Um exemplo de parlamentar revolucionário

Ao longo dos 15 anos, o PSTU teve vários parlamentares e espera eleger outros nas próximas eleições. Ernesto Gradella é um deles e simboliza todos os restantes. Não por acaso, depois de ter sido parlamentar por anos, não mudou de vida e segue participando de todas as lutas dos trabalhadores na região de São José dos Campos. É um revolucionário socialista que cumpriu uma tarefa no parlamento e depois continuou sendo o mesmo militante de sempre.

Um dos episódios mais famosos de Gradella foi durante a votação do impeachment de Collor. A população acompanhou a votação, parlamentar por parlamentar. A política geral do PT era a deposição de Collor, mas que Itamar tomasse posse, para não abalar mais o regime. Gradella, em nome da Convergência Socialista, votou pelo impeachment. Em sua declaração, se colocou contrário à posse de Itamar, defendendo eleições gerais no país.

O que você fazia antes de ser eleito?
Gradella – Depois de formado em Engenharia, arrumei um emprego em São José dos Campos, cidade em que eu nunca tinha estado antes. Aqui, o partido tinha três militantes, com os quais passei a atuar. O ano era 1978, ano da luta pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita.

Em 1979, o clima de greve nas fábricas metalúrgicas era muito grande e nos jogamos com tudo para organizar a mobilização, convocando a assembleia da campanha salarial, apesar de o sindicato local ser dirigido por um pelego já há 25 anos. Um companheiro nosso conseguiu aprovar a greve e, apesar dos pelegos terem fugido, a paralisação durou cinco dias e deu origem à oposição sindical metalúrgica.

A Convergência Socialista se fortaleceu no setor. Nesse mesmo período, nossa atuação foi construir o PT na cidade e região. Fruto dessas lutas e do ascenso do movimento operário no país e na região, nas eleições de 1982, fui um dos dois vereadores eleitos pelo PT em São José dos Campos para um mandato que iria de 1983 a 1988. A orientação do partido para o mandato foi usá-lo nas lutas dos trabalhadores contra o peleguismo e por melhores condições de vida.

Além de ser vereador, comecei a dar aulas de Matemática e Física como professor da rede estadual. Foi também uma atividade importante, pois nesse período os professores protagonizaram lutas que reuniam milhares de pessoas em mobilizações e greves estaduais e pude atuar não só como vereador, mas também como categoria.

E o mandato de deputado, como veio?
Gradella – Em 1986, fui o candidato da CS no estado para deputado federal constituinte e fiquei como segundo suplente de Luiza Erundina. Fui reeleito vereador em 1988. Em 1989, assumi por dez meses como deputado em Brasília, pois a eleição de Erundina para prefeita de São Paulo abriu essa oportunidade. O vice dela, Luiz Eduardo Greenhalg, era o primeiro suplente. Voltei ao mandato de vereador até ser eleito deputado federal em 1990.

Em 1992, participamos do impeachment do Collor. A CS é expulsa do PT. Durante um período, chegamos a ter dois deputados em Brasília, quando o Cyro Garcia assumiu como suplente do Rio de Janeiro. Em 1994, participamos da fundação do PSTU.

Como foi a campanha?
Gradella – Todas as nossas campanhas foram feitas pela militância aguerrida da CS, que agrupava também uma grande periferia. Existiam muitas lutas nesse período e nossas campanhas sempre estavam coladas a essas lutas. Nunca conseguimos caracterizar com segurança se seríamos ou não eleitos, mas isto nunca interferiu no ânimo dos companheiros.

No parlamento, como era a sua atuação? Quem discutia as suas ações, como eram definidas?
Gradella – A linha do partido sempre foi colocar o mandato à disposição das lutas dos trabalhadores. Procurávamos sempre estar presentes nas mobilizações e greves das diversas categorias, que eram muito frequentes naquele período. Nossas ações sempre foram discutidas dentro do partido, na direção regional quando vereador e depois pelos companheiros que faziam nossa assessoria na Câmara dos Deputados, indicados pela Direção Nacional.

Que projetos você apresentou?
Gradella – Como deputado federal, foram vários projetos que tratavam da política salarial do período, além de outros que suspendiam o pagamento da dívida externa, contra o programa de privatização das estatais, impedindo o “afastamento para apuração de falta grave” de dirigentes sindicais, cipeiros e todos trabalhadores que tivessem estabilidade garantida em lei. Este projeto foi aprovado e vetado pelo então presidente FHC. Na época, nossa maior luta foi contra a privatização da Embraer. Inclusive aprovamos na Câmara um projeto que retirava a Embraer do programa de privatização, mas não chegou a ser votado no Senado.

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