Vale prepara milhares de demissões

Segunda maior mineradora do mundo se prepara para ser a primeira, demitindo em massaNo dia 31 de maio, acaba o acordo de licença-remunerada na Vale. Somente 1.300 funcionários estiveram nessa licença, a maioria no estado de Minas Gerais. Ao todo, 6.500 funcionários tiveram férias coletivas.

Desde o início da crise econômica mundial, a Vale demitiu cerca de 2 mil trabalhadores diretos e 12 mil terceirizados, de um total de 120 mil trabalhadores em todo o mundo, sendo a metade terceirizada.

Nos dias 21 e 22 de maio, a empresa está convocando os sindicatos para informar sua política para o próximo período. Em reuniões preliminares, a Vale confirmou demissões massivas em alguns lugares.

Vale alega queda na produção e nos preços
A queda de 45% de aço bruto no mundo em 2008 levou a empresa a cortar a produção de minério de ferro de 295 milhões de toneladas no ano passado para uma meta de 200 milhões em 2009. Só no primeiro trimestre de 2009, a Vale produziu 37% menos minério de ferro. A empresa está comercializando o minério com preços 20% menores.

Com a crise, a empresa paralisou parcialmente ou totalmente as minas improdutivas. Quatro foram paralisadas em Minas. Está deslocando a produção de minério de ferro de Minas para Carajás, no Pará, onde o produto tem teor mais alto de ferro. A Vale paralisou minas de níquel no Canadá e na Indonésia. Também diminuiu a produção de minério de ferro, manganês, níquel, alumínio e caulim.

Situação é excelente
A Vale é uma das empresas mais rentáveis do mundo. Para fazer uma comparação, o lucro líquido dela em 2008 foi o equivalente a 50 vezes o lucro líquido da Embraer no mesmo período e 220 vezes o lucro líquido da GM do Brasil no primeiro trimestre de 2009.

As vendas batem recordes desde 2002 e o EBTIDA, lucro operacional antes das despesas financeiras, que reflete a criação líquida de valor por parte dos trabalhadores, é de quase a metade do faturamento. Os acionistas recebem todo ano, no mínimo, R$ 5,5 bilhões.

A situação das suas concorrentes é drástica. A anglo-australiana Rio Tinto, segunda maior produtora de minério de ferro do mundo, tem uma dívida superior ao seu valor de mercado. Ela pretende demitir 14 mil funcionários e está sendo adquirida pela Chinalco, mineradora chinesa. A maior mineradora do mundo, a BHP, também anglo-australiana, está fechando minas e demitindo 6 mil trabalhadores. Seu lucro líquido caiu 56% em 2008 e ela teve uma queda grande no seu valor.

A Vale poderia argumentar que os resultados de 2008 ainda não refletiam a crise. Porém o balanço financeiro do primeiro trimestre de 2009 revela que, apesar de haver uma queda de 9% no faturamento, o lucro líquido caiu somente 1%.

Por isso, no relatório anual de 2008, a direção afirma: “A Vale está preparada para superar o ciclo de baixa tendo em vista seus ativos de alta qualidade e baixo custo e sua solidez financeira”.

Se a situação da empresa é excelente, por que a Vale realizará demissões em massa?

No mesmo documento de 2008, a Vale informa a seus acionistas: “Durante o ciclo expansionista, a maximização da produção foi fundamental para a maximização de valor, e conseguimos expandir nossa produção agregada a uma taxa média anual de 11,2% desde 2003. No cenário atual, a prioridade se alterou para a minimização de custos como uma importante ferramenta para a criação de valor e estamos perseguindo esse objetivo através de inúmeras iniciativas para reduzir custos operacionais e de investimentos. (…)

Nossa visão é ser a maior empresa de mineração do mundo (…). Continuamos a rever as oportunidades de fazer aquisições estratégicas e focamos em disciplina da gestão de capital, a fim de aumentar o retorno sobre o investimento e retorno total aos nossos acionistas.”

Seguindo essa estratégia, desde dezembro de 2008 a Vale gastou cerca de R$ 4,8 bilhões adquirindo minas na Colômbia, Argentina, África, Canadá e Brasil.

A empresa demitirá massivamente trabalhadores para cortar custos e manter muito dinheiro em caixa e fazer compras de minas estratégicas, diversificando seus produtos para se tornar a maior mineradora do mundo.

Estima-se que o corte na produção do minério de ferro da Vale em 2009 será de 25%. Somente neste primeiro trimestre, a queda foi de 37%.

Isso, provavelmente levará, a Vale a demitir aproximadamente 20% da sua força de trabalho, isto é, cerca de 10 mil funcionários, principalmente em Minas Gerais.

Consequências drásticas
O trabalhador da Vale é muito produtivo. Em seis horas de trabalho, ele paga seu salário mensal, com encargos e tudo. Os gastos com mão-de-obra representam apenas 6% do faturamento da empresa.

Para cada demissão na Vale, segundo o Serviço Geológico Brasileiro, serão 13 empregos perdidos na cadeia produtiva. Caso se comprove a demissão de 10 mil trabalhadores, serão 150 mil demitidos no total.

Além disso, a empresa é responsável por 79% da produção de minério de ferro do Brasil. “As exportações líquidas da Vale responderam por 65,2% do superávit da balança comercial brasileira em 2008”, segundo seu relatório anual.

Para os municípios mineradores, principalmente em Minas, onde se concentram 80% dos cortes produtivos da Vale, as consequências são trágicas. A arrecadação de royalties da mineração no município de Congonhas, em dezembro de 2008, caiu de R$6,5 milhões para R$1,7 milhão.

Grandes municípios mineradores como Itabira, Barão de Cocais, Itabirito, Mariana, Congonhas, Ouro Preto e Nova Lima tiveram uma queda de arrecadação média de 23% no primeiro trimestre de 2009. O significado disso para cidades que dependem essencialmente da mineração é uma queda abrupta nos recursos.

Sacrifício para garantir lucros de bancos
No mínimo, 61% das ações da Vale estão em mãos estrangeiras. Porém esse número certamente é maior, pois na Valepar, consórcio que controla a Vale, a Mitsui, que é um grande conglomerado japonês, possui 23% das ações. Além disso, dos investidores na Bovespa, a maioria é estrangeira.

Porém é necessário identificar quem são esses investidores estrangeiros. Na ata da assembleia de 16 de abril, aparecem os nomes de vários acionistas estrangeiros. Entre esses investidores estão grandes bancos internacionais como o Citibank, um dos maiores do mundo e outro grande, o HSBC. Também o JP Morgan Chase Bank, um dos maiores dos EUA e que movimenta uma carteira de US$ 2,3 trilhões. O Barclays Global Investors, grande banco da Inglaterra, cujos fundos movimentam US$ 2,8 trilhões. O Fidelity Management, maior fundo mútuo dos EUA, com US$ 1,6 trilhão em carteira. O Vanguard Emerging Markets, nono maior fundo dos EUA, com US$ 1,3 trilhão. O Morgan Stanley, dos EUA, que opera US$ 779 bilhões em 33 países. O Templeton, dos EUA, que opera em 30 países com US$ 411 bilhões, e assim por diante.

São esses especuladores internacionais que determinam a orientação de negócios para Roger Agnelli, que gerencia a Vale a serviço de grandes bancos estrangeiros no Brasil. Curiosamente, são praticamente os mesmos fundos de investimentos que são donos da Embraer.

Bilhões para acionistas e Mega-Sena a executivos
Apesar da crise, os acionistas da Vale aprovaram na sua assembleia geral de abril manter o pagamento de R$ 5,7 bilhões para eles mesmos este ano. É o mesmo pagamento efetuado em 2008, ano recorde para a empresa.

Essa mesma assembleia aprovou um pagamento anual de R$ 70 milhões como honorários aos seis diretores executivos da empresa. Isso significa uma Mega-Sena para cada diretor, ou R$ 13 milhões por ano.

Esses mesmos executivos informam, no relatório anual de 2008, perdas com a especulação financeira em derivativos: “mudanças cambiais nos levaram a reportar lucros (perdas) em moedas estrangeiras da ordem de US$ 1,011 bilhão…”.

Post author Nazareno Godeiro, de Belo Horizonte (MG)
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