Vôo 93: terrorismo cinematográfico

Em cartaz no Brasil há cerca de um mês, o filme “Vôo United 93” já levou 40 milhões de pessoas aos cinemas de todo o mundo. Dirigido pelo inglês Paul Greengrass, o filme conta a “história” do avião que, em 11 de setembro de 2001, deveria atingir a capital norte-americana e, supostamente, foi derrubado numa área deserta pelos próprios passageiros que, já informados sobre os atentados contra o World Trade Center e o Pentágono, decidiram sacrificar suas próprias vidas para evitar um mal maior.

Primeira grande produção hollywoodiana a abordar diretamente o 11 de setembro, “Vôo 93” é um filme, no mínimo, complexo. Em primeiro lugar, seu diretor não é simplesmente um fanático pró-imperialista com uma câmera na mão. Em seu eclético currículo, Greengrass tem, por exemplo, o excelente “Domingo Sangrento” (2002).

Afirmar que o filme é “complexo”, contudo, não quer dizer seja “bom”, muito menos que “Vôo 93” seja um filme isento de posturas políticas, como a maioria da imprensa tem defendido. Muito pelo contrário. De forma um tanto sutil, mas poderosa, o filme de Greengrass abriu oficialmente a temporada de produções cinematográficas dedicadas a reconstituir os atentados de 11 de setembro sob uma perspectiva que mesmo que não seja escancaradamente pró-ianque é abertamente anti-islâmica.

Barbárie versus civilização
É evidente (para qualquer um que tenha o mínimo senso de humanidade, pelo menos) que qualquer filme que retrate os episódios daquele dia retrate as vítimas da tragédia com simpatia e respeito. Afinal, a quase totalidade dos que morreram nos vôos e nas Torres eram trabalhadores que nada tinham a ver com os desmandos de Bush e sua laia.

No entanto, partindo desse pressuposto óbvio, Greengrass se utilizou de todas as técnicas cinematográficas possíveis para construir um discurso em que a “humanidade” e desespero das vítimas se contrapõem à “insanidade” e “irracionalidade” dos terroristas.

Chama a atenção, por exemplo, o fato de que em praticamente nenhum momento é dado ao espectador a possibilidade de saber o que os árabes falam. Como se fossem “bárbaros”, vindos diretamente de uma “pré-história” onde não se tinha domínio da língua, todas as falas dos terroristas não são legendadas.

Além disso, suas ações parecem ser motivadas única e exclusivamente por um insano e assassino fanatismo religioso. Uma religiosidade, é importante lembrar, totalmente desqualificada, se comparada com a cristianismo. Algo que fica evidente já no primeiro plano do filme que opõe as orações “ininteligíveis” dos árabes a uma enorme placa onde se lê “God Bless America” (Deus abençoe os Estados Unidos).

Diga-se de passagem, há um pequeno (e absurdo) detalhe no filme, utilizado para, de certa forma, justificar o fracasso da missão. Ainda na sala de embarque vemos o principal dirigente dos terroristas ligando para alguém num celular e dizendo simplesmente “Eu te amo”. Não por acaso é o “vacilo” desse personagem que acaba criando as condições para que os demais passageiros se informem sobre a onda de atentados e decidam tomar o avião. Ou seja, é exatamente por ter algum “desvio humano” que o terrorista acaba se demonstrando incapaz de atingir seu objetivo.

Neste mesmo sentido, também não foram poucos os críticos (inclusive norte-americanos) que apontaram para o fato de que, no filme, o único passageiro que se opõe à ação dos passageiros seja um alemão, que se acovarda, servindo como patético contraponto para o desesperado heroísmo que contamina os verdadeiros representantes dos ideais norte-americanos (assim na Segunda Guerra, como o absurdo episódio sobre o alemão pretende insinuar) .

Hiperrealismo a serviço da ficção
Para qualquer um que goste de cinema (particularmente de ação, ou seja, o grande público), “Vôo 93” é pra lá de cativante. Feito quase que exclusivamente com câmeras na mão e ambientado em apenas três cenários (o avião, a torre de comando e uma base militar), o filme é recheado de cenas ultra ágeis, embaladas sempre por uma trilha musical igualmente tensa, que prendem a atenção da platéia durante os 91 minutos da ação (exatamente o mesmo tempo que o avião permaneceu no ar).

Os atores, por sua vez, são todos desconhecidos do grande público, o que serve como estratégia para representar os passageiros como “gente como a gente” e produzir o desejado efeito de heroísmo coletivo e não centrar a ação e algum personagem em particular.

Também é de forma hiperrealista que a ação em terra é registrada, dando abertura para o questionamento do completo despreparo da segurança norte-americana. A situação na torre de comando e na base militar é, no mínimo, caótica. Uma confusão que parece ter como objetivo afastar qualquer hipótese de que o avião tenha sido, na verdade, abatido por um caça norte-americano, como muitos suspeitam até hoje.

O pior ainda está por vir
Um detalhe dos bastidores do filme e uma longa série de filmes que estão para ser lançados revelam que Hollywood apenas começou a destrinchar seu terrorismo ideológico baseado nos atentados. Originalmente, o filme de Greengrass acabaria com a frase “E a guerra norte-americana contra o terror começou…”.

Na edição final, o letreiro foi substituído por “Dedicado à memória de todos aqueles que perderam suas vidas em 11 de setembro de 2001”, o que, contudo, não esconde a verdadeira metáfora construída pelo filme: os passageiros do “Vôo 93” foram os primeiros, segundo o próprio diretor, a reagir, da forma que puderam, ao “eixo do mal”.

Que os passageiros tenham sido motivados por um mais que justificado instinto de sobrevivência parece, no filme, ser um mero detalhe. O que ganha destaque é heroísmo destas pessoas e a certeza de estarem lutando para salvar a capital dos Estados Unidos e, acima de tudo, os “valores democráticos”. Ou seja, o que temos no fim da história são os primeiros “mártires” de uma Santa Cruzada. Um discurso que, nas mãos dos diretores e produtores de Hollywood, pode e deve fazer coro com a farsa montada por Bush e seus aliados para justificar o genocídio que vem sendo praticado mundo afora.

Algo que, certamente, também estará presente na superprodução “As torres gêmeas”, que estréia no final de setembro e terá sua ação centrada na ação dos bombeiros e policiais de Nova York.

Aliás, uma nota final (e um tanto irônica) para esta história, que dá um pouco a dimensão da hipocrisia de Hollywood, foi o episódio envolvendo o ator Lewis Alsamari, que personificou o líder dos terroristas. Nascido no Iraque (de onde desertou em 1993) e vivendo atualmente como asilado na Inglaterra, Alsamari teve seu visto negado pela Imigração dos EUA quando tentou viajar para o lançamento do filme, em Nova York.