitos Humanos e de Assuntos comunitários, Defensorias Públicas de MG e da União, TJMG e Rede de Apoio.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 2 de novembro de 2013, às 10h30

ACESSE o blog da Ocupação William Rosa