Um King Kong para as multidões

Desde o final do ano, está em cartaz, em cinemas de todo o Brasil, a terceira versão cinematográfica de “King Kong”. Essa última versão dá o tom do estágio atual da evolução dos efeitos visuais e sonoros, principalmente se comparada à clássica fita original de 1933, ou mesmo em relação à fracassada versão de 1976.

O filme, um extenso longa-metragem com mais de 3 horas de duração, mostra sua opulência desde a primeira cena, com ambientes totalmente recriados para retratar fielmente a Nova York da década de 30. Não por acaso, o diretor escolhido para dirigir esse “King Kong” é alguém com larga experiência em mega-filmes (os chamados “blockbusters”): Peter Jackson. Ele levou às telas, entre outros, a trilogia de “O Senhor dos Anéis”, com orçamentos e estruturas nada modestas.

A película traz a história de uma equipe de filmagem que parte de navio para uma ilha desconhecida para rodar um filme “naturalista”, mesmo sem ter apoio dos executivos, que temem que ele seja um fracasso de bilheteria.

Lucro mais importante que talento
Quase como uma regra, as grandes produções nos trazem o mais avançado nos efeitos, mas prescindem quase que inteiramente do talento dos atores. Boas interpretações apenas “roubam” tempo das cenas de ação, e isso o estúdio financiador, na busca eterna do lucro, não pode aceitar. Afinal, as bilheterias seriam seriamente afetadas.

Nesse tom, desperdiçam-se sem piedade bons atores, em especial Adrien Brody (protagonista de “O Pianista”). É triste vê-lo reduzido a um papel monótono, quase sem falas e repleto de cenas de fugas inacreditáveis.

Gasta-se tanto para dar uma feição mais “subjetiva” ao gorila de 7 metros, com olhares quase-humanos, porém praticamente não se vêem cenas com clara criatividade do diretor, sua equipe ou mesmo dos atores. Cenas de espanto e caras de surpresa se repetem até a exaustão, num clima que supõe uma platéia simplesmente esquecida do leitmotiv do filme, ou seja, a descoberta de uma criatura totalmente descomunal em um ambiente totalmente desconhecido. Ora, precisa mais surpresa do que isso? O diretor discorda e para toda nova criatura que aparece lá estão as forçadas caras de espanto indizível.

Cenas forçadas
Também fica difícil explicar a relação principal do filme, entre o gorila e sua adorada loira (interpretada por Naomi Watts, de “O Chamado”). O gorila mostra-se selvagem com todos à sua volta. Até mesmo uma tribo que ainda sobrevive nesse inóspito ambiente o tem como fera à qual se deve oferecer sacrifícios regulares para que ela se mantenha em paz.

Sua força é capaz não só de matar homens como se eles fossem moscas, mas também de matar três Tiranossauros Rex! Outra cena extremamente forçada que desenha um intragável duelo de titãs: King Kong versus Jurassic Park. Não seria nenhuma surpresa se tal cena fosse pensada antes para o jogo King Kong, uma vez que o lucro do setor dos jogos eletrônicos já supera com folga os lucros da indústria cinematográfica.

Seguindo nessa linha do inverossímil, não é nada fácil engolir e aceitar o choro desesperado da “bela” toda vez que a “fera” encontra-se ameaçada.

É claro que, por outro lado, a imbecilidade humana também não se justifica. Kong é capturado, depois de uma seqüência de mortes e perseguições, e levado até Nova York para ser exibido como “King Kong – A 8ª Maravilha do Mundo”.

Com toda a “alta-sociedade” reunida para ver a besta domada, uma questão logo surge: Quem é mais selvagem no fim das contas? A fera (animal) ou as feras (os burgueses)?

O próprio responsável pela captura de King Kong, o diretor do filme naturalista (interpretado por Jack Black de “Alta Fidelidade”) diz sem nenhum pudor: “Vamos oferecer às pessoas uma maravilha da natureza pelo preço de um ingresso!”. Qualquer semelhança com a indústria do entretenimento capitalista não é mera coincidência.

A qualidade cinematográfica do filme fica por conta, tão somente, de duas cenas entre a bela e a fera. A primeira em que ela, dançarina de comédias e vaudevilles (operetas de humor), dança para ele, e a segunda em que ele, já em NY, retribui com uma improvisada dança sobre o gelo do Central Park.

Em suma, um filme fraco, repleto de efeitos especiais e com situações pensadas para agradar o grande público, sem fazê-lo pensar em mais nada, só entretenimento vazio pura e simplesmente.