Um menino negro no réveillon de Copacabacana: o filme por trás da foto

Por que a foto de um garoto negro no réveillon de Copacabana teve tantos compartilhamentos e, ao mesmo tempo, provocou tantas polêmicas?

Antes de expor nossos argumentos queremos ressaltar que o fotógrafo errou ao publicar a foto sem autorização prévia dos pais da criança. Se fosse uma criança branca, provavelmente a sua imagem seria preservada.

Dito isto, queremos centrar nossos argumentos em outras polêmicas que nos têm cercados nos últimos anos.

Muitos militantes, das mais variadas organizações de esquerda e de coletivos negros, limitaram-se a afirmar que “era apenas uma criança negra encantada com a queima de fogos de artifícios na praia de Copacabana”. Outros exigiam: “deixem de associar negro a pobreza, abandono e solidão”, porque de fato muitos internautas insinuaram que aquele garoto estava na praia sem seus familiares.

Em nossa opinião, o que chama a atenção na imagem proporcionada pelo foto não é simplesmente a presença da criança negra nas águas de Copacabana apreciando a queima de fogos de artifícios, mas sim a completa ausência de gente negra entre os membros do grupo ao fundo. A presença do menino negro só realçou o flagrante contraste sócio-racial que se aprofunda no Brasil e, em especial, no Rio de Janeiro à medida que a crise social se intensifica!

O que a maioria dos ativistas contrários ao compartilhamento da foto não conseguiram captar foi justamente o que a massa negra proletarizada está aprendendo a identificar e a não naturalizar: a violência racial cotidiana.

Isso está ocorrendo porque o mito de que vivemos numa democracia racial está debilitado. Por mais de meio século esse mito funcionou como suporte ideológico da invisibilização do racismo e isso colocou os negros numa situação defensiva. Afinal, como denunciar algo que não existia? Certamente se esse “mito” estivesse a todo vapor, aquela foto não alcançaria a mesma repercussão e nem despertaria tantas polêmicas.

Agora, associem isso à guerra social instalada no Rio de Janeiro com milhares de funcionários públicos sem receber salários, mais de 1 milhão de desempregados, e uma escalada de ataques que o governo Temer impõe contra o conjunto dos trabalhadores, cujo fardo pesa mais sobre as costas do povo negro?

A questão é que existe um setor da “comunidade negra” que é ou julga ser classe média ou burguesia, e que por isso se sente incomodado com denúncias da situação de exclusão social dos negros brasileiros. Muitos destes sentem pavor em serem comparados com a massa negra proletarizada. Essa camada social – que Clóvis Moura denominou de negros do “Universo Letrado” – encontrou no último período um refúgio ideológico que chamamos de “empoderamento individual” que se expressa das mais variadas formas mas que, no limite, acaba sendo uma extensão do mito da democracia racial porque parte de uma visão muito setorizada dos problemas que agudizam a opressão racial.

Assim, abdicam das lutas coletivas enquanto parte de uma classe social explorada e oprimida (muitos sequer pronunciam a palavra “classe”), em benefício de malabarismos individuais em busca de ascensão social no interior de uma sociedade em que a exclusão negra é cada vez maior.

Durante o período em que o PT esteve à frente do governo esse setor chegou a defender a ideia de que no Brasil estaria surgindo uma “nova classe média negra” quando na verdade os dados estatísticos mostravam justamente o contrário: estava em curso uma crescente proletarização e precarização dos negros e das negras.

No atual contexto de decomposição do capitalismo brasileiro, a burguesia se apega a ideologias com esse tipo de conteúdo para tentar restituir o cambaleante mito da democracia racial. Não se trata mais de esconder o racismo como outrora, mas de apresentar os negros “vitoriosos” em meio ao abate cotidiano de outras tantas dezenas. São os “troféus negros” que a burguesia ergue sempre que precisa transferir o ônus do fracasso social do capitalismo para os ombros dos indivíduos. Assim, cria a ilusão de que vencem aqueles que foram mais capazes, que persistiram mais, que superam os obstáculos e derrotaram o racismo.

Portanto, o racismo passa a ser um problema dos indivíduos isoladamente. Por isso, somos estimulados a exaltar os “vitoriosos” e a não falar dos “derrotados”. À medida que a base da pirâmide de desempregados vai ficando mais larga e mais enegrecida, a tendência da burguesia é apresentar mais negros em seu ápice, ainda que lá, cada vez mais, sejamos menos. Essa mudança tática na forma como a burguesia está começando a tratar o problema racial no Brasil está em curso e muitos entre nós ainda não se deram conta disto.

Por isso mesmo muitos retrucaram: “quem foi que disse que aquela criança é pobre?” Perguntamos: e se fosse pobre, qual seria o problema? Seria ela mais um exemplo de família negra derrotada dentro dessa lógica liberal que responsabiliza os indivíduos pela sua condição social dentro de uma formação social racista e capitalista?

Nessa mesma direção, durante o Novembro Negro de 2017 abriu-se uma polêmica sobre o tema do genocídio entre alguns ativistas negros. Houve quem dissesse que “devemos falar mais sobre a vida do que sobre as mortes” como se a denúncia do genocídio não fosse uma forma de exigir medidas concretas para preservação da vida do povo negro.

É verdade que entre estes existem aqueles que querem “silenciar os mortos” para não ter que fazer balanço do genocídio negro durante os 13 anos em que o PT esteve no governo central. Mas há também aqueles negros que chegam ao absurdo de dizer que “nunca fui discriminado”, enquanto outros dizem que “estou cansado de falar que o Brasil é racista!”. Não à toa, essas falas têm como protagonistas, justamente, atores e cantores “globais”, políticos e intelectuais reformistas e liberais.

Porém, é o negro do “universo plebeu”, para dialogar novamente com Clóvis Moura, que sente literalmente na pele o quanto pesa ser negro proletário. Neste universo, fala-se de genocídio, feminicídio e de encarceramento não porque seja “legal” falar desses temas ou por puro vitimismo, mas porque seus entes estão sendo mortos e encarcerados em massa seja por governos de “direita” ou de “esquerda”. Nada além dessa constatação!

Já para o negro do “Universo Letrado”, pelo menos para a maioria, o problema racial se resolve com “respeito”. Assim, pegam uma questão histórica que envolve problemas estruturais e limitam ao campo das relações humanas e da diversidade cultural. O programa global “Encontro com Fátima Bernardes” talvez seja a maior expressão televisiva desse tipo de sentimento que emana do negro do Universo Letrado.

Ora, milhões de negros no réveillon de Copacabana deveria ser a coisa mais comum do mundo, pois se trata de um dos estados mais negros do Brasil e de uma praia que fica logo ali aos olhos dos moradores de muitos morros desse estado. Do mesmo modo que deveria ser comum grupos de adolescentes negros frequentarem os Shopping Centers dos grandes centros urbanos deste país. Qual problema existe nisso? Aparentemente, nenhum!

A questão é que nós não estamos falando de um país qualquer, estamos falando do país do genocídio negro, do feminicídio negro, dos estupros coletivos com requintes escravistas, dos linchamentos públicos de negros, do encarceramento em massa do povo negro, da seletividade racial que os patrões utilizam para empregar e para demitir. Estamos falando simplesmente do Brasil!

Não podemos esquecer que, em agosto de 2015, mais de 120 de jovens negros e pobres foram detidos arbitrariamente pela PM do Rio Janeiro pelo simples fato de estarem indo às praias de Ipanema e Copacabana. O então Secretário de Segurança Pública, José Beltrame, não mediu palavras ao firmar que “A liberdade de ir e vir exige deveres. Estavam no autocarro sem bilhetes. Quando alguém sai de casa, a quilômetros de distância, sem comer e sem dinheiro, como tenciona voltar?”. Estamos falando da segunda cidade mais importante do Brasil e não da África do Sul durante a vigência do regime do apartheid.

Quem não se lembra da paranóia anti-negra que os rolezinhos despertaram no inconsciente coletivo da classe média branca de todo o país?  Depois desse fenômeno, vários shoppings baixaram portarias proibindo a entrada de adolescentes (leia-se negros e pobres) nestas localidades desacompanhados dos pais.  Ou seja, somos minoria nestes espaços não porque não queremos frequentá-los, mas porque não temos condições de frequentá-los ou somos arbitrariamente impedidos.

Para os negros que passaram o fim de ano com a mesa farta ou nos réveillon’s da burguesia – uma minoria entre nós – talvez a foto em debate não expresse nada além de uma criança negra na praia, mas para quem passou as festas de fim de ano sem condições de frequentar as “Copacabana” da vida ou, pior ainda, desempregado, sem salário, sem ceia, com exército circulando seus barracos, com polícia azucrinando suas vidas, ou mesmo enterrando seus mortos, aquela foto sintetizou um filme coletivo que só quem sente a segregação sócio racial na pele sabe mensurar o peso que tem.

Algumas semanas antes do Natal e do Revellion o presidente Temer (PMDB), que se sustenta em três fios podres de aprovação popular, tentou colocar em votação a reforma da Previdência. No mês anterior, havia colocado em vigor a reforma trabalhista e alguns meses antes teria salvado sua própria pele de processos criminais escancarados. Fez tudo isso chamando servidor público de privilegiado e abrindo os cofres da União para comprar votos de um parlamento cheios de ratazanas.

No Maranhão, a PM do governador Flávio Dino (PCdoB) ajudou a derrubar uma casa logo no início de 2018 sem qualquer ordem judicial. O prefeito de Macapá, Clécio (Rede) tenta retirar direitos de servidores públicos com o apoio dos vereadores do PSOL.  Em São Paulo o tucano João Dória anuncia mais um aumento de passagem. A capital do Rio Grande do Norte, que ironicamente se chama Natal, virou o ano entrincheirada. Da direita tradicional, passando pelos stalinistas, pela esquerda neodesenvolvimentista e pelo neorreformismo, ninguém suspendeu os ataques aos trabalhadores em nome das festas de fim de ano; a mesma coisa aconteceu em relação à resistência das vítimas de todos esses ataques.

Em outras palavras, a situação em vigor no Brasil não permite que, em nome das festas de fim de ano, as massas populares subtendam de suas mentes a guerra social que  ronda suas vidas. E foi esse mesmo sentimento que fez com que, no Carnaval de 2017, o “Fora Temer” tenha sido um dos coros mais proferidos do Oiapoque ao Chuí. A depender da temperatura da luta entre as classes, uma simples foto pode traduzir muitas coisas para muita gente, sobretudo para aquelas que não têm meios e nem condições de colocar para fora aquilo que trava suas gargantas.

Estamos certos de que a grande repercussão e toda a polêmica que a foto em discussão gerou têm a ver com a força que o debate sobre a opressão racial ganhou nos últimos 15 anos no Brasil, ainda mais embalados pelo aprofundamento da polarização social que atravessa nosso país, algo desconsiderado pelos ativistas adeptos da narrativa da “onda conservadora” e do “retrocesso no nível de consciência dos trabalhadores”.

Os que conseguiram se indignar com aquela “simples foto”, incluindo entre estes muitos brancos, estão aprendendo a identificar o racismo e também a enfrentá-lo. Torcemos para que esse mesmo sentimento se aprofunde nas próximas semanas e que possa unir negros e brancos antirracistas de nossa classe para enfrentar e desmontar os cordões humanos que os governos e as burguesias de todo o Brasil tentarão montar para realizar mais um carnaval regado à segregação sócio racial, e que com essa mesma disposição e espírito crítico possamos também enfrentar e derrotar o governo Temer, o Congresso de corruptos e todas as suas reformas!