Em meio a denúncias de fraudes, eleições do PT reafirmam atual política do partido e do governo

Rui Falcão concede entrevista coletiva após PED

Em uma eleição marcada por denúncias de irregularidades, que vão desde filiações em massa, presença de pessoas mortas na lista de cotizados e compra de votos, o deputado estadual (SP) Rui Falcão foi reeleito presidente do PT com quase 70% dos votos válidos no Processo de Eleições Diretas (PED) da legenda.

A vitória, anunciada na última terça-feira (12/11), concretiza a maior votação que um presidente do PT já recebeu desde a instituição do PED, em 2001. Mais do que isso, amplia a hegemonia ostentada pela Articulação (grupo que dirige a legenda desde a década de 1980, agora com o nome de CNB – Construindo um Novo Brasil) e reduz, ainda mais, a já minúscula influência que as demais tendências internas poderiam exercer sobre a política do partido.

Se ainda restava alguma esperança sobre uma mudança nos rumos da legenda, como muitos militantes petistas honestos ainda alimentam, ela foi categoricamente derrubada. A vitória de Rui Falcão – candidato de Lula e Dilma – comprova que a degeneração do PT, com sua completa adaptação ao status quo e ao modo tucano de governar seguirá intocável.

Em outras palavras isso significa dizer que, pelas mãos de um partido construído nas greves operárias dos anos 1980, seguirão uma série de ataques como as privatizações de setores estratégicos como o petróleo; a transferência de recursos do BNDES às grandes empresas; as regalias aos barões do agronegócio e o pagamento da dívida pública, mesmo que isso signifique a sangria de metade do orçamento da União em benefício de banqueiros e especuladores.

O mesmo podemos dizer do escandaloso repasse de verbas públicas para o ensino superior privado, da paralisa na reforma agrária e da crescente repressão aos movimentos sociais e aos trabalhadores, expressada recentemente na violência cometida pelo Exército contra manifestantes durante o Leilão de Libra e no pacto firmado pelo governo Dilma com Alckmin, governador de São Paulo, e Cabral, governador do Rio, para criminalizar de maneira unificada e ainda mais ofensiva as lutas que tomam o país.

Eleição imersa em denúncias e acusações
Muitas irregularidades foram apontadas ao longo do processo eleitoral pelos demais candidatos. Uma delas, apontada por quatro dos seis candidatos, se referia ao crescimento vertiginoso de petistas aptos a votar no pleito. Segundo eles, em apenas sete dias o percentual de militantes que poderiam depositar o seu voto nas urnas subiu 322%. Entre os dias 13 e 30 de agosto o salto teria sido ainda maior, pulando de 184.893 filiados aptos para 780.688.

Valter Pomar, candidato pela tendência Articulação de Esquerda, chegou a afirmar que houve registro de pagamentos de militantes mortos e indícios de pagamentos de mensalidades, que deveriam ser feitas de maneira individual, realizadas de uma única vez e de forma coletiva. Este pagamento em massa é proibido pelo estatuto do partido e os candidatos apresentaram indícios desta ação em pelo menos 24 cidades do Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerias, Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo e Sergipe. Na Paraíba, por exemplo, sete das nove chapas inscritas no PED do Estado solicitaram a anulação de 3.500 novas filiações, por não cumprirem o regimento do partido.

Entretanto, mesmo com todas as suspeitas e denúncias, inclusive de compra de votos, o partido arquivou a investigação sobre possíveis fraudes na eleição e, como resposta à imprensa, o secretário de organização do PT e responsável pela eleição, Florisvaldo Souza, afirmou que “num processo desse tamanho, você tem a situação de ter um erro ou outro, mas não vou, por causa de uma questãozinha destas, acabar com o PED…”.

Há, ainda, relatos de manobras da direção majoritária para engessar o processo e impedir o amplo debate das posições, realizando de última hora uma série de alterações nas regras do processo eleitoral. Não são poucas as vozes dentro da legenda que se queixam da forma como a eleição é conduzida; muitas das reclamações recaem sobre a ausência de debate político e sobre as filiações formais, arregimentadas justamente para as eleições. Esta realidade, exposta pela própria militância do partido, demonstra que não há possibilidade de recuperar qualquer resquício de democracia no PT.

Novas promessas, velhas alianças
Rui Falcão venceu a eleição com a promessa de atrair a juventude e os movimentos sociais que tomaram as ruas do país durante as jornadas de junho; ativistas que se enfrentaram justamente com a política econômica aplicada pelo PT, pelo descaso com a saúde, a educação e o transporte públicos que o PT não foi capaz de reverter em 10 anos de Poder.

Mesmo assim, a chapa de Rui Falcão, ‘O partido que muda o Brasil’, afirma em seu programa que as manifestações representam uma extraordinária “oportunidade para que o PT se renove e se reorganize, sobretudo por nosso compromisso com a consolidação, ampliação e aprofundamento da democracia política, condição determinante para o alargamento da democracia social”.

Entretanto, a retórica sobre renovação e democracia do PT cai no vazio ao sequer ser aplicada no interior do partido. O próprio processo eleitoral não expressou uma ampla participação dos militantes, nem mesmo numericamente. Em um universo de aproximadamente 800 mil petistas aptos a votar, a abstenção foi grande: 40%. No último PED, realizado em 2009, 520.417 petistas votaram. Em 2013, foram 367.298.

Além disso, é curioso notar que ao mesmo tempo em que busca “renovar” seus quadros e o seu próprio discurso, o PT prioriza a manutenção da política de alianças com o que há de mais atrasado e corrupto no regime político brasileiro. Em nome da governabilidade e do projeto de reeleição da presidente Dilma, caberá justamente a Rui Falcão a tarefa de colocar em prática uma política de coalizão com figuras como Paulo Maluf (PP), Gilberto Kassab (PSD), Renan Calheiros (PMDB) e José Sarney (PMDB) – todos, sem exceção, envolvidos em casos sucessivos de corrupção.

Abandono do classismo, manutenção da ordem
Não seria exagero dizer que o PT, do qual o PSTU fez parte enquanto corrente interna, sob o nome ainda de Convergência Socialista, foi o maior partido da classe trabalhadora do Século XX e apresentou na época de sua fundação um programa  classista e independente da burguesia.

 Mas também não é exagero nenhum afirmar que o PT de 2013 é bem diferente daquele que ajudamos a construir e do qual fomos expulsos por não concordar com as escolhas da direção majoritária. Seja na recusa em colocar nas ruas o ‘Fora, Collor’, seja na recusa de realizar uma campanha consequente, de massas, contra o governo FHC, tudo em nome de uma transição negociada e palaciana, o Partido dos Trabalhadores se desfigurou e hoje não atende mais aos interesses dos trabalhadores. Não é possível regenerá-lo.

Mais do que simplesmente ter engavetado e esquecido bandeiras históricas, como as prometidas reformas agrária e urbana, e o resgate das empresas estatais, o PT hoje cumpre um papel semelhante ao do PSDB quando entrega o pré-sal brasileiro às multinacionais, quando privatiza os aeroportos, ferrovias e rodovias brasileiras, quando reprime e criminaliza os lutadores e aplica uma política econômica que beneficia o mercado internacional.

Aos militantes petistas que ainda se esforçam em salvar um partido que para nós está completamente burocratizado e degenerado, afirmamos francamente: há muitos anos o PT não está a serviço dos trabalhadores, mas sim da classe dominante e da manutenção da ordem burguesia.

Há muitos anos o PT tem atuado para frear a luta de classes e a verdadeira emancipação dos trabalhadores. Muitos companheiros já enxergaram isso e estão tendo a compreensão de que este não é mais o “seu governo” e nem o “seu partido”, não aquele para o qual cada dedicaram anos de militância.

Cada vez mais, a tarefa dos trabalhadores e da juventude passa a ser a construção de uma oposição de esquerda ao governo do PT, de uma oposição de esquerda e socialista.