Um vendaval oportunista (parte II)

Debate com um dirigente do MES e do P-SOLNa edição de nº 175 do Opinião Socialista foi publicado um artigo de minha autoria intitulado `Um vendaval oportunista percorre o mundo – Sobre os caminhos da esquerda`. Nesse artigo tentamos dar uma explicação a um grave problema que a esquerda enfrenta no mundo todo: com freqüência, dirigentes e organizações de esquerda se passam abertamente para o lado da burguesia e do imperialismo.

A nosso ver, esse fenômeno se origina em função da derrota do imperialismo americano no Vietnã, em 1975, quando então muda sua tática para enfrentar os processos revolucionários. A partir de sua derrota, o governo dos EUA, junto com seus sócios europeus, começou a apelar para os mecanismos da democracia burguesa, como tática privilegiada para tentar desviar e derrotar os processos revolucionários. É o que denominamos “reação democrática”.

Esta política deu ao imperialismo importantes resultados. Conseguiu desviar, para a via morta da democracia burguesa, uma série de processos revolucionários.

Assim, sob as bandeiras da “democracia”, nos mais importantes estados operários do Leste europeu, o capitalismo foi restaurado e isso atuou de forma devastadora sobre a consciência da esquerda no mundo todo.

Antes de mais nada, os fatos
Um vendaval oportunista mereceu uma dura e extensa resposta de Pedro Fuentes, um dos principais dirigentes do MES (corrente interna do P-SOL).

Num texto intitulado Um artigo que leva ao sectarismo. Uma resposta necessária a: Um vendaval oportunista percorre o mundo, Pedro Fuentes nos acusa de criar “uma realidade artificial que nada tem a ver com os fatos concretos”.

Aparentemente, para Pedro Fuentes, a degeneração completa da Frente Sandinista de Liberação Nacional, da Nicarágua, da Frente Farabundo Martí, de El Salvador, ou dos Tupamaros, no Uruguai, não tem nada a ver com “os fatos concretos”.

Possivelmente, também considere que a degeneração de tantos dirigentes revolucionários que nos últimos anos passaram com armas e bagagens para o lado da burguesia não tem maior importância.

No Brasil, onde vive e atua Pedro Fuentes, os quadros mais importantes do governo burguês e pró-imperialista de Lula, até alguns anos atrás, faziam parte da esquerda revolucionária.

O ex-guerrilheiro José Genoíno, atual presidente do PT, era, junto com o ministro da Educação, Tarso Genro, um dos máximos dirigentes do PRC (Partido Revolucionário Comunista), uma ruptura pela esquerda do PCdoB. O atual ministro da Reforma Agrária, Miguel Rosetto, faz parte do Secretariado Unificado da IV Internacional. Os ministros Palocci e Gushiken eram da OSI, a seção brasileira do Corqui (lambertismo).

A situação mundial e a construção do partido

Em seu texto de polêmica, Pedro Fuentes aborda outros temas. Entre eles, a questão da situação da luta de classes mundial.

Este é um tema sumamente polêmico. Muitos de nossos camaradas e amigos têm dúvidas, ou diretamente estão contra essa definição. Há outros que nem sequer vêem a utilidade de uma definição desse tipo. Pedro também está contra. Mas as razões que o levam a polemizar com essa categoria são outras. Por isso, em seu texto, depois de nos criticar duramente, porque segundo ele queremos “ganhar essa vanguarda para o partido e resolver assim o problema” diz que: “essa posição dos companheiros está vinculada à caracterização que sua organização sustenta de que se vive uma situação revolucionária mundial”.

A discussão é profunda porque se lemos com atenção seu texto, vemos que sua crítica não se limita a dizer que somos auto-proclamatórios (crítica que evidentemente não compartilhamos), mas porque, em função de nossa opinião de que há uma situação revolucionária mundial, estamos chamando, de forma aberta, a construir partidos revolucionários. Pedro opina que não se deve fazer isso, já que “se abriu um espaço para a construção de alternativas políticas anticapitalistas radicais nas quais os revolucionários tenham um peso dec–isivo”.

O nome é muito bonito: “alternativas políticas anticapitalistas radicais”, mas que tipo de organizações são essas? São partidos revolucionários, bolcheviques? Evidentemente que não, porque os revolucionários, segundo o próprio Pedro, seriam só um setor. E quais seriam os outros setores, não-revolucionários? Só podem ser reformistas e centristas. Quer dizer, trata-se de construir partidos que agrupem revolucionários, centristas e reformistas. Mas poderão os reformistas e centristas agrupar-se em torno de um programa revolucionário? Isso é impossível. Nunca ocorreu na história. Essa unidade só é possível sobre a base de um programa reformista.

O que Pedro Fuentes não deixa claro em seu texto é por que, se os revolucionários teriam um peso “decisivo” (ou seja, são os que decidem) essas “alternativas políticas” não teriam como objetivo transformar-se em partidos revolucionários. A única explicação que se desprende do texto de Pedro é que seria um erro fazer isso porque a situação mundial não seria revolucionária. Ou seja, Pedro estaria defendendo um novo critério de construir partidos. Para ele, os partidos não se constroem em função das tarefas históricas, mas em função das relações de forças conjunturais. Se ele fosse conseqüente teria de fazer uma duríssima crítica a Trotsky, que fundou a IV Internacional, em 1938, num dos períodos mais reacionários da história da luta de classes.

Qual é a política central do imperialismo?

Em nosso texto, dizemos que com sua política de “reação democrática”, o imperialismo conseguiu corromper politicamente e, em muitos casos, também materialmente, a maioria dos dirigentes e organizações da esquerda reformista e revolucionária.

Apresentamos várias provas do que dissemos. Poderíamos apresentar mais 100, 200, 300 provas.

Pedro Fuentes nos responde dizendo que “no afã de explicar a capitulação de toda a esquerda o texto esquece a política militarista do imperialismo hegemônico” e dá como exemplo, entre outros, a invasão do Iraque e em relação à América Latina, fala da “sistemática política golpista em relação à Venezuela, onde, apesar de sua primeira tentativa de golpe ter sido derrotada, continua atuando a favor da desestabilização política para criar novas condições para o golpe ou inclusive uma intervenção militar latino-americana” e depois conclui: “Não hierarquizar este problema, desprezar a política agressiva e militarista do imperialismo, termina conduzindo ao oportunismo de não ter como eixo a derrota do imperialismo em países como a Venezuela. Assim, o ultra-esquerdismo na análise se transforma em oportunismo na política”.

No boxe e no futebol se diz que “não há melhor forma de defender-se que atacando”, e esse parece ser o método adotado por Pedro Fuentes. Ao invés de responder o que dissemos sobre a esquerda, ele nos acusa de não combater o imperialismo.

Ele tem razão ao dizer que em nosso texto não falamos do Iraque, da Colômbia, das mobilizações antiguerra, da Venezuela, do Haiti, da mesma forma que não falamos de uma série de outros temas importantíssimos. Não falamos sobre esses temas nesse texto, porque com ele só pretendíamos analisar “os caminhos da esquerda”. Mas se Pedro Fuentes se desse ao trabalho de analisar os materiais da LIT e do PSTU e, o que é mais importante, a atuação de ambas organizações, ficaria bastante difícil dizer que somos oportunistas porque não temos “como eixo a derrota do imperialismo”. Esta acusação é diretamente ridícula, e não fala muito a favor da seriedade de nosso severo crítico. De qualquer maneira, já que ele entrou nessa discussão sobre o “militarismo dos EUA”, é necessário fazer algumas precisões.

Nós, da LIT e do PSTU, dissemos e repetimos que existe uma ofensiva militar dos EUA. Mas também afirmamos que o imperialismo continua priorizando sua política de reação democrática.

Pedro Fuentes tem uma opinião oposta: o imperialismo estaria preparando um novo golpe na Venezuela e “uma intervenção militar latino-americana”.

A relação dos EUA com a Venezuela está mudando, depois da derrota do golpe contra-revolucionário de 2002. Tudo indica que a partir do plebiscito – um típico mecanismo democrático-burguês imposto pelo imperialismo – há uma tendência da realização de um acordo entre o imperialismo e o governo Chaves. Quanto à intervenção militar dos EUA no conjunto da América Latina, não passa de um disparate.

Por que o imperialismo invadiria o Brasil se tem o controle total do governo Lula, da oposição burguesa e do parlamento? O mesmo poderíamos dizer da Argentina, Chile, México, Equador, Uruguai, Paraguai, Peru, Bolívia, El Salvador, Nicarágua…

Se fosse verdade que estamos frente a um perigo real de invasão do imperialismo contra o conjunto da América Latina, teríamos de fazer um chamado a uma mobilização conjunta em defesa não só dos trabalhadores, mas das instituições da democracia burguesa, ameaçadas pela invasão militar imperialista. Mas como a intervenção militar dos EUA não está colocada em nossos países, não se trata de chamar a ações conjuntas com os governos e parlamentos coloniais, mas sim de chamar a ações conjuntas dos trabalhadores e do povo para derrubar esses governos e esses parlamentos coloniais que são os verdadeiros executores dos planos colonizadores do imperialismo.

Que fazer diante das revoluções?

Pedro Fuentes diz, várias vezes, que não existe uma situação revolucionária em âmbito mundial. No entanto, não pode deixar de reconhecer que, em vários países ocorreram revoluções: “Em nosso continente, o ascenso da luta de classes gerou movimentos revolucionários e inclusive revoluções (das quais o Argentinaço, a insurreição boliviana e a derrota do golpe na Venezuela foram as mais notáveis)”. Esse é um ponto de acordo. Partindo desse acordo, fica faltando discutir: o que os revolucionários devem fazer diante dessas revoluções?

Em nosso texto dissemos que “a ampla maioria da esquerda revolucionária (ou ex-revolucionária) chegou a uma conclusão fundamental: a classe operária não podia, ou não devia tomar o poder (…) No entanto, apesar de que se negam a lutar pelo poder, o problema do poder se coloca, em mais de uma oportunidade, na ordem do dia. Equador, Argentina, Bolívia (…) colocam esses setores na obrigação de dar uma resposta nesse terreno. Só que, coerentes com sua estratégia, nunca é uma resposta de classe, sempre é o terreno do regime: eleições ou, na melhor das hipóteses, eleições para a Assembléia Constituinte”.

Pedro Fuentes, em seu extenso texto, não diz uma palavra sobre nossa pesada acusação contra a maioria da esquerda revolucionária. Não diz se é verdade ou mentira que essa esquerda “revolucionária”, frente às revoluções, se nega a lutar pelo poder da classe operária. Mas Pedro não é omisso nesse debate. Ele entra na discussão dizendo que tanto a LIT como o PSTU “desprezam qualquer reivindicação de defesa de liberdades democráticas e, segundo sua posição, levantar em uma situação de crise ou ofensiva das massas a bandeira de Assembléia Constituinte é uma traição ou capitulação”.

Essas afirmações têm um objetivo deliberado de confundir a discussão. Em primeiro lugar, é uma falsidade completa dizer que desprezamos “qualquer reivindicação de defesa de liberdades democráticas”. As bandeiras e tarefas democráticas têm uma importância crucial antes da tomada do poder pelos trabalhadores, durante a tomada do poder e depois da tomada do poder. O que nós dizemos é que frente às revoluções, os revolucionários, para merecer esse nome, têm a obrigação de lutar pelo poder da classe operária e se, ao invés de fazer isso, lutam por uma saída burguesa, como, por exemplo, a convocatória de uma Assembléia Constituinte, estão cometendo uma traição.

Em determinadas circunstâncias, em um processo revolucionário, pode ser necessário levantar a bandeira de Assembléia Constituinte, mas esta sempre deve estar subordinada à luta pelo poder da classe operária. Isso foi o que ocorreu durante a Revolução Russa. Não foi por casualidade que os bolcheviques primeiro tomaram o poder e depois convocaram as eleições para a Assembléia Constituinte. Tampouco foi por casualidade que o governo dos Sovietes dissolveu a Assembléia Constituinte em sua primeira sessão.

Mas qual é então a estratégia de Pedro Fuentes para enfrentar os processos revolucionários? Vejamos suas próprias palavras: “Estas bandeiras (as democráticas) são parte essencial de um sistema de ruptura com o capitalismo porque não há formas de ampliar a democracia burguesa se não mediante uma forte mobilização que choque contra as atuais instituições burguesas”.

Ou seja, para Pedro Fuentes, as mobilizações dos trabalhadores têm de enfrentar as instituições burguesas. Para quê? Para ampliar a democracia e assim chegar, algum dia, quem sabe, à ruptura com o capitalismo. É a posição típica de todos os reformistas, que não lutam para que a classe operária tome o poder, destrua o Estado capitalista e o regime democrático-burguês.

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    Um vendaval oportunista corre o mundo (Edição 175)

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