Vinte anos depois,Drummond é moderno e eterno

“Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Assim iniciava o “Poema de sete faces”, no primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “Alguma Poesia”. “Gauche”, palavra importada do idioma francês, significa desajeitado, à esquerda, que não se adapta.
Os poetas, em geral, ‘são gauches’, percebem o mundo de forma mais sensível e nele não se adaptam, exprimem em versos esse sentimento de nadar contra a maré. Apelidado de ‘urso polar’, por sua timidez e distanciamento da imprensa, Drummond de Andrade se autodefinia como um burocrata que fazia versos.

Drummond, mais do que desenvolver o modernismo, deu nova cara a este movimento no Brasil, sendo ‘gauche’ na forma e nos muitos temas pelos quais percorreram seus versos. Escreveu a saudade de sua cidade natal, a mineira Itabira, retornou em versos à sua infância, escreveu sobre as lutas, os homens e a política, também sobre o amor e seu erotismo.

Foi “uma pedra no meio do caminho” de muitos, criticado pela forma livre de seu verso, por seus posicionamentos políticos polêmicos. Depois, foi aclamado como o maior poeta brasileiro. Em agosto de 2007, vinte anos após sua morte, o reconhecimento de sua grandeza e as influências sobre poetas das atuais gerações são inegáveis.

Dias antes de morrer, em entrevista concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto, Drummond diria que “tenho a impressão de que daqui a vinte anos – e eu já estarei no Cemitério São João Batista – ninguém vai falar de mim, graças a Deus”. Não poderia estar mais equivocado.

Trouxeste a chave?
A poesia moderna de Drummond é marcada pelo verso livre, por uma linguagem direta, uma quase-crônica. Usa de forma bela e sutil as figuras de linguagem, as metáforas e metalinguagens, as alegorias e alusões.

A metalinguagem, a poesia que fala sobre a própria poesia, sempre foi arma do verso modernista, já que este era um movimento de contestação às tradicionais formas poéticas e artísticas e suas métricas, rimas, arcaísmos e erudições.
Em “Poesia”, Drummond fala sobre a própria para, num paradoxo profundo, explicar a poesia que, de tão intensa, não cabe no papel: “Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever./ No entanto ele está cá dentro/ inquieto, vivo./ Ele está cá dentro/ e não quer sair./ Mas a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira”.

A metáfora repetitiva de “No meio do caminho” incomodou os críticos. Outra mais nostálgica está em: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara./ Sem uso,/ ela nos espia do aparador”.

A rosa do povo
Drummond viveu em um período histórico polarizado politicamente, o século XX. Havia o stalinismo na União Soviética, a Segunda Guerra e a Guerra Fria, e no Brasil o poeta passou pelo Estado Novo e pela ditadura militar. Desde sua juventude até seus últimos dias, ele nunca teve um posicionamento político muito definido e criou inimigos políticos por todos os lados.

Quando adolescente, foi expulso do colégio dos jesuítas por “insubordinação mental”. Na juventude, se disse anarquista e participou de um protesto contra o aumento do ingresso do cinema para os estudantes em Belo Horizonte, que terminou com o incêndio de um bonde.

Já homem formado, era chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, do Estado Novo, não por alinhamento político com o regime, mas pela amizade que tinha com Capanema desde a infância. Ao mesmo tempo, foi simpatizante do Partido Comunista, chegando a integrar seu jornal, Tribuna Popular, em 1945. Resolveu sair quando os membros do partido censuraram uma nota escrita por ele. Logo foi taxado de traidor do povo pelos comunistas.

Por outro lado, tinha sido fichado no DOPS como “nocivo ao bem-estar pátrio” e era odiado pelos anticomunistas. Mas, segundo a própria declaração do poeta a Geneton, com o passar dos anos, “a coisa foi se regularizando e passei a ser um pequeno-burguês bastante bem-comportado”.

Toda essa trajetória pessoal política confusa não impediu Drummond de usar seus versos para atacar o capitalismo, suas guerras e sua exploração. A obra que mais expressa tais posicionamentos é “A rosa do Povo” (1945).
No poema “Elegia 1938”, há a desesperança: “Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota/ e adiar para outro século a felicidade coletiva./ Aceitas a chuva, as guerras, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan”.

Já em “Nosso Tempo”, vence a resistência: “As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra”. Também em “A flor e a náusea”, a luta brota como flor teimosa: “É feia./ Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

O amor desnudo
Nos momentos em que não empunhava a “rosa do povo”, Drummond tematizava também o amor e a infância, com as recordações da Itabira. Mas a infância não era apenas o tema de livros como “Boitempo”, era também a estética, a forma de olhar o mundo com os olhos cândidos infantis, com as memórias recortadas e coladas de uma infância ida. “Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói”, versava. A infância se fez presente desde sua primeira obra, com o poema “Infância”, no qual ele, menino, compara sua vida na fazenda com a do personagem Robinson Crusoé.

Drummond transitou brilhantemente seus versos do universo político da época, para a infância, para o amor (tema universal da poesia), para o erótico. Em “As sem-razões do amor”, o itabirano fala sobre esse sentimento indecifrável e indefinível. E o amor de Drummond também foi dito em versos bem-humorados: “João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava/ Joaquim que amava Lili…”. Já em sua obra postumamente publicada “Amor natural”, o poeta leva o amor e seus versos à alcova, desnuda-o, erotiza-o, sem vulgarizá-lo.

Eterno gauche
O poeta ‘gauche’, de vasto coração, que cantou a infância, o amor, a luta, não conseguiu mais viver ou fazer versos após a morte de sua filha e grande companheira Maria Julieta, em agosto de 1987, vítima de câncer. Poucos dias depois, Drummond faleceu de problemas cardíacos, ou de tristeza.
Apesar de ter dito que achava que ninguém mais falaria dele após 20 anos, Drummond também escreveu em certa ocasião: “Ficou chato ser moderno./ Agora serei eterno”. Ele disse depois que isso era uma brincadeira. Mas, de fato, em 2007, Drummond permanece moderno e presente, eternizado.

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