O discurso de Gleisi Hoffmann: para quais mulheres ela fala?

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Gleisi Hoffmann, ex ministra da Casa Civil no governo Dilma

Uma breve análise sobre o discurso da ex. ministra da Casa Civil em homenagem ao dia Internacional da Mulher

No dia 25 de Março, o Congresso Nacional realizou uma sessão solene em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Em nome da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT), falou a ex-ministra Chefe da Casa Civil e atual candidata ao Governo do Paraná, Gleisi Hoffmann.

Em seu discurso, Gleisi cita o artigo “Garotas mandonas são líderes natas”, publicado no Wall Street Journal (um dos jornais mais importantes dos Estados Unidos) e reproduzido pelo Valor Econômico. “O preconceito pesa sobre a mulher desde que ela é criança. Se a mesma tem espírito de liderança ela é rotulada de mandona. Na semana passada saiu uma matéria no Valor Econômico um artigo de duas executivas norte-americanas, uma das diretoras do Facebook, que diziam que elas gostavam de organizar as brincadeiras do colégio e disputavam as eleições para líderes de suas classes, mesmo sendo rotuladas de mandonas”, afirmou.

Continuando seu discurso, compara a mesma situação vivenciada pelas duas executivas com as críticas vivenciadas pela presidenta Dilma, “A presidenta Dilma em várias ocasiões tem sido descrita como exigente, mandona, autoritária e de temperamento difícil”. Concluindo seu discurso, Gleisi afirma que “precisamos das mandonas, nenhum país avança sem bons líderes e boas líderes. Nosso crescimento econômico, social, cultural e humano depende de ter mulheres totalmente engajadas na força de trabalho e no campo das decisões. As nossas empresas têm melhor desempenho quando tem mais mulheres na equipe gerencial ”.

Concordamos com Gleisi quando ela afirma o quanto uma mulher é estigmatizada ao ter um posicionamento forte, ser liderança ou ocupa um posto de decisão. Esse preconceito é fruto da ideologia machista existente na sociedade que sempre coloca a mulher em situação de inferioridade em relação ao homem. Esta ideologia impõe a falsa idéia de que somos “frágeis”, “dóceis” e “nervosas”, características ditas femininas e que, portanto, não temos capacidade de direção.

Concordamos também com Gleisi que é importante as mulheres assumirem cargos de decisão para quebrarmos estes estereótipos, ocupando cargos como a presidência da República para demonstrar a capacidade que as mulheres têm, inclusive, de liderar uma nação. Inclusive, o PSTU foi o partido que teve mais mulheres candidatas proporcionalmente nas eleições de 2012, 42% em suas candidaturas em todo o país, e temos muito orgulho disso!

Porém, temos uma divergência profunda com Gleisi Hoffmann e o PT. A eleição de Dilma Rousseff significou um marco na história brasileira, pela primeira vez uma mulher subiu ao poder. Isto gerou muita expectativa para as mulheres, principalmente para as trabalhadoras que achavam que seria um momento de mudança em suas vidas, afinal uma mulher havia chegado à presidência.

Não negamos o elemento do machismo na trajetória política de Dilma, inclusive com provocações no sentido de questionar sua sexualidade. A participação feminina aumentou no governo de Dilma, as mulheres assumiram mais pastas importantes no comando da nação, exemplo disso é a própria Gleisi Hoffmann, Ministra-Chefe da Casa Civil. Porém, a partir dessa experiência fica uma pergunta: O que significa ter uma mulher nos espaços de direção/decisão? O que determina se este fato é progressivo ou não?

A vida das mulheres trabalhadoras mudou com Dilma e Gleisi no poder?
Passados quase 4 anos do governo Dilma Rousseff, com Gleisi Hoffmann ocupando papel central nele, achamos necessário refletir e responder essa pergunta. Para concluir a respeito, nada melhor que dados e fatos concretos da realidade.

Após 10 anos de queda, a diferença salarial entre homens e mulheres aumentou no Governo Dilma, segundo dados da PNAD. No governo Dilma houve um aumento na mortalidade materna em 30% entre as mulheres negras. Neste mesmo governo, o número de estupros aumentaram em 158%, levando a estatística de que a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil. A estimativa de déficit de creches era de 70 mil unidades no final do governo Lula. Na campanha, Dilma prometeu construir mais de 6000 creches, porém até 2013, somente 1180 haviam sido construídas. Apenas 10% dos municípios brasileiros tem delegacias especializadas e menos de 1% tem casas abrigo. O país ocupa o 7º lugar em morte de mulheres e a cada 2 minutos 5 mulheres são agredidas. O orçamento da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) para 2014 é de R$ 217 milhões, enquanto os gastos de verbas públicas na Copa do Mundo já ultrapassaram os R$ 30 bilhões.

Gleisi Hoffmann é uma das responsáveis pela EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares) que significa na prática a privatização dos Hospitais Universitários brasileiros. No Hospital de Clínicas da UFPR, mais de 900 trabalhares da FUNPAR poderão ser demitidos, tudo para forçar a adesão à EBSERH. Cabe lembrar que são as mulheres as principais usuárias da saúde pública. Gleisi Hoffmann foi a mulher que anunciou a suspensão da demarcação das terras indígenas no Paraná, atendendo ao apelo dos setores ruralistas, deixando  indígenas sem as terras que lhes pertenciam por direito.

Em nome de quais mulheres Gleisi fala?
Infelizmente, esses dados comprovam que, mesmo com uma maior participação das mulheres nos espaços de decisão do país, incluindo a presidência da República, o fato é que não houve uma mudança na vida das mulheres que mais precisam de políticas públicas: as trabalhadoras.

É verdade que as mulheres ricas também sofrem com o machismo, porém é bem diferente quando se têm condições de estudo, trabalho e moradia para combatê-lo, não ter que ficar a mercê de políticas públicas ou ajuda de amigos e parentes para sobreviver. Por isso fazemos este debate com critério de classe. As trabalhadoras são as mais afetadas pelo machismo na sociedade. Elas não têm lugar para se proteger quando são vítimas de violência, não têm onde deixar seus filhos devido à falta de creches, ganham os menores salários e por isso sofrem mais.

Em seu discurso de homenagem ao dia internacional da mulher, Gleisi não falou para as trabalhadoras. Seu discurso até serviria para as executivas norte-americanas. “Apostem nas mulheres, elas irão gerenciar seus negócios melhor”. Esse discurso não é para as mulheres trabalhadoras, da periferia,  pobres e negras. Infelizmente “empoderar” (levar ao poder) uma mulher como Presidenta da República, como Ministra-Chefe da Casa Civil, como gerente de uma empresa ou como governadora do Paraná não resolve o problema. Não resolveu e não resolverá, essa é a lição que aprendemos com Dilma, essa é a lição que devemos ter em relação à Gleisi nas próximas eleições.

No caso de Dilma, ser uma mulher não significou compromisso com a classe trabalhadora, não significou mudanças. Mulheres continuam morrendo, apanhando, sendo estupradas e com salários menores em relação aos homens. Entre elas, as negras são as que mais sofrem. Precisamos sim das “mandonas”, mas daquelas que são comprometidas com as lutas das mulheres trabalhadoras, da classe trabalhadora, daquelas que lutam contra o machismo e a exploração.