Ditadura e corrupção

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O ditador Medici: predileção pela Odebrecht

No último dia 16, um grupelho de lunáticos de extrema direita invadiu o plenário da Câmara dos Deputados. Uma de suas principais reivindicações era “intervenção militar” para “acabar com a corrupção”. A ignorância e o fanatismo reacionário desses grupos também se expressaram num vídeo que circula pelas redes sociais. Nele, uma uma mulher que participou da invasão, diz que se deparou com uma “cena nojenta com um símbolo vermelho e comunista”. Ela se referia a bandeira do Japão que estava em um painel pendurado na parede do Congresso. Ao final, ela ainda faz um “alerta” a população. “A nossa bandeira não será mais como conhecemos”.

O episódio foi cômico e repugnante. A mesma ignorância dessa gente justificaria um golpe militar no Brasil. Afinal, em seu delírio translocado, as Forças Armadas promoveriam uma faxina livrando o país da corrupção.

Na realidade, a ditadura representou um dos períodos mais cruéis da história do país. Ao contrário do que dizem seus defensores, a corrupção corria solta. A ditadura foi tão corrupta quanto os governos democráticos. Bilhões foram desviados das obras faraônicas da ditadura (Rodovia Transamazônica, usinas Angras 1, 2 e 3 e hidrelétrica de Itaipu, entre outras).

Muitas das obras faraônicas da ditadura foram construídas com o sangue dos trabalhadores. Como foi o caso da própria construção de Itaipu que provocou a morte de pelo menos 145 operários. Como não havia nenhuma fiscalização, e a ditadura não prestava contas dos gastos públicos, nunca saberemos exatamente o quanto foi desviado. Além disso, a imprensa estava sob censura, e qualquer notícia sobre corrupção era barrada. Ou seja, se você denunciasse um corrupto, podia ir para a cadeia.

Mas se a censura impediu de conhecer os detalhes da podre corrupção que corria solta na ditadura, o que sabemos, com certeza, é de o regime militar promoveu a maior farra das empreiteiras já vista em nossa história, muito antes das farras dos governos petistas.

Ditadura e a Odebrecht
A Odebrecht está hoje no centro das investigações da Lava Jato. Mas a empreiteira sempre esteve muito próxima do poder. E essa relação começou lá atrás, na ditadura militar no governo do General Emílio Garrastazu Médici (1969 a 1974). “Quando Geisel assume a presidência da Petrobras, ainda no Governo Médici, ele passa a contratar sistematicamente a Odebrecht; quando assume a presidência do país [1974-1979], a empresa dá um salto”, explicou o historiador Pedro Campos a revista Caros Amigos.

Os números do período mostram o quanto a empreiteira cresceu. Segundo o historiador, em 1971, a empresa era a 19ª maior construtora do país; dois anos depois alcançava o terceiro lugar. Não por acaso, o primeiro projeto da Odebrecht fora do Nordeste ocorre naquele período: a construção da sede da Petrobras no Rio. Durante a década de 1970, a Odebrecht assumiu obras importantes, como o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o campus da Universidade da Guanabara (atual UERJ) e a Usina Nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Mas tudo era varrido pra debaixo do tapete. Manifestações e greves foram proibidas, e a imprensa foi censurada. E aqueles que corajosamente desafiaram o regime sofreram prisões e torturas. Se existisse uma ditadura militar no Brasil hoje, esses grupelhos não poderia fazer nenhum de seus protestos “contra a corrupção”, simplesmente poque isso estaria proibido. E se fizessem, seriam presos e torturados.

Manifestantes ocupam Câmara por "intervenção militar". Foto: Agência Brasil
Manifestantes ocupam Câmara por “intervenção militar”. Foto: Agência Brasil

Ditadura e crise econômica
Outra lenda propagada pelos grupelhos de extrema direita é de que na ditadura não havia crise econômica. De fato, os anos entre 1968 e 1974 foram marcados pelo chamado milagre econômico. Na época, a economia crescia com taxas acima de 10% ao ano. O ministro da Economia da ditadura, Delfim Netto, dizia que era preciso fazer o bolo crescer para depois reparti-lo. Mas o bolo cresceu e nunca foi dividido. Na verdade, houve um aumento da desigualdade social. Os 10%, mais ricos que detinham 38% da renda em 1960, chegaram a ter 51% da renda em 1980. Já os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, caíram para 12% vinte anos depois. O salário também foi achatado. Em 1974, o poder de compra do salário representava a metade do que em 1960.

O crescimento da economia só aconteceu porque as empresas e as multinacionais foram fazendo empréstimos em bancos do exterior. Depois, foram as estatais que pegaram empréstimos lá fora. O resultado de tudo isso foi o endividamento brutal do país. Durante a ditadura, a dívida externa passou de cerca de US$ 3 bilhões, em 1964, para US$ 100 bilhões, em 1984.

Assim, a ditadura levou o país a uma tremenda crise econômica. O resultado foi a explosão da revolta social que nem mesmo os militares conseguiram impedir. Em 1984, o povo realizou os maiores protestos da história com as campanhas das “Diretas Já”.Poucos anos depois, a ditadura caiu.

Quem defende a volta dos militares não sabe o que fala. Mas o povo não esquece. Ditadura nunca mais!