Uma questão de etnia e classe

Durante as recentes mobilizações na Bolívia boa parte da imprensa nacional e estrangeira insistia em chamar o processo de uma “sublevação indígena” contra o governo. Esta é uma “meia-verdade” com o propósito de ocultar o verdadeiro caráter da revolução que sacudiu o país. Se é um fato que a grande maioria dos manifestantes — e dois dos principais dirigentes, Evo Morales e Felipe Quispe — é de origem indígena (quíchua ou aymara), também é verdade que o levante teve um caráter evidentemente operário e anti-imperialista.

Dizer a verdade completa, então, seria afirmar que o que vimos na Bolívia foi a combinação da luta de nacionalidades oprimidas com a luta operária, anti-imperialista e anticapitalista. Algo que também presenciamos recentemente e do Equador.

Essa combinação de etnia e classe — ou raça e classe, no caso brasileiro — é uma questão fundamental no continente.

É muito importante e, na verdade, têm cada vez mais importância política as nacionalidades oprimidas e também minorias étnicas para as revoluções no continente.
O caso boliviano é exemplar. A maioria indígena não só se encontra entre os mais miseráveis, como também está totalmente alijada do poder. Ao saírem às ruas para derrubar Lozada, o povo também estava tentando fazer seu acerto de contas com os mais de 500 anos de opressão.

A luta pela liberação das nacionalidades oprimidas é parte fundamental, se insere e só pode ser resolvida nos marcos da liberação do Estado boliviano do imperialismo, luta que, por sua vez, só pode ser levada até o seu final se os trabalhadores tomarem o poder e avançarem para o socialismo.

Há séculos, por exemplo, são os descendentes dos colonizadores espanhóis que dominam o país, política e economicamente. Durante a rebelião, a tensão étnica ou racial ficou particularmente evidente em um episódio em Santa Cruz — a capital financeira do país e local de maior concentração da população branca — quando setores de classe média se armaram para impedir que as massas indígenas “invadissem a cidade”.

Assim como ser negro no Brasil é praticamente sinônimo de ser pobre e explorado, os ser quíchua ou aymara na Bolívia significa estar em maioria entre os desempregados, sem-terra, analfabetos, etc. E tanto lá quanto aqui, o único caminho para acabar com o racismo e segregação étnica é unir estes setores aos trabalhadores do campo e da cidade, sob um programa anti-capitalista. Esta é mais uma lição dada pelos bolivianos: uma lição de Raça e Classe.

Post author Wilson H. Silva,
da redação
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