Vale e Embraer, duas batalhas

Toda a campanha que afirma que o pior da crise econômica já passou vai sofrer duros golpes da realidade no próximo período. Os dados do primeiro trimestre deste ano na Europa e em todo o mundo confirmam que a crise está se agravando e não acabando como dizem a mídia e o governo.

Serão divulgados no início de junho os dados da evolução do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre. É inevitável que se constate o que estamos dizendo desde o início do ano: o país já está em recessão aberta. Os dois trimestres sucessivos de queda na produção são uma comprovação categórica disso.

Por outro lado, grandes empresas já estão ameaçando demissões em massa. A Vale é uma delas. A Embraer já demitiu 4.270 trabalhadores em fevereiro, o que originou uma grande campanha nacional da Conlutas, posteriormente construída em unidade de ação com outras centrais. A Vale ameaça, agora, demitir 15 mil trabalhadores, algo que deve gerar uma campanha ainda maior.

As demissões revelam que a privatização dessas duas empresas foi um verdadeiro atentado contra o povo brasileiro.

A Embraer foi privatizada em 1994 por R$ 154 milhões. Seu valor real hoje é de pelo menos R$ 17 bilhões – cem vezes maior do que preço pelo qual foi vendida. Em apenas um semestre, o primeiro de 2008, a Embraer teve lucros de R$ 240 milhões, ou seja, bem mais que seu preço de venda. Distribuiu dividendos de R$ 50 milhões a 12 de seus executivos (R$ 6 milhões para cada). Uma verdadeira bofetada na cara dos 4.270 demitidos.

A Vale, por sua vez, foi privatizada em 1997 por R$ 3,3 bilhões, uma mamata ainda maior do que a Embraer. Em 2008 seu lucro foi de R$ 21 bilhões, quase sete vezes o preço pelo qual foi vendida. Só como dividendos para seus acionistas, a empresa vai distribuir o equivalente a mais de duas vezes seu preço de compra. Em 2008, a mineradora pagou a seis executivos cerca de R$ 13 milhões (mais que o dobro pago pela Embraer). É como se esses executivos ganhassem uma Mega Sena por ano! Agora, a empresa quer demitir 15 mil trabalhadores, o que poderá provocar mais de 200 mil demissões, levando-se em conta que cada emprego da Vale gera mais 13 em outras empresas.

A ameaça da empresa é para valer. Trata-se de uma multinacional dirigida por fundos de investimentos, algo muito semelhante à Embraer. Alguns desses fundos são exatamente os mesmos da empresa de aviões. Como o Barclays, o Templeton e o JP Morgan, que são os mesmos donos das duas empresas, assim como de centenas de outras companhias mundo afora.

Como resultado do plano neoliberal bancado pelos governos do PSDB e mantido por Lula, empresas estratégicas do país foram entregues ao capital estrangeiro, que decidem o que fazer com a economia sem nenhum compromisso com o país.

As demissões na Vale podem significar desastres ainda maiores do que as demissões na Embraer. As demissões na mineradora levarão várias cidades que dependem economicamente das minas à falência completa.

O único objetivo que move esses fundos é o de conseguir mais e mais lucros. O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos já demonstrou como seria possível manter os 4.270 trabalhadores da Embraer. Bastaria reduzir uma parte dos fabulosos lucros da empresa.

Isso é ainda mais escandaloso no caso da Vale, que tem em caixa mais de US$ 12 bilhões, o suficiente para pagar todos os funcionários da empresa por seis anos. Não existe, portanto, nenhuma necessidade de demitir 15 mil trabalhadores.

Assim como na Embraer, o governo Lula pode impedir as demissões. O governo tem a chamada ação Golden Share, isto é, o poder de veto sobre algumas decisões da empresa. O presidente pode usar esse instrumento, por exemplo, para evitar as demissões.

É preciso uma grande campanha unitária contra as demissões na Vale e pela reintegração dos demitidos da Embraer. Um dos instrumentos para isso é o abaixo-assinado lançado pela Conlutas, que inclui a defesa da reestatização da Embraer e da Vale.

Também está sendo organizada uma grande mobilização para o dia 2 de junho nos portões da Vale. Além disso, um novo dia nacional de luta está sendo preparado para a primeira semana de julho, num chamado unitário da Conlutas e Intersindical, por um lado, e da CUT e Força Sindical, por outro.

Está na hora de começar outro capítulo na luta contra as demissões no país.

Post author Editorial do Opinião Socialista Nº 378
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