Volks diz que vai fechar fábrica no ABC

Foi com muito ódio e indignação que os metalúrgicos da Volkswagen de São Bernardo do Campo receberam o ultimato dado pela direção da empresa para que aceitem as propostas de demissão.

A multinacional alemã quer demitir 3700 funcionários até 2008, reduzindo seus custos na ordem de 25%. Além disso, quer impor o aumento do convênio médico aos metalúrgicos e o conceito de re-trabalho, ou seja, o trabalhador fica duas horas por dia após o expediente sem receber caso cometa algum erro, além da diminuição do salário de ingresso e aumento do tempo para nove anos para se equiparar com os trabalhadores mais antigos.

Início das instalações
A Volkswagen instalou-se no Brasil em 1953. Sua primeira fábrica foi em São Paulo, no bairro do Jabaquara. Nessa época, a produção era de apenas cinco carros por dia. Atualmente, a Volks é a maior produtora de veículos do país, com mais de 600 mil carros produzidos por ano, sem contar os CKDs (carros desmontados para exportação) e as peças de reposição. Seu faturamento no ano passado foi de R$ 8 bilhões.
Neste segundo trimestre, os lucros da empresa aumentaram em 150%, se comparados ao mesmo período do ano passado. O lucro passou de 333 milhões de euros para 856 milhões. No entanto, a Volks, que na década de 80 já teve 40 mil trabalhadores só na planta da Anchieta (ABC), hoje tem pouco mais de 21 mil funcionários nas cinco plantas.

Com suor e sangue dos trabalhadores do ABC, a Volks construiu quatro novas fábricas localizadas no Paraná, sendo a segunda planta mais produtiva do mundo, além de São Carlos e Taubaté, ambas no interior de São Paulo, e Resende (RJ).

Recuo do BNDES
A Volks vem fazendo a sua reestruturação com dinheiro emprestado pelo BNDES. Para se ter uma idéia, nos últimos dez anos, entre os governos de FHC e Lula, a empresa recebeu R$ 3,7 bilhões de empréstimos públicos. Nesse mesmo período, reduziu o número de funcionários no ABC de 26 mil para 12 mil.

Agora estava anunciado um financiamento do BNDES de R$ 497,1 milhões. Ou seja, o governo Lula estava disposto a emprestar as balas para a empresa atirar no trabalhador. Como produto da luta dos metalúrgicos da Volks, o governo e o BNDES tiveram que recuar na última hora na concessão do empréstimo, “até que se concluam as negociações da empresa com os trabalhadores”.

O papel de Lula e de Marinho
É vergonhoso o papel que o governo vem jogando no episódio das demissões, não fazendo nada para impedir os cortes. O governo poderia editar uma medida provisória proibindo as demissões. Porém, faz o contrário e chega ao cúmulo do ministro do Trabalho, Luiz Marinho (aliás, funcionário da Volks), dizer que não é problema a fábrica sair do ABC, pois a empresa continuará no Brasil.

Por trás dessa traição está o financiamento das campanhas eleitorais. No dia 23, o ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, promoveu um jantar em sua casa com os pesos pesados da economia e Lula. Estava presente o presidente da Volkswagen, Hans-Christian Maergner. Essa é a prova maior da traição. Enquanto Hans diz que, se os trabalhadores não aceitarem o que ele quer, vai fechar a fábrica, Lula junto com Marinho janta com ele para arrecadar dinheiro para sua campanha.

A história se repete com tragédia
Desde 1997 a Volks vem reduzindo seu quadro. Naquele ano a empresa queria demitir 7 mil trabalhadores. A direção do sindicato aceitou a chantagem e, a cada dois anos, a empresa faz a mesma coisa. Foi assim em 2001, quando demitiu 3 mil. O mesmo aconteceu em 2003, quando queria demitir 2.900 e demitiu 2 mil, ficando 900 no CFE (Centro de Formação de Estudante). Todos os anos são abertos PDV’s. Os trabalhadores da Volks são os únicos no ABC que têm redução de 15% nos salários. Quando fazem semana de quatro dias, têm banco de horas e de dias. Vários setores foram terceirizados. Todo esse sacrifício era para garantir o emprego. Está mais do que provado que os acordos de parceria feitos com a empresa não garantiram isso.

Direção do sindicato é vÍtima da sua própria armadilha
Quando a direção da Volks comunicou a intenção de demitir 6 mil, a primeira resposta da direção do sindicato foi unificar o movimento, o que era correto. Mas depois mudou de rumo e se recusou sistematicamente a unificar a luta com os trabalhadores da General Motors. Como é um ano eleitoral, não quis mobilizar os trabalhadores, pois isso atrapalharia Lula.

Por várias vezes a oposição cobrou que a direção do sindicato mobilizasse os trabalhadores, mas eles fizeram vistas grossas. No meio da luta, o sindicato fez um acordo em separado em Taubaté, dividindo o movimento e isolando os trabalhadores do ABC e do Paraná. A empresa percebeu o vacilo da direção e está fazendo o ultimato: se não aceitarem o que ela quer, vai fechar a fábrica do ABC. Nos últimos dias, o máximo que a direção do sindicato fez contra as demissões foi rezar no pátio da empresa. Os trabalhadores, desconfiados da direção do sindicato, diziam que ela já está trazendo os padres para dar a extrema-unção.

Preparar a resistência
Os metalúrgicos já demonstraram que têm disposição de luta. No ano passado, travaram uma dura queda de braço contra a empresa, fazendo 21 dias de greve. Esse movimento passou por cima da direção, que não queria a greve. Na recente assembléia feita no pátio da empresa, com mais de 10 mil trabalhadores, ficou evidente o ódio de todos contra a Volks.

Os trabalhadores votaram que a direção do sindicato pode negociar, mas não pode entregar direitos nem aceitar demissões.

A direção tem que preparar os trabalhadores para lutar pela redução da jornada sem redução de salários. Essa luta já se deu em vários países da Europa e foi vitoriosa. É necessário unificar todos os trabalhadores das plantas do Paraná, São Carlos e, caso a empresa mantenha a proposta indecente, a resposta é uma só: greve.

Só estrangulando a produção os trabalhadores poderão ser vitoriosos. A direção tem a obrigação de exigir de Lula que se posicione sobre as demissões, pois ele como governo tem responsabilidade sobre o emprego.

No último final de semana, foi realizada uma plenária com mais de 400 trabalhadores. Todos repudiaram as demissões e defenderam que o sindicato deve se preparar para a luta. A oposição propôs uma luta pela redução de jornada de trabalho, sem redução salarial, e que o sindicato deveria exigir do governo uma MP contra as demissões. No dia 28, a direção da empresa entregava cartas aos metalúrgicos comunicando que vai demitir. No dia 29 será realizada uma nova assembléia para definir os rumos do movimento.
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