Um seminário que pode ficar na história

Congresso em 2010 deve fundar uma nova central e fazer avançar a reorganização dos trabalhadoresNos abraços fortes se mostrava a alegria. Em alguns rostos, lágrimas de emoção. Militantes da Conlutas usavam também no peito os adesivos da Intersindical e vice-versa. Terminou em vitória o Seminário Nacional de Reorganização, nos dias 1º e 2 de novembro, em São Paulo. A emoção foi maior porque se definiu convocar um congresso unitário para 2010.

No congresso, a base irá decidir sobre as diferenças apresentadas nos 25 debates regionais que antecederam o seminário. Existiam grandes acordos como a necessária independência frente ao Estado, a perspectiva socialista, a defesa da ação direta das massas como instrumento privilegiado de luta e muitos outros temas. Mas também surgiram diferenças importantes.

As duas maiores eram sobre o caráter da nova central e sobre a composição da direção. Sobre o caráter, a Conlutas defende uma central que, além dos sindicatos, incorpore o movimento popular e estudantil e os movimentos contra as opressões. Já a Intersindical e outros setores defendem uma central fundamentalmente sindical.

Em relação à composição da direção da central, a Conlutas defende que ela seja indicada pela base a partir das organizações filiadas, com os critérios tradicionais de proporcionalidade direta. Já a Intersindical privilegia, em um primeiro momento, um acordo entre as correntes políticas da central.

A Conlutas propôs duas alternativas, caso não se superassem as diferenças: a primeira seria fazer o congresso de unificação em base aos acordos que já existem, e deixar a base do congresso decidir as diferenças, com o compromisso de todos de acatar o resultado da votação. Nesse caso, a Conlutas propunha que os delegados dos sindicatos – cuja participação e poder de voto ninguém questionava – decidissem sobre as diferenças. Uma segunda proposta era de, caso não houvesse acordo, manter uma Comissão de Reorganização, com um plano de ação unificado e a continuidade das discussões, dando tempo para que as diferenças fossem superadas.

Durante o seminário, a discussão sobre estes temas se fez presente já no primeiro ponto, que deveria discutir a conjuntura política. Houve uma novidade importante, com a representante do MTL (Movimento Terra, Trabalho e Liberdade), Janira Rocha, fazendo uma defesa acalorada na necessidade da unidade e apoiando a proposta da Conlutas de que o próprio congresso unificado deliberasse sobre as diferenças. Foi seguida por outros setores, como o MTST, com a mesma compreensão. Nessa noite, na comissão que dirigia os trabalhos, só os representantes da Intersindical seguiam contrários a essa proposta.

No dia seguinte, no entanto, pesaram mais os pontos de acordo existentes e a perspectiva de uma central unitária. A Intersindical reavaliou sua posição, e foi possível apresentar ao plenário uma proposta unificada, que inclui a marcação do congresso unitário para o início de junho de 2010, onde os delegados do movimento sindical e popular irão decidir sobre as diferenças.

A alegria explodiu entre os delegados. Em todos estava presente o sentimento de ter participado de um encontro que pode ter um caráter histórico. Após a aprovação das resoluções e moções, o seminário terminou com os militantes cantando unidos o hino da Internacional.

O que foi dito
“A principal pauta colocada para os trabalhadores hoje é a construção de uma ferramenta que tenha capacidade de pegar tudo o que está fragmentado e colocar junto sob uma única direção.”
Janira Rocha – MTL

“A reorganização é para nós estratégica e central. A fragmentação e o isolamento só reforçam a perda de nossas capacidades e a potência do movimento. Esse processo requer paciência, mas também entendendo a urgência.”
Helena Silvestre – MTST

“Temos pontos divergentes, mas também não são poucos os pontos que nos unem (…) É necessário agora, a fim de avançar na unidade, novas práticas e relações éticas e de fraternidade.”
Lujan Miranda (PSOL e Intersindical)

“Estamos bastante otimistas, pois achamos que nesse seminário foi possível construir as possibilidades reais para a unificação da Intersindical, Conlutas e outros setores. Agora, o próximo período é organizar a luta da classe trabalhadora e construir uma direção à altura dessa tarefa.”
Neida Oliveira, Cpers, Bloco Resistência Socialista – Conlutas

“Esse seminário foi um avanço muito importante na construção dessa ferramenta para a luta dos trabalhadores, dos movimentos sociais e da juventude desse país. Achamos que essa nova central deve ter um caráter sindical, mas também agregar o movimento social, popular e estudantil, pois sabemos que isso irá fortalecer o caráter classista dessa central.”
Saulo Arcangeli (Sintrajufe-MA), PSOL e Conlutas

“Acho que o principal resultado desse seminário foi o agendamento do congresso para 2010 e a resolução de que seja a base que decida. Isso, para o Andes, é fundamental. E essa nova central deve ser democrática, dirigida pela base e, principalmente, tem que ter um nível de liderança muito próxima da que vínhamos fazendo com a Conlutas, com coordenações, reuniões periódicas, para que não voltemos atrás e fazer com que apenas a cúpula decida.”
Milton Vieira do Prado Junior – Andes

“Estamos aqui dando um passo importante na possibilidade de uma alternativa classista, internacionalista. A Pastoral não tem posição fechada sobre o caráter da nova entidade, mas achamos que ela deve ser classista e profundamente democrática.”
Paulo Pedrini – Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo

Resoluções

  • Realização de um congresso, de 3 a 6 de junho de 2010, para a fundação de uma nova central
  • Votam nesse congresso delegados eleitos pelo movimento sindical e movimento popular que estão hoje comprometidos com o processo de reorganização
  • Esse processo será organizado por uma Coordenação pró-central, com a seguinte representação: 9 membros da Conlutas, 9 da Intersindical, dois do MTL, dois do MTST, dois da Unidos para Lutar, dois do MAS, dois da Pastoral Operária, dois da Corrente Trabalho e Emancipação e dois da FOS.
  • Realização de uma plenária durante o Fórum Social Mundial em 2010 em Porto Alegre (RS).
  • Plano de ação para o próximo período, com o apoio ativo às principais lutas.

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