Um levante operário sacode Fortaleza


Foto: Mídia Ninja

Trabalhadores da Construção Civil cruzam os braços, se mobilizam e enfrentam forte repressão

Fortaleza é conhecida pelo sol que brilha o ano inteiro, pelo verde do mar, suas belas praias e por uma culinária que mescla costumes do litoral e do sertão. É um dos principais destinos de turistas nacionais e internacionais. Só para a Copa do Mundo, são esperados 402 mil visitantes conforme a previsão do Ministério do Turismo, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro e Distrito Federal.

No entanto, a Fortaleza que se vende nos pacotes das agências de turismo não é a Fortaleza vivida pela maioria dos seus 3,597 milhões de habitantes. Basta um olhar mais apurado para ver como as desigualdades sociais e a concentração de renda produziram uma paisagem urbana, cujo traço mais marcante é o contraste.  Existem várias “Fortalezas”.

 Bairros como Beira-Mar, Aldeota e Meireles concentram a maior quantidade de hotéis da cidade e os edifícios mais luxuosos. Morar nessa área é um privilégio de uma ínfima minoria. O preço do m² nesses bairros está acima do preço médio do m² da cidade, que hoje está em R$ 5.380,00, o oitavo mais caro do país. Segundo a pesquisa Fipe-Zap, a capital cearense é a cidade brasileira que registrou a maior alta de preços dos imóveis entre 16 cidades pesquisadas: 5,20%.

Por outro lado, bairros como Canidezinho, Granja Lisboa, Planalto Ayrton Senna, Genibaú e Conjunto Palmeiras possuem IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) entre 0,117 e 0,179. Isso significa condições de vida semelhantes aos dos países mais subdesenvolvidos no mundo. Esses números se traduzem em baixo nível de escolaridade, renda familiar per capita que beira ou está abaixo da linha de miséria e uma reduzida longevidade ou expectativa de vida.

A melhor expressão desse abismo social, que separa essas duas “Fortalezas”, diz respeito à cobertura de saneamento básico. A capital cearense é a segunda pior do país neste quesito, com 54% dos domicílios sem atendimento por parte da rede de coleta de resíduos domésticos. É na periferia da cidade que a situação é de pura barbárie. Os bairros da regional VI, onde fica a exuberante Arena Castelão, tem 90% das domicílios desassistidos pela rede sanitária. Trata-se de uma área que ocupa, nada mais nada menos, 42% do território da capital, onde a renda per capita é R$ 239,00.

Ironicamente, a região citada acima foi a que concentrou o maior número de intervenções voltadas para a realização da Copa do Mundo. Túneis, viadutos, duplicação de pistas, rotatórias e a própria Arena Castelão. As construtoras, aproveitando-se da intervenção do Estado, compraram terrenos e estão realizando novos empreendimentos. Portanto, a regional mais pobre da cidade é a que experimentou a maior alta no preço dos imóveis. 

Como se não bastasse a atuação da especulação imobiliária e as remoções promovidas pelo poder público, a assembleia legislativa aprovou uma mensagem do governador do estado (Cid Gomes) autorizando a cobrança de uma taxa de melhoria para os imóveis localizados nas intermediações das obras públicas, encarecendo mais ainda os gastos com moradia. É uma nítida medida que favorece as construtoras, o mercado imobiliário e decide quem pode morar perto do “legado” da Copa.


Imagem Coletivo Nigéria

O levante operário é uma luta pela dignidade e pelo direito à cidade
Enganam-se os que pensam que a atual greve dos operários da construção civil é um conflito meramente econômico. As reivindicações por aumento salarial, cesta básica e plano de saúde estão inseridas no contexto do direito à cidade e da luta por uma vida digna.

A esmagadora maioria dos homens e mulheres da construção civil vive nas áreas mais pauperizadas da cidade. Bairros em que o saneamento básico não chegou, onde os equipamentos de lazer e cultura, como praças e escolas, estão sucateados e desprovidos de uma rede de atendimento básico de saúde digna.

Além disso, os corpos cansados que erguem a parte nobre da cidade sofrem com dois grandes problemas: a péssima qualidade do transporte público e a corrosão do poder de compra, consequência do aumento da inflação. Somente neste ano, a tarifa de energia elétrica foi reajustada em 17% e a cesta básica na capital cearense sofreu a maior variação do país. Para adquiri-la, um fortalezense tem que desembolsar R$ 304,06 no mês, valor que chega a ser quase a metade do salário mínimo (R$ 724,00). O gasto com alimentação de uma família padrão (2 adultos e 2 crianças) foi de R$ 912,18. 

Hoje, um servente da construção civill recebe um salário mínimo e os profissionais (pedreiro, ferreiro, carpinteiro, eletricista, operador de betoneira e bombeiro hidráulico) R$ 1.058,00. Ou seja, em Fortaleza, uma família operária vive sob circunstâncias penosas. É uma vida de privações para garantir que a renda dê conta das necessidades básicas.

O aumento do custo de vida e os baixos salários, praticamente, obrigam esses trabalhadores a realizarem hora-extra e trocarem a companhia da família aos fins de semana por mais trabalho. Esse excessivo prolongamento da jornada de trabalho é o principal responsável pelas doenças ocupacionais e recorrentes acidentes de trabalho, os quais deixam centenas de inválidos todos os anos e já vitimou, oficialmente, dois operários em 2014.

É somente dentro deste contexto que pode ser compreendida a revolta operária que tomou conta de Fortaleza. A pauta de reivindicações é um reflexo dessa gritante contradição, a qual não permite que operários da construção civil se apropriem da riqueza que eles produzem. Não é a toa que principal música cantada nos piquetes de greve é “Cidadão” de Zé Ramalho.

Uma cesta básica de R$ 150,00, plano de saúde e reajuste de 15% salarial não é nada do outro mundo. Não é uma proposta irreal, como afirma o SINDUSCON (sindicato patronal). É a ganância por uma taxa de lucro maior e o descaso com a vida operária que explica a intransigência. As empresas não vão quebrar se concederem o justo pleito dos trabalhadores. Não dão o braço a torcer pelo o que acabamos de falar, mas também, porque não querem sair desse embate com os operários fortalecidos. 

Da Fortaleza da repressão à Fortaleza da solidariedade 
Desde o início da greve, o governo do estado escolheu um lado. Fechou os olhos para as legítimas e mínimas reivindicações dos trabalhadores e disponibilizou boa parte dos destacamentos “anti-distúrbios” para desmontar a resistência operária. A brutal repressão em frente ao shop Rio Mar, que deixou feridos, além de um militante do PSTU detido, é uma prova cabal da criminalização da do movimento.

Outra prática comum tem sido o cerco policial às manifestações. A maioria das assembleias realizadas no bairro do Meireles ocorre sob o cerco da Tropa de Choque e, todos os dias, as grandes passeatas, resultado da reunião de dezenas de piquetes, são impedidas de seguir devido à ação policial. Essa prática se configura como um desrespeito à livre manifestação, previsto na Constituição.

A repressão desatada contra o movimento beira a níveis absurdos. Os operários, organizados em passeatas, estão impedidos de descer para Avenida Beira Mar, o principal cartão postal da cidade. Em tempos de Copa, a principal preocupação do governo é evitar que a voz dos peões seja ouvida pelos turistas e pela imprensa internacional.

Por outro lado, se a repressão é desproporcional, a greve, mesmo com a Copa, está polarizando a cidade e, neste sentido, vem atraindo a simpatia de várias camadas da população, inclusive de turistas. Mesmo com o intento de criminalizar o movimento, até o presente o momento, os governos estadual, municipal e a patronal vêm perdendo o debate na sociedade. Cenas de apoio à greve são vistas cotidianamente, principalmente de cobradores, motoristas e usuários do transporte coletivo. Além disso, muitos jovens, sindicalistas e militantes de diversas organizações estão, cedo da manhã, nos canteiros obras ombro a ombro com os trabalhadores.

É a solidariedade de classe e o credo em suas próprias forças que definirá o futuro dessa greve. Esses trabalhadores, em especial ao jovem classe operária, não são acostumados à rotina de pequenas regalias. Dizem-nos que não têm nada a perder. E quem sabe seja isso o que explica a tamanha disposição e vontade de vencer que trazem consigo. É essa força o combustível que, hoje, dobrará os patrões e a repressão do governo estadual e que, amanhã, construirá um mundo novo.  

VÍDEO Zé Maria declara apoio à greve da Construção Civil de Fortaleza

ACESSE o site do PSTU-Ceará