Dom Paulo, o bispo que lutou contra a ditadura

Morreu nesta quarta-feira, 14, o arcebispo de São Paulo e cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos. O frade franciscano sempre foi conhecido por sua constante atividade política. Manteve relações próximas com políticos ligados ao PMDB, PSDB e PT. Tinha proximidade com Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas. No PT, era próximo de Lula e Dilma Rousseff.

Mas também ficou conhecido como o bispo e cardeal que lutou, ao lado dos trabalhadores, na defesa dos Direitos Humanos, exatamente nos momentos mais difíceis e mais repressivos da ditadura cívico militar no Brasil.

Foi nomeado bispo em 1966, por decisão do Papa Paulo 6º, a quem conhecera em Roma, Assumiu a função de bispo auxiliar de São Paulo, escolhido pelo cardeal Agnelo Rossi, da ala conservadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Nesta função, passou a visitar presos comuns no Carandiru e, por pedido do cardeal, foi ao presídio Tiradentes saber das condições dos frades dominicanos presos por motivos políticos, entre eles estavam frei Betto e frei Tito.

Constatou que foram violentamente torturados e encontrou Tito em uma situação degradante. Relatou o que viu, mas não foi ouvido por dom Agnelo que resolveu não fazer nada. Paulo nunca o criticou publicamente.

A partir daí assume a luta em defesa dos presos políticos. Em outubro de 1970, passa a ser titular do arcebispado e se enfrenta com os generais da ditadura para proteger perseguidos políticos. Corajoso, saiu aos berros com o temível general presidente Emílio Garrastazu Médici na defesa dos direitos humanos. O general depois decretou o fechamento da rádio Nove de Julho, tradicional emissora da igreja na cidade.

Dom Paulo, em 1972, fundou a Comissão Justiça e Paz, colocando o jurista Dalmo de Abreu Dallari para ser seu primeiro presidente. Em 1973 passou a ser cardeal. Dallari na véspera da visita do Papa ao Brasil, em 1978, foi sequestrado por um grupo paramilitar, levado para um terreno baldio, espancado e abandonado. Compareceu à missa em cadeira de rodas e enfaixado.

Sempre como um religioso e defensor da igreja católica, Dom Paulo se contrapunha aos desmandos da repressão política, e estava engajado na luta pela anistia aos presos políticos, banidos e perseguidos pelo regime.

Apoiou o procurador de Justiça, Hélio Bicudo, na luta contra o Esquadrão da Morte – grupo de extermínio formado por policiais assassinos, do qual fazia parte o conhecido torturador, delegado Sergio Paranhos Fleury. Sendo a Comissão Justiça e Paz que publicou o livro de Bicudo sobre o Esquadrão, que havia sido recusado por várias editoras. Por isso Arns sofreu várias ameaças e denúncias anônimas.

Uma de suas atitudes exemplares foi quando do assassinato do jornalista Vladimir Herzog no DOI-CODI, em 1975. Coordenou, na Catedral da Sé, um culto ecumênico que reuniu milhares de pessoas, e se transformou de fato em um dos primeiros atos públicos contra a ditadura.

A ditadura fez de tudo para desqualificá-lo e tentou derrubá-lo gestionando junto ao Vaticano, mas não conseguiu. Dom Paulo patrocinou através da Arquidiocese a publicação do livro “Brasil: Nunca Mais”, sobre os mortos e desaparecidos.

Missa em memória do jornalista Wladimir Herzog
Missa em memória do jornalista Wladimir Herzog

Quando o operário Santo Dias, presidente da Pastoral Operária, foi assassinado pela polícia com um tiro nas costas, na greve geral dos metalúrgicos, em 30 de outubro de 1979, seu corpo foi velado na Igreja da Consolação. Nesta greve, as subsedes do sindicato, onde estavam os comandos de greve, foram invadidas pela Polícia Militar, que prendeu mais de 130 operários. Então os metalúrgicos foram se reunir na Capela do Socorro, na Zona Sul (a região de maior concentração de operários da categoria), Santo Dias, saiu de lá, junto com o comando, para o piquete na Sylvânia, onde foi morto.

No dia 31, 30 mil pessoas saíram às ruas da capital para acompanhar o enterro e protestar contra a morte do líder operário, pelo livre direito de associação sindical e de greve, e contra a ditadura. Anos mais tarde, sob a direção de Dom Paulo, foi formado o Centro Santo Dias de Defesa dos Direitos Humanos.

Com o fim a ditadura, finalmente a igreja conseguiu diminuir o poder de Dom Paulo dentro da instituição. O papa João Paulo 2º fracionou a arquidiocese de São Paulo em seções menores e, consequentemente, com menos poderes. O cardeal Paulo reclamou desta atitude ao Papa, mas nada adiantou. Depois disso se afastou, em 1998, alegando limite de idade.

Muitos ativistas, sindicalistas e estudantes que estavam na prisão, deve a melhoria em suas condições carcerárias e, inclusive suas vidas, a padres como dom Paulo que os visitava e procurava protegê-los.

Américo Gomes, da Coordenação do Comissão de Presos e Perseguidos Políticos da ex-Convergencia Socialista