Um novo “Cabeça Dinossauro”?


Entre altos e baixos, os Titãs voltam às paradas com cara de anos 80

Segundo, release divulgado pelos TItãs, Nheengatu seria uma língua artificial criada pelos jesuítas para unificar os idiomas indígenas com o português. Uma espécie de esperanto criado para facilitar a colonização dos índios no Brasil e o trabalho dos jesuítas. O nome contrasta com a capa, uma arte sobre a obra “Torre de Babel” de Pieter Bruegel, representando a célebre história bíblica da tentativa dos homens de atingir os céus com um empreendimento arquitetônico. A tentativa deu errado e como castigo deus criou segundo a lema diferentes idiomas para diferentes povos, sendo portanto mais difícil que eles se comunicassem.

O contraste entre o nome do novo disco dos Titãs e a referência à torre de babel na capa já antecipa muita das propostas do disco. Através de uma ironia sobre as relações humanas que embute certo pessimismo é nos apresentado o mais novo disco de músicas inéditas de Titãs, carregando muito do que consagrou esta que é uma das maiores bandas do rock nacional surgida nos anos 80. Ironia, pessimismo, estranheza e desconforto foram sensações que sempre acompanharam os grandes discos da banda. Sensações que, estão de volta neste novo disco.

Uma carreira mutante, de altos e baixos

O titãs surgiu no começo dos anos 1980 com uma proposta dançante, com elementos de iê,iê,iê (o nome original da banda era Titãs do Iê,iê, iê), reggae (por influência de seu ex-baixista, Nando Reis) e presença constante em programas de auditório da época como Raul Gil e Chacrinha. Porém, o clima dançante e alegre da banda no início da carreira rapidamente daria lugar a uma banda raivosa e crítica do Brasil que se formava na transição da Ditadura.

É com o disco “Cabeça Dinossauro” de 1986 que o Titãs começa a firmar de vez sua identidade na música popular do país. Expressando toda a indignação que a banda sentia com a situação do país e ao mesmo tempo reflexo das conquistas obtidas nos marcos da liberdade de expressão que se ampliava, o disco conta com desabafos como “Estado violência”, “Bichos Escrotos”, esta expressando de forma violenta o que representava para banda a abertura democrática, “Igreja” e as músicas “Polícia” e “Porradas”, inspiradas na prisão que a banda sofre no período por porte de drogas.

Diferente de outras bandas do período, o Titãs apostava no painel de um Brasil mais sombrio, mas ao mesmo tempo seguia experimentando em sua sonoridade através de discos que marcaram os anos 80, como “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” e “Õ blesq blom.” Usando e abusando da fórmula do pessimismo, da ironia, sendo raivosos, românticos e aproveitando de todo o poder lírico e versatilidade que proporcionava uma banda de oito integrantes, cinco cantores e tantos compositores.

A banda entraria em um duro período de enfrentamento com a crítica com os discos “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” e “Titanomaquia”. Duramente criticados pelas letras escatológicas e sonoridade ainda mais suja, encerraria-se no disco “Domingo” de 1995 o que poderíamos considerar o auge criativo dos Titãs. Ao disco Domingo se seguiriam os celebrados acústicos e um período de grande instabilidade para a banda, com o lançamento de discos fracos em comparação com os do início da carreira, a morte do guitarrista Marcelo Fromer, a saída de Nando Reis, que assim como Arnaldo Antunes construiu uma interessante discografia em carreira solo. A longevidade da banda chegou a ser questionada, mas felizmente, isto não aconteceu.

Um novo começo

Foi através da turnê de comemoração dos 25 anos do disco “Cabeça Dinossauro” que surgiu a inspiração para a composição das músicas do novo álbum dos Titãs. O disco capta muito dos sentimentos e debates que tomam conta do país com a nova situação política aberta em Junho, e de maneira ácida e violenta como os discos do início da carreira. Os Titãs se colocam assim em rota de colisão com a caretice e conservadorismo que se tornou o rock nacional dos anos 1980, expresso em declarações reacionárias e infelizes de figuras como Roger, vocalista do Ultraje a Rigor, Léo Jaime e Lobão. Este último foi inclusive agraciado com uma “homenagem” em forma de canção. A boba, mas certeira “Fala, Renata”, dedicada a todos aqueles que “falam demais”.

O disco é curto, conciso. Com letras breves e instrumental pesado. A crítica ao autoritarismo militar brasileiro aparece na música “Fardado”, que transforma em música uma das palavras de ordem mais utilizadas das ruas: “Você também é explorado, fardado”. Mesmo com letras simples, características dos Titãs, não deixam de ser propostas reflexões profundas sobre o país e diversos outros temas. A intolerância homofóbica e racista aparece na faixa de encerramento “Quem são os animais?”, lembrando em muito as canções de protesto dos anos 1980.

Não há canções de amor no disco. A canção que aparentemente cumpriria este papel, a chamada “Flores pra ela” na verdade é uma debochada crítica ao machismo. Conta a história de um casal em que ela é tratada como cão, como lixo, mas no final ele leva “flores pra ela” e tudo fica bem. A música mais “lenta” do disco, é a não menos agressiva “Canalha”, versão para música original de Walter Franco. “É uma dor canalha que te dilacera” canta o amargurado Branco Mello, que além de vocalista assume nesse disco o contrabaixo.

Se falta amor no novo disco dos Titãs, sobra amargura e deboche. Vem de Paulo Miklos, outro dos vocalistas da banda, alguns dos momentos mais sombrios do disco, como em mensageiro da desgraça, quando este canta: “Cansei da fome, do crack, da miséria e da cachaça. Cansei de ser humilhado, sou o mensageiro da desgraça”. Ou na reflexão sobre a morte composta com o ex-vocalista Arnaldo Antunes: “Morre quem mereceu e quem não merecia. Morre quem viveu bem e quem mal sobrevivia. Morre o homem sadio e o que fumava e bebia. Morre o crente e o ateu, um do outro companhia.” O Brasil recebe duas homenagens em forma de música com “república dos bananas” e “descobrimento do Brasil”.

Uma banda contraditória

Pelo alto número de compositores e a carreira heterogênea, cheia de canções de amor mas também músicas pesadas. o Titãs sempre foi considerado uma banda muito contraditória. Músicas como “Clitóris”, “Isso para mim é perfume” e outras sempre dividiram opiniões, causando constrangimento em alguns e sendo elogiadas por outros. A música “Pedofilia” do disco novo certamente ocupa o lugar da controvérsia.

É justamente nessa cara muitas vezes de reedição que se formam algumas críticas ao novo álbum. Estaria o Titãs apenas tentando construir um “cabeça dinossauro 2”? Para se somar ao clima de contradição, entre a audição das faixas do novo disco na internet era mostrada também um jingle cantado por Paulo Miklos e Fernanda Takais, vocalista do Pato Fu, celebrando a copa do mundo. Nada mais contraditório com o clima que o disco tenta construir.

De qualquer forma, o novo disco do Titãs é um disco para ser ouvido. Em tempos de mobilizações de rua, greves e incertezas sobre o país após o crescente questionamento popular ao governo petista, o disco serve como uma boa trilha sonora para aqueles que não se sentem representados por Lobão e esta onda conservadora que tomou conta dos artistas de rock dos anos 1980.