Uma Olga para consumo

O filme ‘Olga´ estreou nos cinemas brasileiros no dia 20 de agosto e conta a história da militante comunista alemã Olga Benário que foi companheira de Luís Carlos Prestes. Dirigido por Jayme Monjardim, o filme torna-se um melodrama feito para vender`EmO capitalismo transforma tudo em mercadoria. Incorpora, dilui, deforma iniciativas e personalidades, embala tudo e coloca como mercadoria esterilizada na prateleira. Foi exatamente isso que ocorreu com Olga Benário. De militante comunista com tarefas internacionais, Olga se torna pivô de um romance melodramático nas mãos do diretor de novelas globais Jayme Monjardim.

Produzido pela Globofilmes, das Organizações Globo, e com o investimento de R$ 12 milhões, Olga chegou aos cinemas do Brasil para fazer as platéias chorarem. A Globo que produziu esse filme é a mesma que nos anos de ditadura militar proibiu a veiculação de imagens de Luís Carlos Prestes. O filme é escrito por Rita Buzzar e tem como base a obra de Fernando Morais, Olga, escrita em 1984 e que desde então já vendeu mais de 600 mil exemplares no Brasil, além de ter sido reproduzido para mais 21 países. O filme, ao enfatizar o lado romântico e dramático, prende o espectador, distanciando-se do contexto real da militante Olga.

A história real

Olga Benário, uma militante comunista judia, nasceu em 1908, na Alemanha, filha de uma família burguesa. Tanto sua trajetória, como a de Prestes, foram profundamente influenciadas pelo controle que Stalin já tinha sobre a Internacional Comunista naquele momento.

Olga entrou para a Juventude Comunista com 15 anos, tendo uma atuação política muito forte no partido alemão. Cinco anos depois, resgatou o professor comunista Otto Braun durante seu julgamento, numa ação com outros militantes. Por causa das divergências políticas com a família conservadora, Olga saiu de casa. Em 1928, foi enviada pelo partido à União Soviética, onde recebeu treinamento militar pelo Exército Vermelho. Com apenas 20 anos, Olga tornou-se dirigente da Internacional Comunista, já dirigida por Stalin. Devido ao treinamento, Olga recebeu em 1934 a tarefa de cuidar da segurança pessoal de Luís Carlos Prestes, na viagem ao Brasil para comandar o frustrado golpe de 1935. Prestes era um líder do movimento tenentista brasileiro, que aderiu ao Partido Comunista, já hegemonizado pelo stalinismo. A tentativa de golpe de 1935, articulada dentro das forças armadas, praticamente desligado do movimento de massas, foi a expressão no Brasil, de um curto período ultraesquerdista nos métodos de luta da Internacional.

O filme aborda esse conteúdo político de forma superficial e apenas em sua primeira parte, tornando-o um detalhe no romance que surge entre Olga Benário e Luís Carlos Prestes. Após o envolvimento dos dois, Olga fica grávida e ambos são presos pelo governo de Getúlio Vargas. Vargas usa o golpe frustrado de 1935 para recrudescer a segurança e reprimir a esquerda. Olga e Prestes são presos e o governo brasileiro envia Olga grávida de presente ao governo nazista de Hitler. Ela protagoniza uma campanha para ter seu filho no Brasil e não ser deportada. A campanha não funciona e a mãe de Prestes passa a fazer uma campanha internacional por Olga e pela criança, depois da deportação. A partir daí, ela passa por prisões e campos de concentração na Alemanha, tem sua filha em um deles, fica com ela apenas até os 14 meses e morre numa câmara de gás aos 33 anos, após torturas e trabalhos forçados.
Em sua última carta a Luís Carlos Prestes, Olga diz “Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo”. Apesar disso, o filme de Monjardim passa uma falta de perspectivas, na qual a história se encerra na tragédia. A filha de Olga e Prestes, Anita Leocádia, assistiu ao filme e reclamou da falta de perspectiva e pelo filme não mostrar a continuidade da vida política de Prestes.

Em um filme regado a lágrimas e recheado de cenas de romance, perde-se o conteúdo político da personagem. Usando uma estética televisiva, Jayme Monjardim abusa das trilhas sonoras, dos closes, planos fechados e cenas entrecortadas. O diretor deixou claro que não faria um filme político e sim um filme de amor, para o público chorar no cinema.

As cenas de sexo do casal são imbuídas de um tom celestial e mágico. A Internacional, de hino de chamado à luta e à revolução, torna-se uma canção de despedida instrumental na última cena em que o casal se vê, quando são presos.

Tudo é romance no filme. A vida real, no entanto, foi bem diferente. Depois de dez anos de prisão, Prestes apoiou e elogiou em público as “boas intenções” de Vargas, que entregara aos nazistas sua mulher grávida. Já refletia outro momento da Internacional stalinista, que abandonou o curto período ultra-esquerdista, para adotar a política das Frentes Populares, buscando alianças com “setores progressistas da burguesia”, entre os quais estaria incluído Vargas.

Filme para vender

A história mostrada no cinema faz parecer que Olga caiu de amores apenas pelo jeito tímido e sensível de Prestes. Mesmo quem não os conheceu calcularia facilmente que o que mais os aproximava eram as afinidades ideológicas. Isso fica intocado na relação dos dois no filme, que coloca as questões políticas apenas como pano de fundo do romance.

Olga teve uma produção quase hollyoodiana. Foi diluído em romance para atrair o público e vender mais. É uma superprodução com intenções de chegar ao sonhado Oscar. Com cenas impressionantes, que recriam cenários da Rússia e da Alemanha em pleno calor do Rio de Janeiro, o filme Olga preza intencionalmente pela embalagem, sendo assumidamente belo e envolvente. Porém, vale a pena assisti-lo, mesmo que para aguçar a vontade de ler a verdadeira história de Olga.
Post author
Publication Date