Violência no Rio: a PM sem cortes ou efeitos especiais

Assassinato de líder do AfroReggae e atuação da polícia choca população e mostra o verdadeiro caráter da PMNo dia seguinte à derrubada de um helicóptero da polícia por traficantes no Rio de Janeiro, um crime causou ainda mais estarrecimento. Um dos coordenadores da ONG AfroReggae, Evandro da João da Silva, foi assaltado e assassinado na noite de domingo, no centro da capital carioca.

O coordenador da ONG mais conhecida no Rio levou um tiro e teve a jaqueta e o tênis levados pelos assaltantes. O crime, que por si só já era chocante e mostrava o caos da violência urbana na cidade, causou ainda mais perplexidade com a divulgação de imagens das câmeras de segurança próxima ao local.

As imagens estarrecedoras revelam um crime bárbaro seguido de outro. Primeiro, Evandro caminhando e sendo perseguido por dois assaltantes. Os bandidos rendem a vítima, atiram e roubam seu tênis e jaqueta. Em seguida, outro crime ainda pior. As câmeras mostram uma viatura da polícia passando ao lado da vítima baleada. Os policiais não socorrem Evandro e, mais à frente, abordam os assassinos.

A polícia sem cortes
As cenas que se seguem mostram a verdadeira cara da polícia, sem cortes ou efeitos especiais. Após alguns minutos com os assaltantes, os policiais simplesmente liberam os bandidos. Em seguida, um dos policiais calmamente pega a jaqueta e os tênis de Evandro e os colocam na viatura.

Os objetos roubados de Evandro nunca foram apresentados á polícia. Ou seja, os policiais, além de não prestarem socorro à vítima e terem deixado os assassinos livres, roubaram os pertences do coordenador da ONG.

Desvio de conduta?
No dia 22 a PM divulgou as identidades dos policiais envolvidos no crime. São eles o cabo Marcos de Olivera Salles e o capitão Denis Leonard Nogueira Bizarro. Ambos cumprem prisão administrativa. O comando da PM, porém, nega-se a reconhecer o crime praticado pelos policiais.

O porta-voz da PM, major Oderlei Santos, classificou o crime dos policiais como um mero “desvio de conduta”. “Nós trabalhamos com a hipótese de desvio de conduta por que ainda não recebemos as imagens aqui no 13º BPM. Ainda não podemos dizer que um crime foi cometido, pois ainda precisamos saber o que os policiais militares envolvidos alegam”, disse o major em entrevista à Globo News.

A declaração foi tão escandalosa que o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB) determinou a exoneração do major. As declarações de outras autoridades, porém, não destoou. O comandante-geral da PM no estado, coronel Mário Sérgio Duarte, afirmou que houve um “erro” da polícia. PM errou, trabalhou mal. Temos que ser maduros e profissionais suficientes para admitir o erro. É imperativo pedir desculpas”afirmou. As falas negam o que de fato houve: um crime bárbaro perpetrado pela polícia.

Política fascista de segurança
Para Ciro Garcia, da direção do PSTU no Rio de Janeiro, esse crime mostra o perfil corrompido da polícia. “Uma parte da polícia é tão bandida quanto os próprios bandidos”, afirma. Para ele, o caso se inscreve um contexto mais geral da política de segurança do governo. “O que existe hoje é uma política de segurança pública fascista encabeçada por Sérgio Cabral e o secretário de segurança Beltrame, se tem a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, o que acarreta o aumento da própria violência”, denuncia.

A população pobre é triplamente vítima dessa política. De um lado a polícia e de outro as milícias e os traficantes, que se tornam verdadeiros poderes paralelos devido à ausência do Estado.

Para Ciro, o problema da segurança pública não pode ser dissociado de políticas como investimentos em serviço público e infra-estrutura, além, é claro de passar pela questão das drogas. “Temos que discutir a descriminalização das drogas, acabar com essa política hipócrita de repressão, porque os maiores beneficiados são os grandes tubarões, não é o traficante no morro”, afirma.

Com relação à polícia, explica Ciro, é necessário garantir salários dignos aos policiais, além de uma profunda alteração de seu atual caráter de classe. “Defendemos a desmilitarização da polícia, sua unificação, que eles tenham direitos como sindicalização e, mais importante, seu controle pela própria população, através de conselhos populares”, defende.

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